Acredite: metrôs rodam vazios na Índia, apesar de mobilidade deficiente

Rede cresceu rapidamente na última década com o apoio do governo do país, mas demanda ficou bem abaixo do previsto em várias cidades

Trem da linha 'Aqua' do Metrô de Mumbai
Trem da linha 'Aqua' do Metrô de Mumbai (Historical Trains)

A expansão acelerada dos sistemas de metrô na Índia tem produzido um resultado inesperado: linhas com baixa demanda, mesmo em cidades densas e com problemas crônicos de mobilidade. Reportagem da BBC aponta que, apesar de investimentos superiores a US$ 26 bilhões (cerca de R$ 130 bilhões) por parte do governo do país desde 2014 e uma rede que já supera 1.000 km, boa parte dos sistemas transporta apenas uma fração dos passageiros projetados.

Estudos citados pela publicação indicam que a demanda real em diversos sistemas varia entre 20% e 50% do previsto, com casos extremos ainda mais baixos em cidades menores. A discrepância tem várias causas, incluindo projeções superestimadas na fase de planejamento, oferta operacional abaixo do esperado e limitações na integração com outros modos de transporte.

Um dos principais fatores apontados é o custo para o usuário. Em alguns casos, o gasto com transporte pode consumir até 20% da renda de trabalhadores de menor renda, acima de referências internacionais. A redução de subsídios em parte dos sistemas também tem impacto direto na demanda, com registros de queda no número de passageiros após reajustes tarifários.

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Estação Marol Naka, da Aqua Line do Metrô de Mumbai (Historical Trains)

Além disso, a operação de muitas linhas ainda não atingiu o nível planejado. Frequências elevadas e composições mais longas, comuns em sistemas mais consolidados, nem sempre foram implementadas, o que reduz a atratividade do serviço. Problemas de integração, tanto física quanto operacional, também dificultam o uso cotidiano, com conexões demoradas entre linhas e pouca oferta de transporte complementar.

Sistema paulista vê cenário oposto

A comparação com São Paulo ajuda a dimensionar essas diferenças. Apesar de também enfrentar desafios de expansão e capacidade, o sistema paulista opera sob um modelo tarifário integrado, com cobrança única que permite ao passageiro circular por toda a rede metroferroviária — hoje com mais de 400 km — pagando uma tarifa fixa de R$ 5,40. Esse valor é subsidiado pelo poder público, o que reduz o peso do transporte no orçamento dos usuários.

Outro elemento relevante é o vale-transporte, benefício obrigatório no Brasil que cobre parte significativa do custo de deslocamento para trabalhadores formais. Esse mecanismo contribui para sustentar a demanda no sistema, mesmo em cenários de aumento tarifário.

A integração entre modos também é mais consolidada em São Paulo, ainda que com limitações. Metrô e trens metropolitanos operam sob coordenação tarifária e física, o que reduz o tempo de deslocamento e amplia a área de influência das linhas sobre trilhos. O transporte de ônibus também possui algum tipo de integração, embora o custo seja mais elevado.

Estação Sé (CMSP)

Na Índia, a fragmentação institucional e a falta de conexão eficiente com outros modais aparecem como entraves adicionais. Em várias cidades, sistemas de ônibus e metrô são operados por entidades diferentes, com pouca integração operacional. Questões como acesso às estações, segurança e infraestrutura para pedestres também afetam a atratividade do serviço.

Causa espanto, portanto, que mesmo com uma mobilidade extremamente deficiente (a média per capita de automóveis é bem inferior à brasileira), a demanda siga longe do esperado.

É um sintoma que deve ser estudado por especialistas no Brasil já que está claro que o transporte coletivo precisa de recursos e tarifas atrativas, sob risco de ver os passageiros migrando para outros modais menos eficientes de um ponto de vista mais amplo, que considera os benefícios econômicos, sociais e ambientais e não apenas o custo de manter o sistema.

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Santiago
Santiago
1 mês atrás

Vale também lembrar que o Metrô é um modal relativamente recente na Índia, e a sua implantação acontece no mesmo ritmo que o acelerado crescimento econômico do país.
Ao menos a parte mais difícil, que é implantar o sistema, vem sendo feita.
Agora é repensarem as questões colocadas na matéria, e irem fazendo os devidos ajustes. Afinal, demanda é o que não falta no país mais populoso do mundo.

Ligeiro
Ligeiro
1 mês atrás

Interessante pensar que a matéria mostra um dos pontos – o quanto vale o transporte em relação ao custo de vida da pessoa: 20% de um salário. Eu não sei exatamente quanto no Brasil o transporte público consumiria do cidadão, mas claro que isso varia conforme região, condições do cidadão e condições da cidade. Isso aliado ao fato que no Brasil tem a lei de obrigação de “vale transporte” e “subsídios” para idosos, estudantes e algumas classes de trabalho.

Se o transporte opera sem passageiros, ele opera literalmente sob subsídios estatais. Talvez o ponto seria justamente o país (e as regiões administrativas) pensarem em adotar “Tarifa Zero” ou “Subsídio Tarifário” por lá. Talvez o medo também seja os rearranjos culturais e econômicos que ocorrerão – dado que também isso reduzirá a locomoção por veículos locados, táxis e similares.

Marcelo
Marcelo
1 mês atrás

Enquanto isso, os trens de suburbio na india (a CPTM deles lá) opera com trens caindo aos pedaços, portas abertas, passageiros embarcando com o trem partindo, enfim, um CAOS. O governo deveria arrumar as linhas de trens como fez o daqui e integrar com o metrô e também com os onibus.

Não adianta mexer em apenas uma coisa só, tem que mexer em tudo, é um sistema

Aqui funciona bem e é bem movimentado pq é todo integrado. Qualquer onibus municipal ou intermunicipal de todas as cidades tem acesso a alguma estação de metrô ou trem, o que facilita por demais a integração….

Parece que na india não tem isso, dai o metrô não vai ter demanda mesmo….

Ligeiro
Ligeiro
1 mês atrás
Responder para  Marcelo

na verdade eles tem tido atualizações. procure canais de turistas em redes de video que mostram sobre. Ainda tem composições antigas ruins, mas eles tem modernizado também

Ivo
Ivo
1 mês atrás

Isso é o resultado de corrupção. Políticos corruptos convenceram o governo central da Índia a investir em metrôs onde não há demanda apenas para desviar parte dos recursos das obras.

Isso também aconteceu na China, onde uma empresa famosa tentou empurrar monotrilhos para várias cidades até o governo chinês descobrir a farsa e condicionar as verbas a estudos de viabilidade.

Gilberto JV-TS
Gilberto JV-TS
1 mês atrás

Olá amigos, é um assunto muito complexo, eu não saberia dizer com certeza com quantas fases nòs passamos até chegarmos ao atual estágio do transportes em SP, e não tem milagre, eles vão ter que seguir os nossos passos, com subsídios e integração entre os modais, povos do terceiro mundo não tem condição de pagar tarifa plena, como em países do primeiro mundo. Quem acompanha os transportes à muitos tempo já tem conhecimento do vem ocorrendo no RJ, e aí…..