Disputa ideológica ignora real motivo de batismo de estações de metrô e trens
Polêmica da escolha de nome de estação da Linha 2-Verde gerou ação na Justiça paulista que barrou provisoriamente mudança promovida pelo Metrô de São Paulo
As polêmicas envolvendo nomes de estação ganharam um novo capítulo. A decisão do Metrô de São Paulo em mudar o nome da futura estação Paulo Freire para Fernão Dias foi suspensa preventivamente por uma ação na Justiça.
Segundo reportagem do jornal Folha de São Paulo, um recurso apresentado pela deputada estadual Ediane Maria (PSOL) foi aceito pela desembargadora Maria Fernanda de Toledo Rodovalho da 2ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Siga o MetrôCPTM nas redes: Facebook | LinkedIn | Youtube | Instagram | Twitter
A decisão, na prática, suspende a mudança do nome da estação até uma análide mais detalhada e é uma situação incomum já que em mais de 50 anos o Metrô sempre teve a prerrogativa de batizar as estações da rede, embora alguns políticos tenham conseguido dobrar a companhia a acrescentar nomes de pessoas e homenagens a times de futebol.
A alteração foi anunciada durante os primeiros meses da gestão do governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas teria sido decidida ainda na gestão passada.
Em março, o Metrô de São Paulo alegou que a mudança envolveu estudos de toponímia que incluíram um levantamento com os moradores locais. A sondagem apontou que 57% do público mostrou preferência pela associação com a rodovia Fernão Dias, enquanto a localização da Avenida Paulo Freire ficou com 29% da preferência – houve ainda 14% que opinaram que a estação deveria se chamar Parque Novo Mundo, em referência ao bairro onde está.

Cabo de guerra ideológico atropela estudo toponímico
A disputa ideológica que “sequestrou” a nomeação da estação ignora o real motivo das escolhas feitas pelo Metrô e a CPTM. Trata-se do estudo toponímico, que busca entender qual seria a referência mais útil ao equipamento público e não batizá-la com o nome de alguma figura histórica.
A toponímia é o nome técnico dado ao estudo do nome dos lugares. Não se trata de mera preferência, mas de uma associação baseada em fatos físicos, culturais e sociais que dão melhor consistência e identificação aos nomes.
Neste sentido, todas as estações passam por um sério estudo de nomes. Esse estudo incluiu entrevistas com populares da região, mas, não se limita apenas a estes. Um artigo publicado por Tacito Pio Silveira na ANTP elenca pontos importantes que devem ser considerados no estudo de nomes de estação. São eles:
1) POPULARIDADE – Encontrar um nome que seja simples e de apelo popular. Simples para facilitar a comunicação com os usuários menos instruídos. Popular para ser facilmente reconhecido por todos nas diversas situações (estações, trens, mapas, diagramas, placas) que o usuário vive no sistema.
2) ESCALA METROPOLITANA – Indicar um nome que seja reconhecido por sua relevância regional e que assim favoreça a formação de uma conscientização da condição metropolitana da cidade. Neste ponto, fica claro que para Reis Filho o sistema do metropolitano é mesmo ‘o’ elemento estruturador da metrópole.
3) CARACTERÍSTICAS DE CONTEÚDO – Escolher um título para as estações que obedeça a características que permitam sua rápida identificação: a) nomes que tenham relação com a história da cidade atual; b) uma referência que tenha significação para o conjunto da população; c) uma menção a edifícios de destaque na cidade (posteriormente consolidado como critério de toponímia e história: HISTÓRICO-GEOGRÁFICO5 ).
4) CARACTERÍSTICAS DE FORMA – A forma breve e simples do nome, com boa sonoridade e de fácil leitura e pronúncia, mesmo para aqueles com dificuldade ou baixo grau de instrução. Evitar palavras estrangeiras ou muito longas, com letras mudas de difícil leitura (Reis Filho, 1972).
O nome “Paulo Freire” faz menção ao educador considerado Patrono da Educação Brasileira. A estação da Linha 2-Verde que é foco da polêmica se localiza ao lado da Avenida Educador Paulo Freire, daí a associação original. Não há e nunca houve qualquer intenção de homenagear o educador, como se quer fazer acreditar agora.
Por sua vez, Fernão Dias faz menção ao bandeirante que na época do Brasil colonial realizou a exploração do território até então desconhecido. Mas seu nome foi sugerido por ser a rodovia BR-381, que liga São Paulo a Belo Horizonte, um ponto de referência mais conhecido na região, embora fique a aproximadamente 1,5 km da futura estação.

Aparentemente, ignora-se qualquer tipo de estudo sério acerca do nome da estação e cria-se um clima de açodamento político fomentado principalmente pela polarização entre as correntes políticas de esquerda e direita no Brasil.
Se por um lado o nome Paulo Freire é visto com infâmia por parte de representantes de correntes políticas da direita, o nome Fernão Dias ganha a mesma conotação perante as lideranças de esquerda.
Neste contexto, a disputa pelo nome da estação se torna um cabo de guerra onde se discute tudo, menos o que será melhor para a população em termos de localização geográfica.
Se o que se discute é a quem homenagear, o sensato seria então propor a revisão do nome da rodovia federal, esta sim uma homenagem, e não de uma estação de metrô que ainda nem existe.
Colaborou Ricardo Meier.
