Uma redução de tempo de quase uma hora em cada sentido. É o que deve economizar em média um passageiro que embarcar na estação Capão Redondo, no extremo de São Paulo, e seguir até a estação Chácara Klabin, uma das três inauguradas nesta sexta-feira (28) na Linha 5-Lilás. A viagem de trem, de cerca de 20 km, leva em torno de 35 minutos, conforme o site mediu nesta manhã. Já se esse usuário resolvesse chegar ao mesmo destino com apenas um ônibus levaria cerca de uma hora e quarenta minutos.

É claro que essa hipotética viagem não é feita por quase ninguém afinal há meios de transporte e linhas que reduzem esse tempo além de destinos bem mais procurados que Chácara Klabin, estação em meio a um bairro residencial de classe média e com pouco movimento de passageiros. Mas sem dúvida dá uma ideia do imenso impacto causado pela ligação da Linha 5-Lilás com as linhas 1-Azul e 2-Verde operadas pelo Metrô.

O sonho de ver a região de Santo Amaro conectada de forma mais eficiente com outras linhas férreas é antigo, como mostramos recentemente. Por isso não é de estranhar que as expressões dos primeiros passageiros a acessar as novas paradas tenha sido de um certo espanto e alívio para logo se transformar em excitação. Foi, sem dúvida, a inauguração em que vimos mais pessoas determinadas a aproveitar a partir do primeiro minuto de operação e que demorou mais tempo do que se previa graças à cerimônia de abertura que só liberou os primeiros passageiros próximos ao meio-dia.

Mesmo operando das 10 às 15 horas todos os dias da semana, o novo trecho, que inclui também a bela estação Hospital São Paulo, deve impactar fortemente na demanda da linha que hoje transporta cerca de 350 mil pessoas por dia. Nada menos que meio milhão de usuários devem se juntar a eles nos próximos meses, à medida que horário de funcionamento é ampliado. Basta uma conta simples para mostrar como uma linha de metrô traz benefícios para a sociedade: se cada um desses novos usuários economizar uma hora em seu trajeto teremos nada menos que 500 mil horas diárias que deixarão de ser perdidas em deslocamento. É como se houvesse mão de obra disponível para que mais de 60 mil pessoas trabalhassem oito horas por dia.

Agora, com 16 estações (a 17ª, Campo Belo, está prevista para o final do ano), a Linha 5-Lilás passa a atender não só as regiões de Campo Limpo, Santo Amaro, Brooklin, Campo Belo e Moema como a Vila Mariana sem falar em vários pólos de atração como hospitais, escritórios, shoppings e faculdades, entre outros. De quebra, espera-se um impacto positivo em outras partes da rede metroferroviária como as estações Pinheiros, Paulista/Consolação e Paraíso, entre outras.

Plataforma de Klabin

Com as três novas estações, a rede de “metrô” (seguindo a divisão informada pelo governo) chega à 93,6 km que somados aos 273 km da CPTM faz com que a região metropolitana de São Paulo atinja a marca de 367 km de trilhos. Saiba a seguir as nossas impressões das três novas estações:

Chácara Klabin

Quem acompanha o site viu que a interligação entre as duas linhas tinha tudo para ser veloz e prática e foi isso que confirmamos. Em pouco mais de um minuto de caminhada e dois lances de escadas você já está na plataforma da Linha 5, por exemplo. São nada menos que oito escadas rolantes em cada plataforma e vários contadores de passageiros, o que facilita os deslocamentos. Tudo isso porque Klabin foi planejada desde o início para receber a Linha Lilás, um raro caso em que o projeto foi seguido praticamente à risca. Lembrando também que essa estação não possui acesso próprio para a rua – quem for desembarcar nela usará o acesso da estação da Linha Verde.

O ponto negativo aqui é mesmo a ausência das portas de plataforma, também chamadas de PSDs. A Bombardier, que é a fornecedora oficial do equipamento, na verdade subcontrata outras empresas para fazer isso e foi aí que surgiu o problema. Um dos contratados simplesmente não cumpriu com o cronograma e no fim a própria empresa canadense assumiu a montagem em Santa Cruz e Klabin, mas apenas a primeira recebeu as portas – ainda sem funcionar, é verdade. Segundo um executivo do Metrô, a fabricante deve apresentar um novo cronograma de instalação nas próximas semanas, mas certamente é um trabalho que vai longe ainda, infelizmente.

Santa Cruz

Era a estação que mais curiosidade despertava por conta da profundidade, de cerca de 48 metros, e do tempo para trocar de linha já ela lembra a estação Pinheiros e seu vários lances de escadas. Porém, a surpresa aqui foi positiva: apesar de levar um bom tempo – calculamos em pouco menos de 4 minutos entre a plataforma da Linha 5 e a plataforma sentido Tucuruvi da Linha 1-Azul – o trajeto é bem melhor pensado que na estação da Linha 4.

