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Mitos e verdades sobre o monotrilho

Novo modal que estreou em São Paulo neste mês é alvo de interpretações erradas e até de críticas infundadas de especialistas em transporte
Monotrilho de Dubai: impacto visual mínimo na região
Monotrilho de Dubai: impacto visual mínimo na região

Após muita discussão, polêmicas e atrasos, o monotrilho virou uma realidade no Brasil. A Linha 15-Prata, do Metrô de São Paulo, iniciou a chamada operação comercial na segunda-feira, dia 10, ainda num horário reduzido, porém, integrada às outras 11 linhas da rede.

No primeiro dia de funcionamento, cerca de 3,6 mil pessoas utilizaram o curto trecho de apenas 2,9 km e duas estações entre Oratório e Vila Prudente, demonstrando como o transporte ferroviário é vital para uma cidade como São Paulo. Mas o sistema, inédito no país como meio de transporte de massa, ainda gera dúvidas e críticas muitas vezes injustas. Para tentar essas dúvidas, o blog aborda algumas delas a seguir:

Monotrilho anda num trilho apenas

Em termos. Curiosamente, um monotrilho está conectado a dois trilhos laterais, onde existe a alimentação elétrica. A definição ‘monotrilho’ vem do fato dele se deslocar sobre uma viga que não possui trilho já que o trem utiliza pneus para se mover.

Monotrilho tem vários 'trilhos'
Monotrilho tem vários ‘trilhos’

Monotrilho não é metrô

Falso. A definição de metrô é complexa. Um sistema que possui frequências baixas, tem estações próximas, tração elétrica e linha em região urbana pode ser chamado de ‘metrô’, mas nem sempre todas essas características são encontradas mundo afora. No caso do monotrilho, há até um certo erro no Metrô paulistano de diferenciá-lo na sua comunicação afinal a Linha 15-Prata foi projetada com todas as características descritas acima. Portanto, sim, o monotrilho pode ser um metrô.

Monotrilho da cidade chinesa de Chongqing: capacidade semelhante a de um metrô convencional
Monotrilho da cidade chinesa de Chongqing: capacidade semelhante a de um metrô convencional

Monotrilho é transporte apenas de parque de diversões

Falso. Embora seu uso seja comum em parques e em trajetos turísticos, o monotrilho também pode ser um transporte de massa. Na China, algumas cidades utilizam o modal com sucesso em vez do sistema tradicional. O que importa mais é qual a capacidade da linha, incluindo tamanho dos trens, velocidade e intervalo entre eles.

Um corredor de ônibus tem a mesma capacidade que um monotrilho

Falso. A Linha 15, por exemplo, poderá transportar 500 mil pessoas por dia, quase o dobro da Linha 4 do metrô carioca, que é um sistema convencional. Já um corredor de ônibus segregado, o chamado BRT (Bus Rapid Transit) como o Transcarioca, também no Rio de Janeiro, transporta 230 mil passageiros diariamente.

Monotrilho é mais barato que metrô convencional

Verdadeiro. Em teoria, ele deveria custar menos, afinal são menos áreas desapropriadas, uma estrutura mais simples, sobretudo que as linhas subterrâneas, mas na prática a Linha 15, por exemplo, está saindo cara e demorando bem mais do que o esperado, mas a culpa não tem a ver com o modal e sim com o planejamento e execução da obra.

Linha 15-Prata: atraso e aumento do custo durante a construção
Linha 15-Prata: atraso e aumento do custo durante a construção (Flickr do Metrô de São Paulo)

Monotrilho leva menos tempo para ser construído

Verdadeiro. Em linha com o custo mais baixo, o monotrilho também pode ter um tempo de construção mais curto. Novamente, as duas linhas do tipo hoje em construção no Brasil – além da 15 também a 17 do metrô paulista – acabaram contradizendo essa expectativa. Analisada isoladamente, a construção das estações e vias levou menos tempo do que a extensão da Linha 5 Lilás, o que comprova que é possível entregá-la mais cedo.

Ocorre que as duas linhas tiveram atrasos em áreas que independem do tipo de modal. Foram erros de planejamento, mudanças de projetos, imprevistos, licenças ambientais e recursos contra o resultado de licitações que acabaram postergando o cronograma das obras, assim como ocorre em qualquer outro projeto do gênero ligado à administração pública.

Existe risco de acidentes graves num monotrilho

Falso. Assim como um viaduto ou uma via elevada de trens convencionais, o monotrilho se desloca em vias apropriadas para isso. Apesar de a viga-trilho parecer estreita, o trem está ‘agarrado’ a ela pelas suas laterais.

