Prejuízo de R$ 589 milhões da CPTM em 2025: entenda o que houve de fato
Balanço da companhia mostra resultado negativo, mas depreciações e baixas de ativos ajudam a explicar diferença para o fluxo de caixa operacional
A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos passa pela fase mais crítica de suas mais de três décadas de existência. Após recuperar a duras penas uma infraestrutura ferroviária obsoleta e passar a transportar milhões de passageiros diariamente, a empresa estatal passa por um processo de esvaziamento e que tem gerado críticas muitas vezes imprecisas sobre seu real estado.
O site MetrôCPTM se debruçou sobre os balanços e informações contábeis da CPTM para, em uma série de cinco artigos, explicar o que ocorre na companhia. Nesta primeira reportagem, buscamos esclarecer os mitos sobre ‘prejuízos’ e dívidas bilionárias.
A CPTM encerrou 2025 com prejuízo de R$ 588,6 milhões, resultado que à primeira vista sugere um enorme déficit anual na operação dos trens metropolitanos de São Paulo. As demonstrações financeiras da estatal, porém, mostram uma situação mais complexa: o prejuízo contábil não corresponde ao dinheiro que efetivamente faltou no caixa da companhia durante o ano.
A diferença é importante para compreender as contas de uma empresa que tem o Estado de São Paulo como controlador e cuja principal atividade, o transporte ferroviário de passageiros, é prestada com tarifa determinada pelo próprio governo.
Em 2025, enquanto a demonstração de resultados registrou prejuízo de R$ 588,6 milhões, o fluxo de caixa das atividades operacionais ficou negativo em R$ 53,6 milhões. No ano anterior, a diferença já era semelhante: a CPTM apresentou prejuízo contábil de R$ 548,4 milhões, diante de um fluxo de caixa operacional negativo de R$ 17,1 milhões.
Resultado da CPTM nos últimos três anos (Metrô CPTM)
Isso não significa que a operação da CPTM tenha custado ao Estado apenas R$ 53,6 milhões em 2025. A companhia recebe recursos públicos para custeio e outras compensações que já são contabilizados antes de se chegar a esses resultados. A diferença entre prejuízo e caixa serve, entretanto, para mostrar que os dois indicadores medem coisas distintas.
Depreciação pesa no resultado
Uma das principais explicações está na depreciação e amortização dos ativos. Trens, estações, equipamentos, sistemas e outras estruturas perdem valor contabilmente ao longo de sua vida útil, mesmo que essa perda não provoque uma saída de dinheiro equivalente naquele exercício.
Em 2025, depreciações e amortizações representaram R$ 377,4 milhões nos ajustes apresentados pela CPTM em sua demonstração dos fluxos de caixa.
Também houve R$ 109,4 milhões relacionados à baixa de bens do ativo imobilizado e R$ 129,9 milhões em juros e atualização monetária de arrendamentos, além de outros ajustes que afetaram o resultado contábil sem produzir necessariamente movimentação de caixa equivalente no período.
Após esses ajustes, o prejuízo de R$ 588,6 milhões se transforma em um resultado positivo de aproximadamente R$ 48 milhões antes das variações de contas como fornecedores, estoques, valores a receber e depósitos judiciais. Incorporadas essas movimentações, as atividades operacionais consumiram R$ 53,6 milhões em caixa durante o exercício.
Estação Barra Funda (CPTM)
Prejuízo aumentou em 2025, mas permanece abaixo de 2023
O resultado de 2025 também ganha outra dimensão quando comparado aos exercícios anteriores. A CPTM registrou prejuízo de R$ 851,7 milhões em 2023, que caiu para R$ 548,4 milhões em 2024 e voltou a subir para R$ 588,6 milhões no ano passado.
A piora entre 2024 e 2025 foi, portanto, de cerca de R$ 40 milhões, ou 7,3%. Na comparação com 2023, entretanto, o prejuízo de 2025 foi aproximadamente R$ 263 milhões menor.
As despesas da companhia tampouco tiveram uma alta generalizada no último exercício. Os gastos classificados por natureza somaram cerca de R$ 3,12 bilhões em 2025, ante R$ 3,15 bilhões no ano anterior.
