Bicicletas viajam de graça em trens assim como recentemente animais de pequeno porte ganharam acesso livre ao transporte público finalmente – claro que em horários de menor demanda. Duas iniciativas sensatas do governo do estado, mas que ainda não enxergou a importância de outro tipo de passageiro, as crianças.

Hoje menores de idade com mais de seis anos pagam a tarifa cheia, de R$ 4,30. Ou seja, são tratados como adultos que em geral trabalham para arcar com os custos do bilhete. É um contrassenso se pensarmos que a responsabilidade de qualquer governo é estimular o uso do transporte público. Mas o que vemos no Brasil em geral é que crianças só podem ter direito a andar de ônibus ou trem se estão indo ou voltando da escola. E que o benefício da gratuidade só vale para escolas públicas, restando aos alunos da rede privada um desconto de 50%.

Em São Paulo, por exemplo, trata-se de um sistema complexo, cheio de regras para evitar evasão de receita, mas que na prática prejudica os menores de idade que deveriam ter liberdade de trânsito desde que acompanhados de pais ou responsáveis. Na visão dos governos, crianças só têm como atividade ir à escola, mas não frequentar parques, museus, clubes ou qualquer outro local. É um erro que não encontra eco em países europeus, por exemplo.

Paris cobrava meia passagem para crianças de quatro a dez anos e famílias com três filhos ou mais podem adquirir um bilhete especial que reduz a tarifa pela metade. Mas a prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo, anunciou em janeiro a proposta de dar gratuidade para todas as crianças até 11 anos. O intuito não é apenas social, mas também focado em reduzir o uso do automóvel na cidade.

Medida semelhante já é adotada por Londres, dona da mais antiga rede de metrô do mundo, que não cobra um centavo de crianças até 11 anos, bastando para isso que estejam acompanhadas de um adulto pagante – e ele pode levar até seis crianças numa viagem. Imagine-se a economia para uma família com até vários filhos, por exemplo. Se a mesma regra existisse em São Paulo, um casal com dois filhos pagaria R$ 2,15 por pessoa para utilizar os trens ou ônibus.

Anne Hidalgo, prefeita de Paris, quer tornar uso do transporte público gratuito para crianças (Wikimedia)

Estímulo ao uso do automóvel

Na capital paulista, assim como em outras cidades, a tarifa para crianças acaba tendo o efeito nocivo relatado pela prefeita de Paris, o de estimular o uso do automóvel. Pais que precisam levar seus filhos a escolas distantes de suas residências não pensam duas vezes em fugir dos trens ou ônibus. Um deslocamento de apenas 5 km com duas crianças a bordo pode sair por R$ 34,40 diariamente na hipótese desse pai ou mãe resolver levá-las por transporte público, deixá-las e seguir viagem até o trabalho. Com esse valor é possível rodar ao menos 60 km com um veículo de médio porte, suficiente para pelo menos dois dias. Ou seja, bem mais econômico que optar pelo metrô, por exemplo.

Certamente, uma medida como essa geraria custo para os cofres públicos por um lado, porém, beneficiaria a cidade com a redução de congestionamentos, poluição e stress por outro. E, de quebra, a conscientização por partes desses pequenos cidadãos da importância de se deslocar pelo transporte público quando se tornarem adultos.

O governo e a prefeitura poderiam ir além e cobrar tarifas menores de todos os usuários aos fins de semana, facilitando o deslocamento pela capital e cidades da Grande São Paulo a fim de estimular o lazer dos habitantes e mesmo turistas que fazem a economia girar. Para isso é preciso deixar de pensar pequeno e em apenas parte da população afinal de contas crianças não precisam provar que são crianças para se habilitarem a viajar sem pagar tarifa. Para isso, basta um pouco de bom senso de nossos gestores públicos.

Cão dentro de estação do Metrô: animal viaja de graça, já crianças com mais de 6 anos pagam tarifa integral (GESP)