Opinião: levar Linha 13 até perto do aeroporto ainda é melhor solução

Hipotética estação próxima aos principais terminais de Guarulhos poderia custar menos que todo o projeto do People Mover estudado pelo governo federal e a concessionária GRU Airport
O Aeroporto de Guarulhos ao fundo, visto da estação da CPTM (Jean Carlos/SP Sobre Trilhos)

Quando a GRU Airport sagrou-se vencedora do leilão do Aeroporto de Guarulhos, há quase uma década, tomou a decisão de barrar uma estação da CPTM dentro da área de concessão alegando interesses comerciais. Como compensação, a empresa sacou um projeto de “People Mover” que ficaria pronto, segundo palavras de seu presidente na época, “um dia antes da inauguração” da Linha 13-Jade.

Como estamos cansados de saber, nada disso ocorreu até hoje. Mesmo agora que o assunto está sendo analisado por instâncias federais e a própria concessionária, o projeto de ligar três terminais do aeroporto à estação da CPTM permanece indefinido e pior, com custos bastante elevados diante dos benefícios que serão colhidos.

Como mostrou o site com exclusividade, a ANAC estima que o governo federal deverá desembolsar na construção e operação do sistema algo como R$ 632 milhões em valores atuais. Sim, porque caberá à GRU apenas fazer a gestão do projeto, repassando a conta aos cofres públicos.

Vale dizer ainda que o custo apresentado envolve a proposta mais em conta, feita pelo consórcio brasileiro AeroGRU, liderado pela gaúcha Aeromovel. Se a opção pelo consórcio GRUConnecta fosse escolhida, esse valor seria bem maior.

Diante desse cenário, parece cada vez mais óbvio que a opção de conexão original do maior aeroporto da América do Sul com a malha metroferroviária de São Paulo era, de longe, a melhor. Levar a Linha 13 para perto dos dois principais terminais de Guarulhos, na opinião deste jornalista, segue ainda como uma hipótese mais plausível do que o People Mover.

Linha de people mover terá 2,6 km de extensão e intervalo de seis minutos (AeroGRU)

A despeito da falta de conhecimentos técnicos para apontar uma solução nesse sentido, parece sensato crer que uma extensão da Linha 13 por cerca de 1.400 metros seria capaz de viabilizar uma nova estação próxima aos estacionamentos do Terminal 2, o mais movimentado do aeroporto.

De lá, passarelas equipadas com esteiras rolantes poderiam levar os passageiros de maneira confortável e em poucos minutos aos pisos de embarque de Guarulhos. A distância do Terminal 3, por exemplo, poderia ser de cerca de 600 metros, dependendo do trajeto. É o mesmo que percorrer as quatro “asas” do Terminal 2, algo que muitas pessoas fazem diariamente.

Já uma passarela entre a hipotética nova estação e a parte central do Terminal 2 teria algo com 350 metros, ou cerca de 5 minutos de caminhada, aliviada pela presença das esteiras (veja ilustração).

Custo compatível

Segundo uma apresentação da CPTM de 2017, a Linha 13-Jade teria custado até então cerca de R$ 2,2 bilhões, incluindo as obras e implantação de sistemas. Mesmo que esse valor tenha sido um pouco maior na prática, ainda assim estamos falando de um ramal de 12 km, três estações e oito trens novos.

Ou seja, uma extensão de cerca de 2 km (imaginando-se uma área de manobra) e uma estação certamente poderiam até ficar mais baratos do que a implantação do People Mover – e que, ao contrário da Linha 13, não será tarifado.

Como mais uma referência, temos a estimativa da ViaMobilidade de investir R$ 2,5 bilhões para expandir a Linha 5-Lilás até Jardim Ângela, um projeto com 4,3 km e mais duas estações, uma delas subterrânea e portanto mais cara.

Levar a Linha 13-Jade para as proximidades do aeroporto é uma opção com muitas vantagens, entre elas até mesmo reduzir o tempo de chegada aos terminais. Afinal, por menor que seja o intervalo do People Mover, haverá a necessidade de percorrer um caminho da plataforma da CPTM até o local de partida do sistema e uma possível espera de até 6 minutos.

Com o ramal da CPTM também seriam evitados custos operacionais com o sistema APM que, por melhor que seja implantado, tem baixa capacidade comparado a um trem metropolitano.

Como poderia ser uma hipótetica estação da Linha 13 próxima ao aeroporto de Guarulhos (montagem sobre imagem do Google)

Solução indicada para aeroportos com terminais distantes

Outro aspecto importante justificaria uma mudança nos planos atuais, o fato de que Guarulhos não precisa de um People Mover caso o Terminal 1 seja desativado, uma possibilidade reconhecida pela ANAC.

