Executivo que quer tirar trem-bala brasileiro do papel reclama de falta de apoio do governo federal
Bernardo Figueiredo citou a não inclusão do projeto do Trem de Alta Velocidade entre Rio e São Paulo no PAC do governo Lula
O diretor-executivo da TAV Brasil, Bernardo Figueiredo, afirmou ao Poder360 que o projeto do Trem de Alta Velocidade entre Rio de Janeiro e São Paulo segue sem apoio efetivo do governo federal, apesar de manifestações favoráveis do Ministério dos Transportes. Segundo ele, a principal evidência disso é a não inclusão do empreendimento na carteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
De acordo com Figueiredo, a ausência do projeto no PAC dificulta a atração de investimentos privados, já que esse tipo de selo é interpretado pelo mercado como sinal de prioridade política e institucional. Ele afirma que, mesmo com pedidos formais do Ministério dos Transportes, o Planalto não incorporou o trem-bala entre os projetos estratégicos do programa.
“O apoio do Ministério existe, mas o governo como um todo não trata o projeto como prioridade”, afirmou Figueiredo na entrevista. Segundo ele, a inclusão no PAC facilitaria não apenas o financiamento, mas também etapas sensíveis como o licenciamento ambiental.
O traçado de 378 km
O executivo também atribuiu parte da resistência do governo federal ao histórico do projeto, discutido desde o fim dos anos 1980 e associado a tentativas frustradas em gestões anteriores. Para Figueiredo, o trem-bala acabou rotulado como uma iniciativa pouco realista, o que ainda gera cautela política, mesmo com mudanças no modelo jurídico e regulatório.
Ele também mencionou que o atual formato do projeto se apoia na Lei das Ferrovias, sancionada em 2021, que permite a implantação de ferrovias por meio de autorizações privadas, sem necessidade de concessão tradicional. Nesse modelo, o papel do governo seria o de facilitador institucional, e não de investidor direto.
Segundo as estimativas apresentadas, o trem de alta velocidade poderia iniciar operação por volta de 2033. O preço da passagem para o trajeto completo entre Rio e São Paulo foi projetado em torno de R$ 500, com variações conforme a antecedência da compra, em lógica semelhante à do transporte aéreo. Para trechos intermediários, especialmente no interior paulista e no Vale do Paraíba, os valores estimados ficariam entre R$ 300 e R$ 350.
Estação Barão de Mauá (Leopoldina): terminal do TAV no Rio (Tomas Silva/Agência Brasil)
Figueiredo avalia que o sistema teria impacto direto na atual ponte aérea entre as duas capitais, com potencial migração de passageiros do avião para o trem. Ele também apontou efeitos indiretos, como a liberação de slots em aeroportos congestionados e maior integração entre os sistemas ferroviário e aéreo.
No desenho atual, a estação paulista do trem-bala está prevista para a região da Água Branca, escolhida pela possibilidade de integração com linhas de metrô e trens metropolitanos. No Rio de Janeiro, o ponto de chegada seria a Central do Brasil, que já concentra conexões com trens urbanos, metrô e VLT.
Apesar das dificuldades, Figueiredo afirmou que vê hoje um ambiente mais favorável à concretização do projeto do que em décadas anteriores, ainda que falte, segundo ele, uma decisão clara do governo federal de assumir o trem-bala como prioridade nacional.
