Especialistas criticam desvio da Linha 20-Rosa do eixo da Faria Lima
Engenheiro de transportes e ex-presidente do Metrô apontam risco de perda de demanda e falhas de integração ao afastar o metrô de uma das principais centralidades de emprego de São Paulo
Um artigo de opinião publicado no jornal O Estado de São Paulo reacendeu o debate sobre o traçado da Linha 20-Rosa do Metrô de São Paulo. Assinado por Ivan M. Whately, engenheiro especializado em planejamento de transportes e vice-presidente do Instituto de Engenharia, e Sérgio Avelleda, ex-presidente da CPTM e do Metrô de São Paulo e ex-secretário municipal de Mobilidade e Transportes, o texto questiona a decisão do Metrô de afastar parcialmente a nova linha do eixo da avenida Faria Lima.
Os autores sustentam que a mudança representa um equívoco técnico relevante, ao deixar de atender diretamente uma das maiores concentrações de empregos da capital. Segundo eles, a região da Faria Lima apresenta densidades próximas de 280 postos de trabalho por hectare, patamar típico de centralidades metropolitanas consolidadas, com geração intensa e recorrente de viagens. “As linhas de alta capacidade existem justamente para atender áreas onde a demanda já está formada, é previsível e se renova todos os dias”, afirmaram.
No artigo, Whately e Avelleda comparam esse cenário ao traçado alternativo adotado, que prioriza o entorno das estações Teodoro Sampaio/Cardeal Arcoverde e Fradique Coutinho.
Embora reconheçam tratar-se de uma área urbana consolidada, os autores observam que ali predominam usos residenciais e comerciais de bairro, com densidades de emprego mais baixas e dispersas. O efeito prático, segundo o texto, seria a redução do potencial de captação de passageiros e do retorno social do investimento.
Ivan Whately e Sérvio Avelleda (Divulgação)
Outro ponto destacado é o impacto do novo traçado no acesso às estações. O trecho originalmente previsto ao longo da Faria Lima contemplava três estações, enquanto a alternativa adotada inclui apenas duas, resultando em um espaçamento considerado excessivo entre Fradique Coutinho e Tabapuã. Isso ocorreu porque o Metrô deslocou o eixo do ramal, passando pelo subsolo do bairro dos Jardins.
Para os autores, esse intervalo foge do padrão da rede metroviária paulistana e dificulta o acesso a pé, fator decisivo para a demanda. Eles lembram que cerca de 75% dos usuários caminham até 600 metros para acessar uma estação e que, acima disso, a probabilidade de uso do sistema cai de forma acentuada.
O texto também critica a solução proposta para a integração com a Linha 4-Amarela. A escolha da estação Fradique Coutinho como ponto de conexão é apontada como problemática por limitações físicas e viárias, especialmente para a integração com corredores de ônibus e linhas alimentadoras. Em contraste, a estação Faria Lima é descrita como uma estrutura concebida desde a origem para funcionar como nó intermodal, com maior capacidade de circulação e acomodação de fluxos.
Atual traçado da Linha 20 afasta o ramal do eixo da Avenida Faria Lima e terá distância incomum entre estações
Linha 2-Verde na Alameda Itu em vez da Avenida Paulista
Para ilustrar o argumento, os autores recorrem a uma analogia direta: implantar a Linha 20 sem atender a Faria Lima seria equivalente a construir a Linha 2-Verde desviando-a da avenida Paulista para vias paralelas como a Alameda Itu. “Tecnicamente possível, talvez. Urbanisticamente e funcionalmente, um contrassenso”, escrevem.
Whately e Avelleda ressaltam que não se trata de uma disputa entre bairros, mas de eficiência e retorno do investimento público. Com demanda estimada em cerca de 1,3 milhão de passageiros por dia quando plenamente implantada, a Linha 20-Rosa exigiria, segundo eles, estações e integrações dimensionadas para grandes volumes de passageiros desde o início.
O artigo conclui defendendo a reabertura do debate enquanto o projeto ainda está em fase de desenvolvimento. Para os autores, revisar o traçado não enfraquece o projeto, mas reforça a tradição técnica do planejamento metroviário paulistano. Ignorar a discussão, afirmam, seria o verdadeiro risco para uma obra que condicionará o funcionamento da cidade por décadas.
O plano do governo Tarcísio de Freitas é concluir o projeto básico no segundo semestre e então preparar a licitação de concessão do ramal à iniciativa privada, possivelmente com leilão a ser realizado em 2027 com obras sendo iniciadas em 2028.
Um aspecto polêmico do projeto diz respeito à insistência do governador em começar a Linha 20 pelo ABC Paulista, que terá menor demanda de passageiros e menos conexões com a rede sobre trilhos.