Algumas rubricas cresceram. Os gastos com manutenção passaram de R$ 469,1 milhões para R$ 609,9 milhões, enquanto as despesas com pessoal subiram de R$ 1,13 bilhão para R$ 1,18 bilhão. Serviços de terceiros aumentaram de R$ 947 milhões para R$ 1,09 bilhão.
Outros custos tiveram comportamento contrário. As despesas com energia elétrica caíram de R$ 187,3 milhões para R$ 129,5 milhões, enquanto indenizações recuaram de R$ 417,3 milhões para R$ 227,6 milhões.
Ferrovias existentes e planejadas em São Paulo (CPTM)
Baixas de ativos afetam comparação
Outra diferença relevante entre os dois exercícios aparece em outras receitas e despesas operacionais. Essa conta teve resultado positivo de R$ 189,7 milhões em 2024, mas de apenas R$ 40 milhões em 2025.
Entre os fatores que contribuíram para a mudança estão as baixas de ativos, que somaram R$ 125,8 milhões em 2025, ante R$ 14,8 milhões no ano anterior.
A CPTM atravessa uma transformação patrimonial causada pela transferência de linhas ferroviárias para concessionárias privadas. A Linha 7-Rubi, por exemplo, deixou de ser operada pela estatal em novembro de 2025, após ser assumida pela TIC Trens.
A companhia também retirou de seu patrimônio nos últimos anos material rodante que deixou de ter utilização operacional, incluindo trens das séries 2000, 2100 e 3000. Parte desses veículos chegou posteriormente a ser oferecida em leilões como sucata.
A CPTM operou cinco composições da Série 3000 (Reprodução)
R$ 11,8 bilhões não são dívida da CPTM
Outro número das demonstrações financeiras que exige cuidado são os R$ 11,8 bilhões em prejuízos acumulados registrados no patrimônio líquido da CPTM ao final de 2025.
O valor não corresponde a uma dívida de R$ 11,8 bilhões, tampouco a um déficit produzido no ano passado. Trata-se da soma contábil dos resultados acumulados pela companhia ao longo dos anos e que aparece como uma das contas de seu patrimônio líquido.
No final de 2024, os prejuízos acumulados eram de aproximadamente R$ 11,2 bilhões. O resultado de 2025 elevou esse saldo para R$ 11,8 bilhões.
Apesar desse valor, o patrimônio líquido da CPTM era positivo em R$ 12,9 bilhões em dezembro de 2025. Isso ocorre porque, do outro lado dessa conta, há um capital social de R$ 23,1 bilhões, além de outras rubricas patrimoniais.
Como controlador praticamente integral da CPTM, o Estado realiza sucessivos aumentos de capital e transfere ativos para a companhia. Por isso, prejuízos acumulados e patrimônio líquido positivo podem coexistir no balanço.
A própria natureza da empresa também torna inadequada uma comparação direta com uma companhia privada que precisa produzir lucro para remunerar seus acionistas. A CPTM é uma sociedade de economia mista controlada pelo Estado e classificada como empresa estatal dependente. A tarifa que cobra dos passageiros não é determinada pela companhia, mas pela política tarifária estadual.
Um dos acessos da estação Ipiranga da Linha 10-Turquesa (CPTM)
Em suas próprias demonstrações financeiras, a CPTM relaciona essa dependência à política de tarifa social e às integrações entre diferentes meios de transporte, que exigem recursos públicos para complementar o financiamento do serviço.
Isso não torna o prejuízo irrelevante nem permite concluir, apenas a partir dessas características, se a empresa é eficiente ou não. O resultado de R$ 588,6 milhões existe e faz parte das contas da CPTM. O que ele não mostra isoladamente é quanto dinheiro foi necessário para manter os trens circulando, quanto desse custo foi pago pelos passageiros e quanto veio do Estado.
Em 2025, por exemplo, a CPTM recebeu recursos públicos para custeio, recomposição tarifária e ressarcimento de gratuidades. Também recebeu R$ 699,4 milhões em adiantamentos destinados ao seu programa de investimentos, recursos que têm natureza diferente dos valores utilizados para financiar a operação.
Essa separação é fundamental para entender as contas da estatal. Na próxima reportagem desta série, o MetrôCPTM mostrará quanto custou transportar cada passageiro da CPTM em 2025 e qual parcela dessa conta foi coberta pela receita do transporte e pelo Estado.
