Profundidade da Linha 6-Laranja contribuiu para acionar cláusula inédita de risco geotécnico
Condições encontradas na estação Higienópolis-Mackenzie elevaram custos e alteraram o cronograma da obra, mas contrato previa que o Estado assumiria parte desse tipo de imprevisto
As dificuldades geológicas encontradas na construção da estação Higienópolis-Mackenzie acionaram uma cláusula pouco conhecida do contrato da Linha 6-Laranja: o compartilhamento do risco geotécnico entre o governo paulista e a concessionária Linha Uni.
A confirmação foi dada pela Artesp em reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo. Segundo a agência reguladora, análises técnicas concluíram que as condições encontradas durante as escavações eram diferentes das indicadas pelos levantamentos realizados antes do início da obra.
“Isso não foi decorrência de atraso da concessionária na obra. Foi, de fato, a materialização de um risco contratual geotecnológico. Pelo contrato, esse risco é assumido pelo Estado, tanto em termos de custo como de prazo”, afirmou Fernanda Esbízaro Rudnik, diretora da Artesp.
O problema apareceu na região de Higienópolis-Mackenzie, uma das partes mais complexas e profundas do traçado. As equipes encontraram um solo com pouca resistência e presença de água em volume superior ao previsto. A velocidade das escavações precisou ser reduzida, acompanhada por injeções de concreto para estabilizar o terreno.
Painel de estações (Willian Moreira)
A profundidade da Linha 6 não foi, isoladamente, a causa do imprevisto, mas tornou mais difícil investigá-lo e corrigi-lo. Em obras subterrâneas profundas, as sondagens feitas a partir da superfície analisam pontos específicos e não conseguem reproduzir completamente todas as condições existentes ao longo do trajeto.
Quanto maior a profundidade, maior também pode ser a pressão da água no solo e mais complexa se torna uma mudança no método construtivo depois que a escavação já começou. No caso da Linha 6, sete estações ficarão a pelo menos 45 metros da superfície.
Linha 6-Laranja (Willian Moreira)
O traçado ainda atravessa uma região densamente ocupada, passa sob o Rio Tietê, cruza outras linhas de metrô e percorre áreas com grande variação de relevo. Entre o ponto mais alto, no Pátio Morro Grande, e o mais baixo, na estação Água Branca, existe uma diferença de aproximadamente 105 metros.
O contrato da parceria público-privada previu que ocorrências geotécnicas fora do cenário considerado nos projetos seriam tratadas como risco compartilhado. Após o reconhecimento do problema, a concessionária precisou apresentar uma solução para reduzir os impactos sobre o prazo e os custos.
Sem a mudança na execução, a conclusão da Linha 6 poderia sofrer um atraso superior a mil dias. O novo plano reorganizou as frentes de trabalho, ampliou atividades nos canteiros e dividiu a abertura do ramal em etapas.
O custo adicional da solução foi calculado em R$ 3,6 bilhões. Segundo a Artesp, manter o cronograma anterior e absorver todo o atraso provocado pelas condições geológicas custaria cerca de R$ 4,4 bilhões, principalmente pela perda de receita durante o período em que a linha permaneceria sem passageiros.
Parte dessa conta decorre do próprio modelo da concessão. A Linha Uni será remunerada durante a operação e, quando um risco atribuído ao Estado impede o início do serviço, o contrato prevê compensações pelo período sem arrecadação.
A abertura antecipada de parte da Linha 6 também foi usada para reduzir esse impacto. As primeiras seis estações começaram a funcionar antes da data prevista no cronograma revisado, permitindo que a concessionária iniciasse a geração de receita, embora a demanda atual seja bastante restrita.
A estreia apressada, no entanto, coincidiu com o calendário eleitoral. Se demorasse alguns dias mais, a inauguração não poderia ter sido feita pelo governador Tarcísio de Freitas, que concorre à reeleição.
Primeiros passageiros da Linha 6-Laranja acessam a estação Santa Marina (Willian Moreira)
Ele negou a associação dizendo que recebe críticas por antecipar entregas de obras, mas as condições operacionais da Linha 6 são até aqui sofríveis. Passageiros convivem com obras inacabadas, acessos incompletos e um serviço extremamente limitado além da falta de uma ligação apropriada com a Linha 7-Rubi em Água Branca.
O projeto completo é estimado atualmente em cerca de R$ 19 bilhões. O valor inclui a atualização dos montantes contratuais, mudanças técnicas e as compensações ligadas às condições geológicas encontradas durante a obra.
A estação Higienópolis-Mackenzie deverá ser entregue com a segunda parte da Linha 6, prevista para outubro de 2027. Ela fará a conexão do novo ramal com a Linha 4-Amarela e será uma das estações mais profundas da rede paulistana.
