Tatuzão Hebe Camargo tem 6,5 km e vários desafios pela frente na expansão da Linha 2-Verde até Guarulhos
Tuneladora iniciou nova etapa de escavação em 16 de outubro e terá de atravessar estações, poços, diferentes tipos de solo e passar sob o Rio Tietê
O tatuzão Hebe Camargo iniciou na sexta-feira, 16 de outubro, a escavação do segundo trecho da expansão da Linha 2-Verde, partindo da região da Penha em direção a Guarulhos. Pela frente, a maior tuneladora já utilizada em uma obra metroviária na América Latina terá aproximadamente 6,45 km até chegar ao VSE Castelo Branco, próximo à Rodovia Presidente Dutra.
Nem toda essa distância, porém, será escavada pela máquina. Cerca de 5,47 km correspondem aos túneis que serão efetivamente abertos pela Hebe Camargo, enquanto aproximadamente 983 metros são ocupados por estações e outras grandes estruturas a serem escavadas por outros métodos e nas quais o equipamento precisará ser arrastado.
O governo paulista trabalha com uma produtividade média de 12 metros por dia para a máquina. Em uma conta simples, sem considerar qualquer interrupção, a abertura dos 5,47 km de túneis exigiria cerca de 456 dias de trabalho, o equivalente a aproximadamente 15 meses.
Na prática, porém, o avanço não será contínuo. Entre a Penha e o VSE Castelo Branco, Hebe Camargo atravessará cinco futuras estações — Penha de França, Gabriela Mistral, Fernão Dias, Ponte Grande e Dutra —, além da Vala de Construção Auxiliar (VCA) Penha, do VSE São Pedro e de outros poços de ventilação e saída de emergência.
Caminho da tuneladora Hebe Camargo (Metrô CPTM)
As cinco estações possuem 136 metros de comprimento cada uma e representam 680 metros nos quais a tuneladora não precisará escavar o túnel. O VCA Penha acrescenta outros 75,72 metros e o VSE São Pedro, uma estrutura excepcionalmente grande, tem 227 metros. Juntos, esses locais totalizam aproximadamente 983 metros de arraste previstos no percurso.
Essas passagens também consomem tempo. Se apenas como exercício forem considerados cerca de 30 dias para atravessar cada uma das estações e as duas grandes estruturas e uma semana nos VSEs menores, seriam adicionados aproximadamente oito meses ao tempo necessário para a escavação. Nesse cenário idealizado, a Hebe Camargo alcançaria o final do percurso por volta de setembro de 2028.
A estimativa não constitui um cronograma do Metrô. Além de os 12 metros diários serem uma média de referência, não é possível saber antecipadamente quanto tempo cada arraste exigirá nem prever paradas para manutenção, ajustes e reorganização da logística da obra.
Quase 1 km entre estações
O perfil longitudinal da expansão ajuda a dimensionar o caminho da Hebe Camargo. Partindo da Penha, serão 157 metros de túnel até a VCA Penha. Depois dos 75,72 metros da vala, haverá outros 213 metros de escavação até o VSE Padre João e mais 549 metros até Penha de França.
Após atravessar os 136 metros da estação, a tuneladora terá 307 metros de túnel até o VSE Carlos Meira e outros 283 metros até Gabriela Mistral. Depois dos 136 metros da estação, serão 520 metros até o VSE Basuca e outros 447 metros até Fernão Dias.
Obras da estação Fernão Dias em agosto de 2026 (iTechdrones)
A partir daí aparecem alguns dos maiores intervalos do percurso. Depois de atravessar os 136 metros de Fernão Dias, a Hebe Camargo escavará 620 metros até o VSE São Pedro, que fica próximo ao Pátio Paulo Freire. A estrutura terá 227 metros de extensão e será seguida por outros 648 metros de túnel até Ponte Grande.
Após os 136 metros da estação Ponte Grande, serão mais 572 metros até o VSE Anton Philips e 608 metros até Dutra. A última estação também terá 136 metros e será sucedida pelo trecho final de 545 metros até o VSE Castelo Branco.
Do solo sedimentar à rocha
A própria geologia muda consideravelmente durante os 6,45 km. O perfil elaborado para a obra mostra uma sucessão de argilas, areias e outros sedimentos na região da Penha, com alterações nas características do terreno à medida que a tuneladora segue para nordeste.
Uma das etapas mais delicadas deverá ocorrer na aproximação de Fernão Dias. Nesse trecho, o túnel desce em direção à região do Rio Tietê e atravessa depósitos aluvionares, com presença de água subterrânea próxima ao nível da escavação.
Hebe Camargo passará por baixo do Rio Tietê antes de chegar à estação Fernão Dias. A travessia combina solo sedimentar, água e pressão sobre a frente de escavação, condições previstas no projeto da tuneladora, mas que tornam esse ponto diferente dos trechos escavados em terreno mais homogêneo.
O corte lateral de Ponte Grande
Depois de Fernão Dias, o perfil geológico muda novamente. Na direção de Ponte Grande e Dutra aparecem formações associadas ao embasamento cristalino, incluindo saprolito de gnaisse e gnaisse granítico alterado. A máquina também poderá encontrar zonas de transição entre materiais com características diferentes.
Essas variações não permitem concluir antecipadamente em quais trechos a Hebe Camargo será mais rápida ou mais lenta. A produtividade dependerá não apenas da resistência do material escavado, mas também da estabilidade da frente, presença de água, pressão de trabalho e necessidade de manutenção dos equipamentos.
Tuneladora Hebe Camargo (GESP)
Logística também precisa acompanhar tatuzão
Há ainda um desafio que ocorre atrás da própria tuneladora. A Hebe Camargo depende de uma estrutura logística de grande porte para receber as aduelas que formam os anéis do túnel e retirar o material escavado.
Essa estrutura não permanecerá durante todo o percurso na área da estação Penha. O planejamento prevê bases logísticas sucessivas ao longo da escavação, exigindo a transferência de equipamentos à medida que a máquina se distancia do ponto de partida.
Entre eles estão os grandes pórticos empregados na movimentação de materiais. A mudança desses equipamentos e a reorganização da logística necessária para alimentar a tuneladora podem criar períodos em que a escavação ficará interrompida.

Outra variável estará alguns metros ou quilômetros à frente da Hebe Camargo. As estações, a VCA Penha, o VSE São Pedro e os demais poços precisam alcançar as etapas necessárias de construção antes da chegada da máquina. Caso uma dessas estruturas não esteja preparada, a tuneladora terá de aguardar a liberação do caminho ou, então, passar pelo local ainda sem estar finalizado.
Por isso, a média de 12 metros por dia permite apenas dimensionar o tempo necessário para abrir os cerca de 5,47 km de túneis. Os outros quase 983 metros serão vencidos por arraste, e tanto essas operações quanto a geologia, a logística e o andamento das obras à frente da Hebe Camargo determinarão quanto tempo será necessário para completar os 6,45 km até o VSE Castelo Branco.
