Vistoria da ANAC constata que People Mover de Guarulhos não realizou testes prometidos
Visita técnica em setembro ao sistema Aeromovel encontrou projeto distante do cronograma e sem uma previsão segura de entrega
O projeto do People Mover que ligará a Linha 13-Jade da CPTM aos terminais de passageiros do Aeroporto Internacional de Guarulhos segue sem uma previsão clara sobre sua estreia, mas um documento da ANAC, a agência de aviação civil brasileira, revelou que a situação é mais preocupante do que se pensava.
A nota técnica, publicada semanas atrás após uma vistoria técnica realizada pela ANAC em 1º de setembro de 2025, confirmou que o sistema segue fora de operação, ainda em fase de comissionamento e testes com carga, sem condições de transporte de passageiros.
De acordo com nota da agência, o quadro é de descumprimento contratual sistemático, marcado por sucessivos atrasos, ausência de transparência e falta de qualquer cronograma confiável por parte da concessionária GRU Airport e do consórcio AeroGRU, responsável pela obra.
Veículos possui dois carros e passagem livre (ANAC)
O contrato de concessão previa que o Automated People Mover (APM) fosse entregue em fevereiro de 2024, mas o prazo já foi postergado quatro vezes — para outubro de 2024, fevereiro de 2025, agosto de 2025 e, agora, sem nova previsão definida.
Mesmo após reiteradas cobranças da ANAC, a concessionária não apresentou cronogramas consistentes.
A última comunicação registrada antes da publicação da nota técnica foi feita em 29 de agosto , apenas dois dias antes da data prometida, e que solicitou um “ajuste no cronograma”, sem informar nova data de conclusão.
Para a ANAC, esse comportamento evidencia falta de gestão e de previsibilidade, incompatível com um empreendimento dessa complexidade.
Parte frontal de um dos veículos Aeromovel com paineis abertos (ANAC)
Operação assistida não cumpre contrato
Durante a visita, representantes da concessionária informaram que o sistema poderia iniciar uma operação parcial, assistida, condicionada à obtenção de uma autorização de segurança (Safety Authorization).
A ANAC, no entanto, reiterou que esse tipo de operação não configura o cumprimento contratual, uma vez que o contrato exige o funcionamento pleno do sistema com nível máximo de automação (GoA 4) e certificação de segurança SIL 4 — requisitos ainda não atingidos.
A agência também ressaltou que não existe previsão contratual de “cumprimento parcial” ou operação limitada.
Mesmo que uma fase assistida venha a ocorrer, o contrato só é considerado cumprido com a certificação final e homologação do sistema em plena operação comercial.
Um dos três veículos Aeromovel (Aerom)
Testes não realizados comprometem todo o cronograma
O relatório da vistoria detalha que a concessionária não cumpriu nenhuma das etapas de testes previstas no cronograma técnico, conhecido como sequência de marcos A a F, apresentado em abril de 2025.
O Marco A, o mais básico, chamado “Operação Automática Manualmente Sincronizada Shuttle Bypass”, tinha prazo para 10 de julho de 2025, mas ainda não havia sido concluído na inspeção de setembro.
Essa fase inicial é essencial porque serve como base para os demais marcos — que incluem testes automáticos, integração entre veículos, funcionamento de controle central, certificação de segurança e, por fim, operação plena com passageiros.
Com o Marco A atrasado, todas as etapas subsequentes ficaram automaticamente inviáveis, interrompendo o avanço do comissionamento e impedindo a conclusão técnica do sistema.
Plataforma do Aeromovel no Terminal 2 de Guarulhos (Reprodução)
Obras civis avançadas, mas sistemas críticos seguem incompletos
A vistoria constatou que as estruturas físicas do trajeto estão praticamente finalizadas, mas os sistemas de automação, controle, integração operacional e certificação permanecem inconclusos.
Além disso, pendências antigas, como a inoperabilidade do elevador do Terminal 2, continuam sem correção, apesar de já terem sido apontadas em inspeções de 2024 e 2025.
ANAC pode aplicar sanções e reavaliar obrigação contratual
A área técnica da ANAC conclui que não há elementos técnicos que sustentem um novo prazo de entrega e que o sistema pode não ser viável nas condições atuais.
A agência avalia aplicar sanções contratuais, como multas e devolução de valores de reequilíbrio econômico-financeiro, e também reconsiderar a manutenção da obrigação de construir o APM no contrato de concessão — medida prevista nas cláusulas 2.15-A.7 e 2.15-A.8, caso o investimento não seja entregue.
Segundo o documento, a falta de transparência e o padrão de atrasos mostram que os problemas do projeto “são de magnitude maior do que o informado pela concessionária”, e que não há hoje qualquer expectativa realista de prazo.
Veículo laranja do Aeromovel e ao fundo o modelo na cor azul (rebU)
Promessa distante
O People Mover foi anunciado como a ligação definitiva e gratuita entre a estação da Linha 13-Jade da CPTM e os três terminais de Guarulhos, com operação automatizada, sem condutor e intervalos de apenas poucos minutos.
Mais de 18 meses após o prazo original de entrega, o sistema segue sem previsão de funcionamento.
Para a ANAC, o caso se tornou um exemplo de descumprimento recorrente e ausência de controle sobre o cronograma, que mina a confiança na execução do projeto e compromete o interesse público.
