Tentativas de batizar estações e até pátio sobrevivem na pauta da Assembleia de SP há quase 12 anos
Projetos vetados para mudar nomes como Faria Lima e Pátio Oratório continuam sem decisão definitiva da Alesp mais de uma década depois
Três projetos apresentados em 2014 para mudar os nomes de estações e até de um pátio do sistema metroferroviário de São Paulo continuam formalmente pendentes na Assembleia Legislativa quase 12 anos depois.
As propostas pretendiam substituir ou acrescentar denominações ao Pátio Oratório, da Linha 15-Prata, à Estação Faria Lima, da Linha 4-Amarela, e a uma estação então projetada para a Linha 9-Esmeralda.
Todos foram aprovados pela Alesp e posteriormente vetados pelo então governador Geraldo Alckmin. O detalhe curioso é que os vetos nunca tiveram sua análise concluída pelo plenário.
Por isso, os projetos continuam aparecendo na Ordem do Dia da Assembleia em 2026, à espera da discussão e votação dos vetos.
O mais antigo dos três casos é o PL 1235/2014, apresentado pelo então deputado Orlando Morando. A proposta pretendia dar o nome de “Helio Ribeiro” ao Pátio Oratório, utilizado pela Linha 15-Prata.
Alckmin vetou integralmente a mudança em 2015. Entre os argumentos apresentados estava a posição do próprio Metrô de SP, que defendia a utilização de referências urbanas preexistentes e significativas para denominar suas instalações.
Trens partirão alternadamente da estação Mendes-Vila Natal para Osasco e Pinheiros (Jean Carlos)
Oratório se enquadrava nesse critério por sua relação com a região. A empresa também argumentou que mudanças em denominações já estabelecidas poderiam confundir passageiros e gerar gastos com a substituição da comunicação visual.
A Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alesp chegou a analisar o caso ainda em 2015 e aprovou parecer favorável ao veto. Faltou, porém, a decisão definitiva do plenário.
Mais de uma década depois, o veto continua na Ordem do Dia.
Faria Lima quase virou Largo da Batata
Outro sobrevivente é o PL 1262/2014, do então deputado Carlos Neder. A proposta nasceu com a intenção de trocar o nome da Estação Faria Lima, da Linha 4-Amarela, por “Estação Largo da Batata”. Durante a tramitação, o texto foi alterado e chegou ao governador propondo a denominação “Faria Lima – Largo da Batata”.
O projeto demorou mais de três anos para completar sua passagem pela Assembleia e só foi vetado por Alckmin em fevereiro de 2018.
O governo voltou a citar os critérios utilizados pelo Metrô para definir os nomes das estações, além dos custos e da possibilidade de confusão causada pela alteração de uma denominação consolidada.
Estação Faria Lima tem novo layout de aparência e iluminação nas plataformas.
Havia ainda uma peculiaridade. Como a Linha 4-Amarela já era operada por uma concessionária privada, o governo apontou que uma mudança capaz de gerar despesas à empresa poderia resultar em pedido de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão.
O veto também nunca foi definitivamente decidido pelo plenário e continua relacionado na Ordem do Dia em 2026.
Nome escolhido por 3% quase foi parar na Linha 9
Talvez o caso mais curioso seja o PL 1333/2014, apresentado pelo então deputado Luiz Claudio Marcolino.
A proposta pretendia chamar de “Santa Cabrini” uma estação da Linha 9-Esmeralda prevista para a região de Jardim São Bernardo e Vila Natal, no Grajaú.
Antes da definição da denominação, a CPTM realizou uma pesquisa para saber qual nome tinha maior identificação com a região.
Segundo as informações utilizadas pelo governo para justificar o veto, “Mendes-Vila Natal” recebeu 38% das indicações. “Santa Cabrini” teve apenas 3%. Mesmo assim, a Assembleia aprovou a denominação Santa Cabrini.
Ao vetar o projeto em janeiro de 2016, Alckmin reproduziu os argumentos da CPTM de que a escolha dos nomes considera aspectos históricos e geográficos, referências conhecidas pela população e a própria aceitação da denominação pelos usuários.
Portas de plataforma de Patriarca em funcionamento (Trilhos que Movem SP)
A companhia também sustentou que possuía autonomia para administrar seu patrimônio, incluindo a denominação das estações.
Dez anos depois do veto, a Alesp ainda não deu a palavra final sobre a proposta.
Outros nomes também ficaram pelo caminho
Os três projetos não foram casos isolados de parlamentares tentando acrescentar homenagens ou novas referências aos nomes das estações.
Uma proposta de 2012 pretendia transformar Parada Inglesa, da Linha 1-Azul, em “Parada Inglesa – Professor Paulo Meinberg”.
Nesse caso, porém, a história teve um fim. O projeto foi vetado e, em maio de 2015, a Assembleia apreciou a decisão do governador e manteve o veto. A proposição acabou arquivada.
Também surgiram propostas para acrescentar Vila Ré ao nome da Estação Patriarca e para associar o nome do médico e pastor Enéas Tognini à Estação Vila Mariana.
Esta última, apresentada em 2015, teve destino semelhante aos projetos mais antigos. O PL 1626/2015 foi aprovado pela Assembleia e vetado integralmente pelo governador.
Estação Vila Mariana, primeiro destino do Metrô paulistano
A CCJR chegou a se posicionar contra o veto, mas novamente não houve uma decisão definitiva do plenário. O projeto também continua relacionado na Ordem do Dia de 2026.
Há ainda registros de propostas para associar outras personalidades a estações, entre elas uma tentativa de incluir o nome de Nenê de Vila Matilde na estação homônima da Linha 3-Vermelha.
Por que projetos vetados continuam na pauta?
O aparente paradoxo ocorre porque o veto do governador não encerra sozinho a tramitação de um projeto aprovado pela Assembleia.
Depois do veto, a matéria retorna ao Legislativo. Cabe aos deputados decidir se mantêm a decisão do governador ou se a rejeitam. Enquanto essa votação não ocorre, o veto permanece pendente.
É por isso que projetos apresentados ainda em 2014 continuam aparecendo na Ordem do Dia da Alesp em 2026.
Pátio Oratório (CMSP)
No caso do Pátio Oratório, por exemplo, a proposta já aparecia anos atrás entre os vetos que aguardavam votação. Em 2023 era o item 183 da Ordem do Dia. Em outubro de 2026, quase quatro anos depois e mais de uma década após sua apresentação, continua na fila.
A mesma situação se repete com as propostas envolvendo Faria Lima e a estação da Linha 9 no Grajaú. Embora os nomes pretendidos nunca tenham entrado em vigor, seus processos legislativos continuam sem um desfecho definitivo.