Construído às pressas pela Infraero, estatal que administrava o aeroporto até 2012, o Terminal 1 é uma adaptação de dois prédios de carga usados pela Vasp e Transbrasil, companhias aéreas que faliram anos atrás.

Em outras palavras, ele é uma solução provisória e que não condiz com o padrão de atendimento que se espera de um aeroporto do porte de Guarulhos – apesar de muitos passageiros gostarem de utilizá-lo pela facilidade de embarque.

Com exceção do Terminal 1, o aeroporto de Guarulhos possui terminais muito próximos atualmente e que dispensam esse tipo de ligação, a princípio. Caso um quarto terminal seja de fato construído, como se cogita, o People Mover até poderia ser adotado, mas no chamado “air side”, ou seja, na parte interna para facilitar a conexão dos passageiros e não numa área aberta, onde sua utilidade é menor.

Onde deveria ter ficado a estação da CPTM nos planos originais

Mais sinergia em vez de disputa política

O Aeroporto de Guarulhos já poderia contar com uma ligação ferroviária adequada se o componente político não tivesse pesado no passado. O governo do estado há muito alimentou a ideia de atender o aeroporto com uma nova linha de trens, primeiro com o Expresso Aeroporto, um serviço exclusivo e caro que ligaria a estação da Luz ao Terminal 2.

Esse projeto, bastante fora da realidade, acabou ajudando a Linha 13 a sair do papel já que ela, então chamada de “Trem de Guarulhos”, também fazia parte dos planos na época.

Se não fosse pela intransigência da GRU Airport e uma infeliz falta de ação do governo Dilma e Alckmin essa situação poderia ter sido definida na concessão do aeroporto, já prevendo o trem dentro dos limites de Guarulhos.

Esse exemplo poderia ser útil agora para que os entes públicos envolvidos no assunto voltassem a se reunir e buscar um caminho mais lógico e que beneficie a sociedade como um todo. Ainda há tempo para isso.

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  1. Particularmente, acho a solução do people mover melhor do que esta apresentada, mesmo que os custos sejam mais altos.
    A ideia da esteira é bacana, mas 600 metros me parece esteira demais. Hora ou outra elas dão problema e o pessoal vai ter que encarar esse trecho na caminhada mesmo. No aeroporto JFK em New York tem um sistema semelhante ao people mover proposto, que se conecta com o metrô, atende aos 8 terminais disponíveis e funciona muito bem.

    1. Como dito no texto, o aeroporto de Guarulhos não é nem de perto tão grande a ponto de precisar de um people mover internamente, o JFK é(8 terminais e nós 3). E 600 metros em esteira é mais rápido do que percorrer a distancia do estacionamento até o terminal que é feito a pé.
      People mover é algo que tem muito nos EUA pq tem uma questão legal que impedia transporte público chegar dentro do próprio aeroporto.
      Sem falar que vc tem que gastar um tempo desnecessário ao fazer a baldeação entre trem e People mover.
      People mover é um tapa buraco, caro e ineficiente.

      1. Londres também tem people mover. E outra, pra quem quer ir dos terminais 2 e 3 pro 1 (se não extinguirem o 1), como faz sem people mover? Aqueles ônibus são baratos, mas são infinitamente piores. Brasil adora fazer transporte público meia boca.

    2. Concordo plenamente com você e digo mais: o que falta pra atrair mais passageiros pra linha 13 é ela chegar até o centro e se conectar com as linhas de metrô e com outras linhas da cptm. O que mais afugenta o público é o excesso de baldeações, além da frequência baixa doa trens. Chegando ao centro e tendo o people mover pra conectar ao aeroporto ao invés de um ônibus mambembe, aliado a uma maior quantidade de trens, vai fazer muito mais gente se interessar pela linha 13. Fora sua expansão até Bonsucesso, o que vai atrair mais moradores dos arredores.

    3. Voce omitiu do seu comentário que tal sistema de JFK é PAGO e inclusive sua passagem é ainda mais cara que a própria passagem do Metrô. Tal solução não funciona no BR pois o brasileiro nao está disposto a pagar mais pelo people mover que pelo proprio trem – os que podem e querem gastar vão de carro e não de trem.

