Artigo pago defende obra do BRT ABC em meio a processo de caducidade

Publieditorial destaca dificuldades semelhantes às alegadas pela Next Mobilidade para explicar problemas enfrentados na implantação do corredor

BRT ABC deveria ter ficado pronto em outubro de 2026 após múltiplos atrasos
BRT ABC deveria ter ficado pronto em outubro de 2026 após múltiplos atrasos (Willian Moreira)

Um artigo pago publicado na edição de outubro da revista Engenharia apresenta o BRT ABC como um “Corredor Urbano Complexo” e que seria, segundo os autores, uma obra “estratégica” e bancada “exclusivamente pela iniciativa privada” – no caso, a Next Mobilidade.

O material surge no mesmo mês em que a Artesp abriu um processo de caducidade da concessão após sucessivos atrasos na conclusão do empreendimento. O texto patrocinado foi usado por alguns sites como uma reportagem autêntica da revista, contudo.

A própria revista, contudo, identifica o texto como um “publieditorial”, ou seja, houve um pagamento à publicação para que o conteúdo fizesse parte da edição mais recente. Trata-se de uma prática normal no mercado, mas sempre apresentando claramente quem pagou pelo espaço.

As quatro páginas destinadas ao texto “Soluções Estruturais e Desafios de Implantação das Obras de Arte Especiais em Corredor Urbano Complexo” são assinadas pelos engenheiros Tunehiro Uono e Eny Kaori Uono Sanchez.

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Ônibus do BRT ABC fazem ‘ensaio’ (Next)

Os dois autores são ligados à Tuto Consultoria e Engenharia. Uono é sócio-proprietário da empresa e membro vitalício do Conselho Consultivo do Instituto de Engenharia, enquanto Eny aparece como responsável técnica da Tuto e ocupa o cargo de primeira diretora-secretária do instituto. As fotografias utilizadas no artigo também são creditadas à Tuto.

A publicação não informa, no entanto, quem contratou o espaço pago ou qual é a relação da empresa de engenharia com a implantação do BRT ABC.

Argumentos similares ao da Next para justificar atrasos na obra

Ao longo das páginas, o publieditorial apresenta a construção do corredor como uma obra de elevada complexidade em razão de sua implantação em uma região densamente urbanizada.

Entre os problemas destacados estão interferências com emissários da Sabesp, redes de drenagem com cadastros incompletos, áreas contaminadas, linhas de transmissão de energia, desapropriações e restrições para execução das obras sem interromper o tráfego.

O artigo descreve ainda soluções adotadas para contornar essas interferências e atribui à engenharia papel decisivo para compatibilizar o projeto com a infraestrutura existente.

Obras do Terminal São Bernardo do BRT ABC (Reprodução)

Os argumentos chamam atenção pela semelhança com a defesa apresentada pela Next Mobilidade depois que a Artesp decidiu abrir o processo administrativo de caducidade.

Em manifestação divulgada no início de outubro, a concessionária classificou o BRT ABC como uma obra de “elevada complexidade” e afirmou que o cronograma foi afetado por interferências em redes de serviços públicos, remanejamentos de infraestrutura, adequações viárias, desapropriações e licenciamentos, além de providências dependentes de outros órgãos e agentes públicos e privados.

Segundo a Next, essas circunstâncias externas precisam ser consideradas na avaliação das responsabilidades pelos atrasos do empreendimento.

A avaliação da Artesp é diferente. Ao converter o procedimento que apurava o inadimplemento em processo administrativo de caducidade, a agência apontou que a concessionária descumpriu o prazo contratual para conclusão das obras, originalmente estabelecido em 30 de novembro de 2024.

Passado e presente: Linha 18-Bronze prometia melhorar qualidade de vida no ABC enquanto BRT será mais um corredor de ônibus (VEM ABC/Divulgação)

A reguladora afirmou também ter concedido à empresa oportunidade para sanar as inadimplências apontadas pela fiscalização. Mesmo assim, concluiu que a Next não apresenta condições técnicas e operacionais para terminar o BRT até o fim de outubro de 2026, prazo assumido pela própria concessionária em seu Plano de Ação.

A Next ainda poderá apresentar sua defesa no processo. A abertura do procedimento não significa que a concessão já tenha sido encerrada, mas pode resultar na caducidade do contrato caso as justificativas da empresa não sejam aceitas.

O BRT ABC deveria substituir o projeto da Linha 18-Bronze do Metrô e ligar São Bernardo do Campo às estações Tamanduateí e Sacomã, em São Paulo.

A ideia foi bancada pelo então governador João Doria em 2019 após a Next (na época Metra) apresentar a ele um plano preliminar de corredor. A gestão estadual anterior acabou cancelando o contrato de concessão com a VEM ABC, o que gerou uma indenização de algumas centenas de milhões de reais.

A promessa, entretanto, era que o BRT ABC ficasse pronto em apenas 18 meses e custasse barato. Mais tarde alegações que ele transportaria mais 300 mil passageiros e oferecia viagens similares em tempo caíram por terra. O corredor terá demanda bem menor e fará os usuários levarem 50% mais tempo para chegar até o Metrô – e pagando uma tarifa extra já que não haverá integração tarifária com a rede sobre trilhos.