É viável manter trens operando 24h por dia em São Paulo?

Apesar da expansão de horários parecer uma boa ideia, existem restrições e condições que precisam ser levadas em conta para operar o sistema sem interrupções

Trens operando durante a madrugada do dia 1 (Jean Carlos)

Na virada do ano, as linhas do sistema metroferroviário de São Paulo estiveram em operação durante 24 horas. A experiência, que ocorre em ocasiões bastante específicas, pode levantar um questionamento: compensaria manter o sistema operando de forma ininterrupta?

O site realizou esta curiosa experiência e observou a operação durante a madrugada nas linhas do Metrô, CPTM, ViaQuatro e ViaMobilidade. Alguns aspectos importantes precisam ser analisados antes de se chegar à algumas conclusões.

Demanda

Um dos aspectos que justifica a operação de sistemas de transporte é a demanda de passageiros que se deslocam. Durante a operação da virada de ano foi possível observar esse comportamento.

Estação Republica com passageiros (Jean Carlos)

As estações do sistema de trens metropolitanos estavam abertas para embarque até as 00h, enquanto as estações do sistema metroviário recebiam passageiros até as 2h. Isso se refletiu na demanda, que estava maior nos trens do metrô em comparação aos trens.

Algumas estações tiveram operação ininterrupta como Brigadeiro, Trianon Masp, Paulista e Higienópolis-Mackenzie. Nessas estações o movimento foi intenso e estratégias operacionais foram adotadas.

Entrada de passageiros durante a madrugada na estação Paulista (Jean Carlos)

Cabe citar que estas estações se mantiveram abertas devido ao evento de virada de ano que ocorria na Avenida Paulista. De tal forma que a demanda principal de passageiros no sistema era proveniente, não exclusivamente, mas principalmente desta região.

Intervalo entre trens

O intervalo entre os trens praticados na virada do ano era bastante semelhante àqueles vistos nos horários de vale (fora do pico). Nas linhas 2-Verde e 4-Amarela o intervalo entre trens ficava entre os 4 e 5 minutos. Os trens geralmente saiam cheios das estações que operavam integralmente.

No sistema de trens da ViaMobilidade o intervalo era de até 20 minutos. O maior tempo de espera é reflexo da baixa demanda. Os trens partiam na sua maioria vazios.

Estação Osasco, praticamente vazia (Jean Carlos)

Na CPTM o intervalo entre trens era equivalente ao do fim de operação. No sistema gerido pela estatal apenas trens prestando serviço no sentido interior atendiam, de forma que quem precisasse de trens no sentido centro não era atendido. Na estação Barra Funda os trens só voltaram a circular neste sentido após as 4h.

Segurança

A segurança no sistema foi reforçada nas estações foco da operação de Ano Novo. Nestas paradas havia mais funcionários que o normal, de forma que fosse possível auxiliar os passageiros.

Nas demais estações, tanto no sistema metroviário, como no ferroviário, havia poucos funcionários. Em uma ocasião específica na estação Brás da Linha 10-Turquesa passageiros estavam confusos quanto a operação e não havia nenhum funcionário, nem mesmo terceirizado, na plataforma para prestar auxílio.

Estação Brás, pouca presença de funcionários (Jean Carlos)

A maioria dos funcionários estava alocado nas regiões dos acessos e nas áreas de transferência que ficaram abertas durante toda a madrugada.

A operação na madrugada funcionou?

A operação de trens 24h funcionou de forma efetiva durante a virada do ano, mas isso não significa que o mesmo cenário pode ser aplicado em uma situação cotidiana.

Trem operando durante a madrugada na Linha 2-Verde (Jean Carlos)

A oferta de trens foi realizada de forma compatível com a demanda. Mas, essa demanda foi bastante pontual de forma que manter uma operação a níveis semelhantes em dias de semana seria inviável.

Em termos de recursos humanos, seria necessário mobilizar mais funcionários para manter as estações em atividade, bem como reforço especial na segurança. Cabe citar que os custos destes funcionários seriam maiores devido ao adicional noturno.

Outro aspecto importante é a retirada da faixa horária dedicada à manutenção em equipamentos fixos ou em materiais rodantes. A operação 24h, quando realizada pontualmente, tem baixo impacto, mas caso fosse aplicada permanentemente haveria reflexos significativos na zeladoria das linhas.

Neste sentido, o apoio do sistema sobre pneus através de linhas noturnas se torna mais efetiva. Linhas de ônibus com demandas pequenas e médias operando durante a madrugada podem servir de apoio para aqueles que precisam se locomover após o fechamento do sistema sobre trilhos.

A ideia é racionalizar o sistema de transportes. Diante de uma demanda muito baixa não há necessidade de aumentar a oferta, uma vez que ela gera custos para as operadoras. Mas, caso a demanda justifique uma operação diferenciada, como a que ocorreu no Ano Novo, aplicar a operação 24h é justificável.