      1. Mas o people mover daqui vai ser de graça. Que nem nos aeroportos de Miami e de Heathrow em Londres.

      2. Bom, o termo “omitir” é um pouco incorreto já que sou um mero leitor do blog e não vou trazer aqui uma análise completa com todos os dados possíveis só pra te fazer feliz. Mas veja só, quando tinhamos o projeto do monotrilho da L18 bronze, a idéia era que o passageiro pagasse uma única passagem dentro do sistema metroferroviário. Com o BRT ABC, a pessoa vai ter que pagar duas passagens, e estamos falando de um sistema onde as pessoas vão usar diariamente. Apesar da mídia especializada questionar, o povo, por meio de seus representantes, está aceitando de boa e todo mundo vai pagar o que tiver de pagar. Ou seja, ser pago ou gratuito, não vai dizer se o projeto deve ser feito ou não.

  2. O estacionamento é uma das maiores fontes de renda dos concessionários. Haja vista o imensos edifícios-garagens que são construídos, sem atraso ou pendengas. Qualquer obstáculo é rapidamente resolvido e em poucos meses o estacionamento está pronto e inaugurado.

    Enquanto não se tirar os estacionamentos do contrato de concessão, não vai haver terminal rodoviário (outro equipamento óbvio, de implantação simples e barata, que os concessionários se recusam a implantar) nem, muito menos, estação de trilhos junto aos terminais.

  3. Concordo com a idéia e digo mais, com pouco mais de um quilometro extra é possível chegar aos bairros que ficam atrás do aeroporto, isso ajudaria a trazer muitos passageiros pra linha.

    1. E com apenas 15km, no futuro poderiam ligar Guarulhos ao metrô Tucuruvi, o que ia facilitar bastante pra quem chega em São Paulo pelo Tietê.

  4. Faz muito mais sentido estender um pouco a linha e construir a nova estação próxima só terminal 2 sendo igual a do terminal 1, assim podendo transferir todos os materiais e estruturas metálica. Convertendo a antiga em reserva técnica e abrindo caminho para a expansão para o trevo de Bonsucesso.

    Passageiros vindo do interior podem optar por estacionar em garagem próximo ao trevo, pagando menos e utilizado o trem. Claro que a GruAirport não vai querer isso, nem os lobistas que lucram com táxi, ou serviços extras no aeroporto.

    O cabeça de bagre do Alckmin topou qquer negócio pra inaugurar a linha pela metade: achando que faria diferença na pífia campanha dele a presidência.

  5. Descartando-se a expansão da linha até Bonsucesso, tudo é possível. O peoplemover tem a virtude de permitir um deslocamento ágil entre terminais sem infinitas esteiras e corredores. Fazer no airside é algo que deveria ser conciliado na fase de projeto do terminal 2, que é preexistente à concessão. Por essas e outras que o peoplemover, que demorou mas agora está bem encaminhado, atenderá muito bem atuais e futuros terminais.

  6. já falei varias vezes e repito: uma melhoria no sistema de onibus e já está bom demais.

    a linha 13 serve ao aeroporto, mas tambem deve servir a toda a populaçao.

    nao faz sentido gastar mais de 600 milhoes num aerotrem para atender o aeroporto, enquanto se carece de transporte publico para a grande massa da populaçao da grande SP e até do estado de SP.

    o erro nao está na falta de ação do governo dilma e alckmin. o erro está na concessao. nao havia nenhuma necessidade de conceder o aeroporto mais lucrativo do Brasil. sem concessionaria, o caminho para o trem dentro do aeroporto estaria livre. infelizmente no Brasil o interesse privado vem antes do interesse publico.

    1. Sistema de ônibus já disse e repito, só vai afugentar ainda mais o povo de pegar essa linha. Ou fazem people mover, ou fazem uma estação no terminal do Aeroporto.

      1. A linha deve ser feita para atingir toda a população da região, não só o aeroporto. As linhas que atendem as rodoviárias não dependem só da rodoviária.

        Quem vai pro aeroporto de carro, vai continuar indo de carro. A demanda é baixa para um investimento tão pesado. Aliás, nem a linha 13 indo somente até o aeroporto justifica o investimento de 2,3 bilhões numa linha de trem que teria como demanda maxima estimada 120 mil usuários por dia. Esse aerotrem vai custar quase a mesma coisa que o BRT ABC e até mais caro q a parcela que o governo federal deveria injetar na linha 2. Se o ministério da infraestrutura tem condições de arcar com um gasto dessa magnitude nesse aerotrem, poderia focar essa verba em obras q realmente vão trazer melhoria na mobilidade urbana da grande SP

        1. “Quem vai pro aeroporto de carro, vai continuar indo de carro.” Falso! As pessoas vão de carro pro aeroporto por não terem uma opção decente de transporte público. Um Uber pro aeroporto de Cumbica é caríssimo. Duvido que, com uma linha de trem que se ligue com as linhas 1, 3 e 4 do metrô mais as linhas 12, 11, 10, 8 e 7 do trem mais uma ligação decente entre a estação e os terminais do aeroporto não atraiam muito mais passageiros que vão pro aeroporto. Já disse e repito: voar de avião não é coisa de rico e andar de trem não é coisa de pobre!

