Linha 17-Ouro virou tema preferido de caçadores de cliques
Notícia que o ramal de monotrilho do Metrô de SP irá abrir em testes em março de 2026 foi motivo de textos desconexos e apelativos
Houve um tempo, meu caro leitor, que mobilidade sobre trilhos era um assunto ignorado pela grande mídia a ponto de um assessor de imprensa de uma operadora me confidenciar que suas sugestões de pauta eram geralmente ignoradas quando se tratava de algum novo projeto em implantação.
Exceto por falhas e greves, grandes jornais, a TV e outros sites genéricos passavam por cima do assunto, mais interessados em outros temas não tão técnicos.
Esse cenário mudou nos últimos anos e falar de expansão metroferroviária tornou-se uma ‘mina de ouro’ para indústria do click-bait (isca de clique). E aí até quem não entende uma vírgula sobre trens resolveu se aventurar no meio.
O que não é exatamente um problema: metrô, trens, VLTs não são assuntos exclusivos de sites especializados. Nós tratamos com mais profundidade sobre isso assim como há sites dedicados a outros assuntos, tecnologias e nichos. E isso não impede que jornalistas generalistas também abordem essas pautas – o que é sadio já que uma visão menos técnica também é importante.
O problema é que a maior parte do que tem sido publicado não passa de distorções, exageros, reciclagem e material produzido por IA, entre outras infelicidades.
O objetivo está longe de ser a informação o público: o intuito geralmente é gerar cliques em matérias, engajamento em redes sociais e por consequência, resultado financeiro.
Como as ‘big techs’ alimentam essa sandice, pobre do leitor, que muitas vezes compartilha aberrações.
A notícia que a Linha 17-Ouro abrirá em março de 2026 em operação assistida foi um prato cheio nos últimos dias.
A informação foi antecipada pelo MetrôCPTM e o ViaTrolebus, que visitaram o ramal e entrevistaram o governador Tarcísio de Freitas. Pode-se chamar isso de privilégio, mas quantas vezes não fomos deixados de lado em eventos em que Folha, Estadão e Globo foram ‘premiadas’ com informações em primeira mão?
Um dos diferenciais da imprensa especializada nessas situações é focar no assunto em questão. Se vamos à entrega do primeiro trem da Linha 6-Laranja, vamos questionar o governo sobre a Linha 6.
E fomos o único veículo a fazer isso naquele dia, enquanto outros jornalistas aproveitaram a chance para abordar temas fora da mobilidade, mas mais quentes e polêmicos.
A ‘poderosa’ BYD ‘definiu’ a data de inauguração do monotrilho?
Bem, mas voltando à Linha 17, como nosso alcance é pequeno, a informação sobre a inauguração só ganhou vulto quando a grande imprensa visitou a mesma obra, dias depois.
E aí foi triste. De reportagens ‘armadilhas’ tentando fazer suspense sobre o assunto a quem disse que a BYD chegou agora para fazer os trens e ‘assumir a Linha 17’.
Uma das manchetes é lamentável: “Quanta falta para monotrilho levar passageiros até aeroporto de Congonhas?”, diz o título. Como não há resposta para essa pergunta, trata-se de uma clara malandragem do site em questão para induzir ao clique.
Ao abrir a matéria, o leitor se deparará apenas com um compêndio de informações, quase todas surradas e num formato que parece saído de um prompt de inteligência artificial. E, claro, nenhuma menção a quando o monotrilho vai chegar em Congonhas já que o esquema de operação ainda não foi divulgado.
Outra ‘preciosidade’ que se espalhou por aí diz que a “BYD assume linha de trem inacabada e determina data de inauguração”. Assim, no tempo presente e conferindo à fabricante chinesa um poder desmedido.
Quem acompanha o projeto de perto sabe que a BYD está na Linha 17-Ouro há vários anos e que o ramal não depende apenas dela, mas de outros contratados para ser concluída. E ainda passar por testes com pessoal do Metrô e da ViaMobilidade.
Cabe, portanto, aos leitores o poder de dar esse tipo de ‘conteúdo’ o destino que ele merece, ou seja, o esquecimento. Clicar em matérias assim apenas alimenta um ‘monstro’, o da desinformação. E quem paga no fim é o próprio público.
