Indústria ferroviária reage a avanço chinês e alerta para novas concorrências no Brasil
Manifesto de Simefre e Abifer cita perdas recentes e aponta risco de novos contratos, incluindo projetos em São Paulo
A indústria ferroviária brasileira voltou a pressionar o poder público após sucessivas derrotas em licitações recentes, muitas delas vencidas por fornecedores chineses. Em manifesto divulgado nesta segund-feira, 16, o Simefre (Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários) e a Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) afirmam que a participação estrangeira no setor ocorre em condições desiguais e pode se ampliar nos próximos projetos de trens e sistemas metroferroviários.
Segundo apurou o site, há preocupação no setor com novas concorrências em preparação, sobretudo em São Paulo, que podem repetir o cenário recente de domínio de fabricantes chineses.
No documento, as entidades listam uma série de contratos perdidos pela indústria nacional nos últimos anos, incluindo trens para Belo Horizonte, composições para o Metrô de São Paulo, veículos para a Vale e projetos ligados ao Trem Intercidades (TIC). Também citam fornecimentos mais recentes, como seis trens para a Linha 4-Amarela.
Trem chinês foi estacionado na estação mas não está operacional (Agência MG)
Para o setor, essas decisões têm impacto direto na cadeia produtiva local, com redução de empregos e perda de capacidade industrial. O manifesto afirma que o país vem transferindo produção, tecnologia e renda para o exterior ao priorizar fornecedores estrangeiros em grandes contratos públicos.
Entre os fatores apontados para explicar esse movimento estão diferenças tributárias que favoreceriam empresas de fora, o uso do pregão eletrônico reverso em licitações complexas e a concessão de benefícios fiscais a produtos importados. As entidades também citam práticas de preços abaixo do custo, viabilizadas por subsídios governamentais em outros países.
Um dos pontos criticados é a adoção, considerada inédita, do pregão reverso na compra de 44 trens do Metrô de São Paulo, modelo que, segundo o setor, não seria adequado para contratos de alta complexidade técnica.
O manifesto também aponta a ausência de uma política industrial estruturada para o setor ferroviário, o que, na avaliação das entidades, compromete investimentos de longo prazo, inovação e formação de mão de obra especializada.
TIC Trens escolheu unidade capaz de atingir 160 km/h (GESP)
Além da disputa comercial, o documento levanta preocupações operacionais. A dependência crescente de fornecedores estrangeiros pode trazer dificuldades futuras relacionadas à manutenção, fornecimento de peças e suporte técnico, especialmente em contratos de longo prazo.
As entidades defendem a adoção de medidas de proteção, como instrumentos antidumping e exigência de produção local por empresas estrangeiras que queiram disputar contratos no Brasil. A ideia é aproximar o modelo brasileiro de práticas adotadas em outros países, que condicionam a participação de fabricantes à instalação de unidades produtivas locais.
O posicionamento ocorre em um momento de retomada de projetos ferroviários e metroviários no país, com novos editais previstos para os próximos anos. Para o setor, a forma como essas concorrências serão conduzidas tende a definir o futuro da indústria ferroviária nacional.