Se um monotrilho quebrar ficamos presos dentro dele

Depende. Cada projeto tem um procedimento de emergência nesses casos. Existem monotrilhos em que um trem é rebocado por outro ou um veículo especial até a estação.  No caso brasileiro, foram instaladas passarelas de emergência para permitir uma evacuação segura e mais rápida. Em países como Malásia, Índia e Austrália, problemas como falta de energia ou falha da composição já exigiram o acionamento de bombeiros por não haver outra meio para isso.

Resgate em monotrilho de Sydney (BBC)
Resgate em monotrilho de Sydney (BBC)

Monotrilho não é trem porque usa pneus

Falso. O fato de rodar sobre pneus não desqualifica o monotrilho como trem. No metrô parisiense, algumas linhas possuem trens com pneus, vantajosos quando há aclives, declives e curvas mais fortes.

Por ser elevado, um monotrilho desvaloriza a região onde passa

Falso. A imprensa e algumas associações de bairros contrários ao projeto tentaram transformar o monotrilho numa espécie de minhocão para trens, mas é nítida a diferença entre sua implantação e um grande viaduto ou mesmo via de trens convencionais.

O trecho aberto do monotrilho da Linha 15, com ciclovia e paisagismo prontos, tem se diferenciado positivamente de certos trechos da Avenida Anhaia Mello mais degradados.

Monotrilho de Dubai: impacto visual mínimo na região
Monotrilho de Dubai: impacto visual mínimo na região

Por usar pneus e andar numa viga de concreto, é normal o monotrilho sacolejar

Falso. O autor deste blog já utilizou um monotrilho na cidade de Chongqing, na China, e não notou diferença no rodar do trem. As vigas do sistema chinês têm um acabamento superior ao da Linha 15 e é praticamente impossível perceber grandes diferenças em relação aos trilhos convencionais.

Na via paulista, são visíveis as ondulações das vigas e o próprio Metrô reconheceu que está trabalhando numa solução embora também afirme que isso é normal nesse tipo de sistema.

About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

5 Comentários

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  • Nossa matéria muito Interessante, moro próximo ao terminal São Mateus, e estou ansioso por esta linha 15 ficar pronta, pois trabalho no Bom Retiro(Luz), A estação daqui aparentemente parece que será maior que as demais, pois passam três vigas.!!!!!

  • Resumo muito bom, seus textos são bem claros.
    Só faço duas observações:
    – metrô tem frequências altas (passa com alta frequência), intervalos baixos (confusão comum entre headway e frequência).
    – “Um corredor de ônibus tem a mesma capacidade que um monotrilho”; depende. Existem sistemas pesados, mas não são ainda comuns; e, como você sabe, existem corredores de maior capacidade, como o Transmilênio, que se comparam aos monotrilhos. E o que deve ser considerado é o carregamento crítico (hora pico), e não o diário.

  • Se é pra economizar deveriam ter feito nos padrões da linha 5 lilas, trajeto largo 13 / capão redondo, mais rapido e confortavel, e a linha 22 , sai ou nao sai?

  • Apenas 5 das 16 linhas do metrô de Paris são em pneus. E existem críticas muito fortes contra elas, inclusive o próprio órgão financiador (STIF) não deseja mais linhas com elas, inclusive nas linhas de VLT. Uma das motivações: consumo energético 30 por cento superior aos metrôs normais.
    O metrô de Montreal é inteiramente em pneus, e também recebe fortes críticas – o prefeito de Montreal na época achou genial o Metro de Paris com pneus, foi lá, visitou e quis ter um igual a Paris para que sua cidade fosse considerada grande… Essa tecnologia foi inventada pela RATP e pela Michelin, então o prefeito achou que seria bom e comprou o mico…

    A única justificativa técnica para se construir metro sobre pneus atualmente é a dos aclives e curvas fechadas, pois se você economizar bastante na obra de engenharia fazendo aclives acentuados e/ou curvas fechadas por não ter espaço, ou conseguir carregar mais passageiros com traçado de curvas fechadas e/ou aclives (por exemplo, reutilizar alguma linha de traçado antigo). Mas até mesmo isto pode ser feito atualmente pelos trens normais de ferro, visto que hoje existem tecnologias de tração muito avançadas, com ruído mínimo e máximo conforto, sem abrir mão da economia de energia e da velocidade dos trens de ferro.
    Alguns europeus ainda compraram metrô sobre pneus – Torino, Lausanne, Marselha. Mas são exceções muito específicas à regra geral – metrô é sobre trilho de metal. Quem foi pela via do pneu, em sistema de alta frequência e com características de crescimento contínuo de passageiros, não está se dando bem.

Airway