          As linhas de metrô que vão pras rodoviárias são utilizadas pela maioria dos passageiros que vão para as rodoviárias porque tem excelente conexão. A linha 13 irá também para Bonsucesso e se ela continuar sem se integrar de forma digna com as linhas de metrô e trens, vai continuar com baixa demanda, mesmo atendendo a “população local”. A demanda pro aeroporto diminuiu por conta da pandemia, mas em algum momento irá voltar. É inadmissível o maior aeroporto da América do Sul não ter uma conexão decente com a cidade.

        2. Só pra acrescentar: no Galeão seguiu essa sua ideia de fazer “linha de ônibus melhor” pra fazer ligação do aeroporto com a cidade, o conhecido BRT. Não atraiu o pessoal pra ir pro aeroporto. Já no Santos Dumont, fizeram VLT. E olha só: atraiu!

    2. É aquele pensamento de que só quem usa aeroporto quem é rico e pode ir de carro, já que avião é para rico mesmo né… A realidade é outra, ir de avião é bem mais barato que várias rotas de ônibus, e juntando com a enorme quantidade de pessoas que trabalham diariamente no GRU, há uma grande demanda para a utilização do sistema sob trilhos. O sistema atual de ônibus é demorado, incômodo, apertado, e para quem tem bagagem, tem que lidar em embarcar com ela no ônibus desnivelado na rua e ainda ter que subir um lance de escadas na estação da CPTM. Quem aguenta isso? Fora a grande demora da própria linha 13, como o colega falou.

      O ônibus para Tatuapé consegue ser muito mais atraente por não ser cansativo nas baldeações que a linha 13 comum tem, mas imagina se tivesse baixa frequência na CPTM para a Luz + people mover? Ou até mesmo a extensão da linha 13 para o terminal 2, como o site sugeriu? Ia ser bem mais prático para o passageiro que vem do centro, só faz uma baldeação, tudo no mesmo nível, sem estresse, sem lance de escada…

      Sempre quando eu posso utilizo a linha 13 para ir até GRU partindo do Terminal Tietê. Quase sempre com uma mala grande, sei na pele como é complicado fazer todo o trajeto. E considero chegar no terminal 2 a pior parte. De longe.

    3. “infelizmente no Brasil o interesse privado vem antes do interesse publico”, disse tudo. Apesar da boa fé e boas intenções dos outros comentários, esqueceram do norteamento principal da nossa classe política em relação à coisa pública: balcão de negócios em prol próprio!

  7. O people mover escolhido, tem característica muito especial, é movido por enegia elétrica que movimenta ventiladores no solo pra impulsionar de forma extremamente silenciosa. Funciona já alguns anos no aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre. Ligando o trem da Transurm com o terminal.

  8. Solução mais óbvia, mais barata e com o apelo de levar a linha mais adiante para atender não só o aeroporto mas também o entorno. Com a extensão bancada pelo governo do estado, à concessionária pode investir em um peoplemove mais curto (cerca de 500m), se realmente for necessário. O de Porto Alegre, utilizado como referência, tem 800m.
    Projeto mais sensato, onde todos os envolvidos ganhariam.

  9. A proibição da construção da estação dentro do aeroporto cabe à falta de ação do governo federal, já que o governo estadual bancou a linha inteira e não pode finalizar de forma adequada. A gruairport alegou a construção de um shopping, em uma clara má vontade da concessionária. Lembrando que Dilma cancelou a verba destinada também à linha bronze e para a atual extensão da CPTM até Varginha. A RMSP congrega 70% da movimentação sobre trilhos no país e não recebe investimento algum do governo federal. O ministro da infraestrutura atual não moveu um dedo e não houve investimento algum em mobilidade em nossa região até agora. A posterior extensão da linha possibilitará melhor utilização da mesma. A gruairport é tão incompetente que mal gere o estacionamento. Quando viajo, sempre deixo meu carro nos estacionamentos privados no entorno do aeroporto; em Cumbica os veículos são depredados e sujeitos à assalto.

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