Obras do BRT ABC mal começaram em Tamanduateí, onde terminal deveria estar pronto neste mês
Imagens feitas por drone mostram movimentação inicial de terra ao lado da estação; governo já estuda alternativas para concluir corredor após atrasos da Next
As obras do Terminal Tamanduateí do BRT ABC continuam em estágio inicial, embora a instalação devesse estar pronta neste mês de outubro. Imagens aéreas feitas pelo MetrôCPTM mostram que os trabalhos se concentram na movimentação de terra e preparação do terreno, sem estruturas aparentes do futuro terminal de ônibus.
O flagrante foi registrado ao lado da Estação Tamanduateí, onde o corredor deverá oferecer conexão com a Linha 2-Verde do Metrô e a Linha 10-Turquesa da CPTM. O local é um dos pontos mais importantes do projeto, pois permitirá que passageiros vindos do ABC Paulista prossigam viagem pela rede metroferroviária, mediante pagamento de tarifa extra – ao contrário do finado monotrilho da Linha 18-Brozne, que teria integração gratuita.
Nas imagens, é possível observar uma faixa de terreno em preparação paralela aos trilhos da Linha 10, com movimentação de solo, depósitos de materiais e abertura de um acesso para veículos de obra. Não há sinais de construção das plataformas ou das estruturas destinadas ao atendimento dos ônibus.
A situação confirma o atraso que o MetrôCPTM já havia identificado em fevereiro, quando uma visita ao local constatou a ausência de trabalhos efetivos no terreno. Oito meses depois, a área apresenta movimentação, mas permanece distante de receber passageiros.
Trecho paralelo à Linha 10-Turquesa que só recebeu intervenções neste ano e não tem sinal ainda de corredor (Willian Moreira)
Em abril, dados obtidos pelo site junto à Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) mostravam que o Terminal Tamanduateí tinha apenas 7,4% de execução. Na ocasião, o conjunto dos terminais do BRT ABC registrava 19,6% de avanço.
Artesp iniciou processo para retirar concessão da Next
O atraso do terminal ocorre em meio ao agravamento da situação contratual da Next Mobilidade, responsável pela implantação do BRT ABC.
Na última semana, a Artesp instaurou um processo administrativo de caducidade da concessão após constatar que a empresa não cumpriu os prazos estabelecidos para concluir o corredor.
A agência também concluiu que não existem condições técnicas e operacionais para colocar o sistema integralmente em funcionamento até o fim de outubro, prazo previsto no plano de ação apresentado pela concessionária.
BRT ABC deveria ter ficado pronto em outubro de 2026 após múltiplos atrasos (Willian Moreira)
A abertura do processo não significa que a Next já tenha perdido o contrato. A empresa ainda poderá apresentar sua defesa antes de uma decisão definitiva do governo estadual.
A concessionária afirma ter concluído os primeiros 10 quilômetros do corredor e solicitou autorização para iniciar uma operação parcial. Para atender o restante do percurso até Tamanduateí, propôs utilizar ônibus convencionais enquanto as obras não forem finalizadas.
CPTM pode assumir gestão das obras, não operação dos ônibus
Diante dos atrasos, o governo estadual passou a avaliar alternativas para concluir o empreendimento, incluindo a possibilidade de transferir à CPTM a responsabilidade pela contratação e pelo gerenciamento das obras restantes.
Essa hipótese não significa que a companhia ferroviária passará a operar os ônibus do BRT ABC, como alguns veículos de imprensa têm erroneamente sugerido. O papel em estudo para a estatal está relacionado à engenharia, à realização de licitações e à fiscalização da construção do corredor.

A possibilidade também não colocaria a CPTM diante de um tipo de obra estranho à sua atuação. A companhia projeta, contrata e acompanha a implantação de terminais de ônibus associados às suas estações.
Um exemplo recente é o Terminal Varginha, construído junto à estação de mesmo nome da Linha 9-Esmeralda para receber linhas de ônibus e permitir a integração com o sistema ferroviário.
No caso do BRT ABC, uma eventual participação da CPTM dependerá primeiro da definição sobre o contrato da Next e do modelo escolhido pelo governo para terminar as obras.
O BRT ABC foi anunciado em 2019 como substituto da Linha 18-Bronze do Metrô, projeto de monotrilho que ligaria São Bernardo do Campo à capital. O corredor terá aproximadamente 17 quilômetros e conexões com a rede metroferroviária em Tamanduateí e Sacomã.
Sete anos depois do anúncio, a ligação permanece incompleta enquanto a concessionária busca culpar órgãos que supostamente teriam demorado para liberar licenças.