Desta vez o Metrô decidiu separar os passageiros que sobem dos que descem e também instalou nada menos que seis escadas rolantes em cada piso. Numa operação normal, por exemplo, três escadas descem e três sobem em partes separadas. Além disso é necessário caminhar poucos metros para chegar ao próximo lance em vez de dar a volta no andar como em Pinheiros. Em caso de uma demanda maior em um dos sentidos é possível ampliar o número de escadas sem comprometer a velocidade.

Ainda no mezanino, que lembra o da Linha 4, foram escavados pequenos túneis laterais para que os usuários não se acumulassem na própria plataforma – afinal a demanda diária estimada em Santa Cruz é de 138,4 mil pessoas. Outra melhoria está nos túneis de ligação com a Linha 1. Quem sai da linha Lilás e segue sentido Tucuruvi encontrará dois túneis paralelos, um no sentido Linha 1 e outro de retorno. Ou seja, sem o atropelo da estação Paulista, por exemplo. Já quem segue sentido Jabaquara subirá mais um piso dos sete existentes para chegar ao acesso à plataforma da Linha Azul. É nesse andar que estão os bloqueios e a bilheteria, outro ponto positivo afinal o acesso, mesmo para a Linha 1, é bem fácil por esse prédio novo.

Dos acessos que levam às plataformas da Linha 1, o de sentido Jabaquara é bastante curto e concentrado no final dela. Já a área de ligação com plataforma de Tucuruvi é bem maior do que imaginávamos. São seis escadas rolantes e uma fixa sendo que um dos túneis leva à uma entrada no meio da plataforma, afinal a demanda sentido centro será bem maior que para o Jabaquara.

O único aspecto preocupante que testemunhamos foi uma certa confusão no piso onde estão os túneis sentido Tucuruvi. Passageiros que desciam para a Linha 5 se misturavam aos que vinham da Linha Azul obrigando os funcionários da ViaMobilidade a repetir em voz alta quais eram os caminhos possíveis. Provavelmente, isso será desnecessário assim que os passageiros começarem a conhecer a estação.

Por fim, as portas de plataforma foram entregues incompletas e sem funcionar, mais uma vez uma decepção por parte da Bombardier, empresa que é uma gigante industrial com divisões de aviação e outros equipamentos mas que não consegue resolver um projeto em que trabalha há muitos anos no Brasil.

Hospital São Paulo

É, sem dúvida, a mais bela das estações da Linha 5-Lilás. Bem inserida no entorno, com dois acessos mais compactos, ela sobra em iluminação natural e numa estrutura metálica leve e bonita. Com três pisos até o mezanino, Hospital São Paulo demonstra um cuidado maior com o acabamento que as demais – não à toa o consórcio é o mesmo que executou o acabamento em AACD-Servidor.

No nível da plataforma, ela parece muito com as estações da Linha 4-Amarela, mas por estar sem as portas de plataforma a impressão é que é mais ampla – o que deve ser verdade afinal a via da Linha 5 é mais larga do que a da Amarela. O movimento nos primeiros minutos de funcionamento nos surpreendeu, como que se as pessoas já contassem com a sua existência a partir de hoje.

A grande questão é saber se o público que vem da estação Santa Cruz irá preferir descer vários lances de escada para andar apenas uma estação e voltar a subir outros bons lances até chegar um quarteirão depois do Hospital São Paulo, principal pólo de atração na região – ele fica a apenas 750 metros da avenida Domingos de Morais. São aspectos que apenas o dia a dia poderá nos responder.

Um “nó” que se multiplica

Como dissemos, a rede metroferroviária de São Paulo está perto de chegar a quase 380 km de trilhos nos próximos meses. Caso algumas obras saiam do ostracismo esse total deve atingir 400 km nos próximos anos, um número muito significativo, porém, tanto quanto os quilômetros, essa “teia” precisa de mais “nós” como os de Santa Cruz e Chácara Klabin. Ao criar esses pontos de conexão, o sistema vai se tornando mais equilibrado, eficiente e redundante. É o maior ganho da inauguração dessa sexta-feira.

Não é apenas o morador de Capão Redondo que vai chegar mais rápido ao centro da cidade, como falamos no começo do texto. É também o usuário que, por exemplo, embarca em Estudantes, na distante Mogi das Cruzes, que verá sua viagem diária alterada para melhor quando as três estações passarem a funcionar em tempo integral – há quem diga que isso levará apenas algumas semanas nas mãos da ViaMobilidade. Ou o morador de Osasco, que vai notar que a Linha 9-Esmeralda da CPTM estará menos cheia a partir de Pinheiros, por conta de gente que antes a utilizava par chegar à Zona Sul de São Paulo.

É esse o grande legado de uma obra metroferroviária, mesmo que tenha levado cerca de oito anos para sair do papel – sem contar os anos de planejamento e promessas. E deveria servir de estímulo para que mais projetos fossem bancados por todo e qualquer partido político ou governo – estadual, municipal e federal.

Veja também: Duas décadas após início das obras, Linha 5 terá ligação direta com outras linhas do Metrô

Estação Santa Cruz da Linha 5