Linha 17-Ouro: uma avaliação tardia, mas aguardada há 14 anos
Fui conhecer o ramal de monotrilho dias atrás em passagem pelo Brasil e me surpreendi positivamente
Possivelmente nada do que escrever a seguir será novidade para vocês leitores contumazes do MetrôCPTM. Muitos, inclusive, andaram na Linha 17-Ouro desde o final de março e já têm sua própria visão do monotrilho.
Este jornalista que lhes escreve, no entanto, por morar fora do Brasil há mais de sete anos, só teve a oportunidade de experimentar o serviço ainda provisório na quarta-feira, 8, horas após desembarcar no Aeroporto de Guarulhos.
Confesso que tinha uma expectativa elevada sobre o novo ramal metroviário que começou a ser construído quando não existe este sim. Lembro-me bem da fundação do primeiro pilar bem ao lado do viaduto da Avenida Vereador José Diniz em abril de 2012.
Na época vendia-se o monotrilho como solução mágica para mobilidade, capaz de ser erguida em poucos meses. Ledo engano, mas que até hoje repercute em alguns veículos de imprensa como se fosse humanamente possível implantar algo complexo como uma linha de trem em tão pouco tempo.
Trem do monotrilho agitado (Metrô CPTM)
Sim, o monotrilho é mais veloz de implantar que uma linha subterrânea de metrô pesado, mas não há milagres. Nem corredor de ônibus gourmet consegue esse feito, mesmo com um projeto caquético de canaletas, caixotes “estação” e algumas dezenas de ônibus.
Enfim, voltando ao que interessa, a tão criticada Linha 17. Pois bem, cheguei à estação Campo Belo com duas experiências de monotrilho na bagagem, a Linha 15-Prata, uma decepção enorme, e duas linhas do Metrô de Chongqing, no interior da China, essa sim uma impressão excelente.
Afinal, a Linha 17 se situaria onde? A resposta é bem, mas bem mais próxima do sistema chinês. A começar pelo desempenho sobre as vigas-guia, mais suave e em linha com o projeto.
E vai uma confissão: eu não esperava ver os trens circulando em automático. Achava – por distração talvez – que eles estavam sendo conduzidos manualmente. Mas as composições da BYD estão lá se deslocando com “vida própria”, embora observadas de perto por funcionários do Metrô e da fabricante.
Sair da Linha 5 para chegar até a plataforma da Linha 17 em Campo Belo é um caminho um pouco mais longo que esperava. E um certo choque de acabamento entre o ramal de metrô convencional e o monotrilho, a favor da nova linha.
Achava também que o público seria diminuto em um horário de meio da manhã em dia útil. Mas para minha surpresa vi muita gente, entre curiosos, passageiros que pareciam ir ao trabalho, e gente com malas buscando o Aeroporto de Congonhas.
Prédio de ligação entre as estações Campo Belo das linhas 5 e 17 (Metrô CPTM)
Foi uma cena surpreendente para mim porque desconfiava se a alternativa de transporte para passageiros da aviação seria pouco lembrada com a profusão de ubers, táxis e carros de aluguel como primeira opção.
A primeira viagem foi entre Campo Belo e Morumbi e que começou com uma saia justa: as portas de plataforma travaram logo após iniciar a abertura. Funcionários na plataforma correram para forçar a abertura e daí em diante tudo deu certo. Mas um integrante da equipe comentou com o outro: “tinha que dar vexame justo em Campo Belo!”.
A partida foi rápida, com aceleração vigorosa para uma fase de testes, na minha opinião. O caminho até Chucri Zaidan ocorreu como se fosse uma operação normal. Já a curva sobre a Marginal Pinheiros assustou pela lentidão e pela inclinação pronunciada – curioso para ver como será durante o serviço pleno.
Movimento da Linha 17-Ouro (Metrô CPTM)
O percurso ao lado do Rio Pinheiros é icônico e certamente se tornará um passeio turístico tradicional, ainda mais quando o trem circular à noite. Imagine ainda atravessando o rio em direção ao Panamby. Curiosamente, um segundo trem nos “ultrapassou” e chegou primeiro na estação Morumbi.
Voltamos de Morumbi com destino ao Aeroporto de Congonhas, mas em vez de seguir nele até lá tivemos que descer em Brooklin Paulista para trocar de composição. E aí vi um cenário um tanto confuso com funcionários anunciando o destino de cada trem, gente trocando de lado na plataforma e alguns perdidos sem saber bem se a composição ia para o lado certo.
Em Congonhas, fiz questão de atravessar o túnel, bem mais profundo do que pensei, e sair no subsolo do tradicional terminal do aeroporto. Mas também observei as primeiras estruturas do novo terminal sendo erguidas onde uma vez existiram os hangares da Real Aerovias (depois Varig e ultimamente, GOL).
Como será que os passageiros farão para chegar à Linha 17 quando a nova estrutura abrir? Andar pela rua e atravessar a avenida ou caminhar até o túnel, num trajeto mais longo?
Túnel de ligação da Linha 17-Ouro com o Aeroporto de Congonhas (Re)
A volta para Campo Belo transcorreu sem surpresas com exceção da mudança de destino do trem. Ele iria parar em Brooklin e lá deveríamos trocar de composição, mas logo o anúncio indicou que ele iria até Morumbi, sem necessidade de desembarque.
Novamente o trem seguiu com o mix de usuários “profissionais” e turistas. Acabei não indo conhecer Washington Luís desta vez. Quem sabe quando o trecho ganhar mais estações em alguns anos. Em Campo Belo tivemos que subir um lance de escada por conta da operação transitória – como não há pagamento de tarifa é preciso ir até os bloqueios validar o bilhete para seguir viagem.
A experiência só concluída 14 anos depois daquele primeiro buraco no chão foi bem satisfatória. Provou para mim que sim, o monotrilho é um modal válido, uma alternativa de média capacidade mas que preserva o que o trem tem de melhor: rapidez, segurança, previsibilidade e, neste caso, uma dose até de distração com a paisagem. Volto feliz.
