Linha 17-Ouro vira vitrine eleitoral, mas governo nega novos monotrilhos
Ramal inaugurado na semana passada virou matéria paga em jornais e enxurrada de press-releases evidenciando sua tecnologia. Metrô, no entanto, diz que não tem planos para novas linhas
Na semana passada, um mito virou realidade em São Paulo, a Linha 17-Ouro começou a transportar seus primeiros passageiros, ainda que uma fase inicial de operação bastante limitada.
Alvo de críticas, ironias e campanhas anti-monotrilho por parte de grupos ligados à indústria rodoviária, o ramal teve dias de estrelato, com centenas de vídeos e artigos de qualidade duvidosa publicados em ritmo frenético.
O governo Tarcísio de Freitas fez sua ‘parte’ ao disparar material de divulgação em volume incomum, claro, de olho num potencial retorno eleitoreiro, algo que 11 entre 10 políticos fazem, sobretudo em ano com eleição.
Operador do monotrilho da Linha 17 (GESP)
De ‘maravilha tecnológica’ a trem capaz de reduzir o tempo de viagem de maneira recorde, a Linha 17 acabou vítima de exageros. E, apesar de ter se tornado um ‘hit’, o monotrilho não está nos planos da gestão estadual.
Em entrevista durante a inauguração, o presidente do Metrô, Julio Castiglioni, reconheceu que a empresa não tem nenhum novo monotrilho em mente. Restam apenas as extensões da linhas 15-Prata e a própria 17-Ouro, que ainda precisam ganhar mais 14 estações para serem concluídas conforme projeto.
A situação evidencia uma falta de visão estratégica ou pior, um foco apenas em resultados de curto prazo já que nunca o modal de monotrilho esteve num ponto mais favorável para ser expandido.
Estação Morumbi da Linha 17-Ouro (GESP)
Isso por uma razão simples: foram cerca de 15 anos entre a concepção e a operação de duas linhas, tempo que serviu para entender, corrigir erros e amadurecer o monotrilho, tarefa que ainda seguirá por algum tempo.
Ou seja, hoje o Metrô sabe como implantar uma linha de monotrilho, evitando erros como leiloar uma solução integrada entre obras civis e sistemas ou a modelagem de vigas-trilho de baixa qualidade como ocorreu na Linha 15.
O processo era esperado, afinal o monotrilho como um sistema de transporte de média capacidade era algo raro duas décadas atras. Hoje há várias cidades no mundo adotando a tecnologia, que segue válida como mais barata que o metrô convencional e ideal para trechos onde há espaço para implantar vias elevadas em canteiros centrais.
Trem de monotrilho da Linha 15-Prata (Márcia Alves/CMSP)
A despeito da ignorância uma má fé de críticos, não há nada que impeça um monotrilho de transportar mais passageiros já que o desempenho dos trens é similar e até mais capaz em aclives acentuados, graças ao uso de pneus.
A adaptação dos modelos SkyRail da BYD também mostrou que, apesar de uma viga-guia desenhada para outro fabricante, é possível buscar mais fornecedores, um dos pontos que foram martelados pelo lobby rodoviário.
Espera-se que a Linha 17, assim que o frenesi passar, torne-se um caso de sucesso para a fabricante chinesa, cujo produto finalmente será testado para valer.
Se der certo, a agressividade comercial da empresa pode vencer o receio de políticos e voltar a figurar como uma alternativa de transporte rápido, seguro e eficiente. As fotos do monotrilho circulando na Marginal Pinheiros certamente servirão como um belo material de divulgação.

