Um dos projetos sobre trilhos mais aguardados em São Paulo, o Trem Intercidades (TIC) tem exigido dedicação acima da média para sair do papel. Lançado na gestão do ex-governador Geraldo Alckmin, o trem regional tem amadurecido, mas esbarra em muitas dificuldades sobretudo legais, como a necessidade de autorização federal e de concessionárias de carga para ser implantado no primeiro trecho, entre São Paulo e Campinas.

Na semana passada, um dos entraves para levar o projeto à frente foi superado quando o TCU liberou a assinatura da renovação da concessão da Malha Paulista, que hoje está sob responsabilidade da Rumo Logística. Graças a isso será possível utilizar parte das vias que vão de Jundiaí a Campinas e que hoje só recebem trens de carga. Durante a live realizada pelos sites de mobidade na segunda-feira, 25, o presidente da CPTM, Pedro Moro, fez um breve relato da situação do projeto, que deve ser licitado apenas em 2021, segundo afirmou o secretário Alexandre Baldy dias atrás.

Para Moro, o trem regional está na reta final de definições antes de ser apresentado à sociedade. “O TIC (Trem Intercidades) entre São Paulo e Campinas na primeira fase está em desenvolvimento. Estamos terminando os estudos mais específicos sobre modelagem de via para poder garantir o tempo de viagem com o menor custo de implantação possível aproveitando as vias existentes da Linha 7 e fazendo alguns ajustes necessários. Isso está sendo feito em conjunto com a concessionária de cargas (Rumo e MRS) para podermos fazer a segregação de carga nesse trecho entre São Paulo e Campinas“, explicou.

No ano passado, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos passou a estudar um sistema de propulsão a biodiesel, uma forma de reduzir os investimentos necessários, sobretudo entre Jundiaí e Campinas e que não possuem infraestrutura elétrica, mas esses aspectos permanecem em aberto, de acordo com o executivo. “Ainda estamos fechando alguns conceitos técnicos para afinar melhor os nossos custos, ver qual o material rodante mais indicado, qual é o tipo de energia mais indicado para esse trecho. A gente tem como meta ainda este ano fazer a consulta pública e finalizar os estudos agora no primeiro semestre e ter a consulta pública no segundo semestre desse projeto“, afirmou o presidente da CPTM.

Governo crê que viagem Campinas-Barra Funda levará uma hora

Sem concorrência com modal rodoviário

Na opinião de Sergio Avelleda, ex-presidente da CPTM e do Metrô e atualmente diretor de mobilidade do instituto WRI, a implantação do TIC não significará uma concorrência direta com o modal rodoviário. “Eu não acredito que em problemas de concorrência com o transporte rodoviário, existe demanda para todos os usuários. Primeiro que as rodovias sobrevivem muito bem com as receitas de carga e nós não estamos desenhando um trem rápido de cargas entre as duas cidades para tirar caminhão das estradas. Se fosse possível, deveríamos unir a concessão da Autoban (que administra as rodovias Bandeirantes e Anhanguera) com a do TIC. O pedágio, no valor que está hoje, já está precificado na economia, todos nós já nos acostumamos a ele. Se nós mantivéssemos esse valor de pedágio, e como não há grandes investimentos a serem feitos nas duas estradas, nós teríamos um colchão de receitas muito interessante para viabilizar a construção do trem. E o mesmo concessionário que operasse os dois sistemas poderia calibrar oferta e demanda para atingir o melhor resultado possível na operação das duas infraestruturas. Faria todo sentido o usuário do carro, do caminhão subsidiar a construção e operação do trem de passageiro, mas infelizmente o horizonte de renovação da Autoban não permite essa opção“, afirmou.

Na visão de Avelleda, que estava à frente da empresa EDLP, responsável por apresentar a Manifestação de Interesse Privado que fomentou os estudos do trem regional no início da década, o Trem Intercidades deve proporcionar mudanças importantes no eixo entre a capital paulista e Campinas. “Nós não podemos olhar o Trem Intercidades como um projeto de transporte de passageiros somente, ele é muito mais que isso. Ele é um projeto de redesenho urbano da Grande Macrometrópole São Paulo-Campinas. A partir do momento que tivermos esse trem que conectará a menos de uma hora de tempo de viagem com uma confiabilidade de 99%, nós vamos ter um deslocamento da possibilidade de moradias ao redor desse trem. Ou seja, vai ser muito fácil eu morar em Campinas e trabalhar em São Paulo“.

Para Avelleda, não haverá concorrência com o modal rodoviário no trecho São Paulo-Campinas (CCR)

A concessão do TIC terá prazo de 30 anos e deve investir cerca de R$ 7 bilhões que incluem melhorias na Linha 7-Rubi, também parte do pacote. Nos cálculos do governo, a viagem de cerca de 100 km entre Campinas e a estação Barra Funda levará uma hora, já a ligação entre Jundiaí e a capital paulista pelo Trem Expresso deverá levar apenas 30 minutos, bem mais veloz do que utilizar a linha da CPTM atualmente. Além dos dois serviços, haverá também o Trem Intermetropolitano, com nove estações ligando Francisco Morato a Campinas, com paradas em vários munícipios como Vinhedo, Valinhos e Jundiaí.