Médico da USP propõe que indústria farmacêutica ajude a financiar expansão do metrô
Paulo Saldiva defende que benefícios do transporte sobre trilhos para a saúde sejam considerados na conta dos investimentos em mobilidade
O médico patologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Saldiva defendeu uma proposta pouco convencional para ampliar os investimentos no transporte sobre trilhos: fazer com que a indústria farmacêutica também participe do financiamento da expansão das redes de metrô.
A ideia foi apresentada nesta quinta-feira (3), durante a 32ª Semana de Tecnologia Metroferroviária, promovida pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô (AEAMESP), em São Paulo.
“Por que as indústrias farmacêuticas não financiam as obras de expansão sobre trilhos, em vez de gastarem com propagandas de medicamentos? Investir em metrô é prevenir problemas de saúde pública na origem”, afirmou Saldiva.
A sugestão tem caráter provocativo. O pesquisador não apresentou durante o evento um mecanismo para financiar obras metroviárias com recursos da indústria farmacêutica. O argumento, porém, procura colocar na conta dos investimentos em transporte benefícios que normalmente aparecem em outras áreas do orçamento público.
Paulo Saldiva (USP)
Professor titular da Faculdade de Medicina da USP, Saldiva pesquisa há mais de 35 anos os efeitos da poluição atmosférica sobre a saúde humana e já integrou o Comitê de Qualidade do Ar da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Sua relação entre transporte público e saúde tampouco é nova. Em 2012, ele participou de um estudo que utilizou paralisações do Metrô de São Paulo para medir o que acontece com a qualidade do ar quando parte do transporte de massa deixa de funcionar.
Greves ajudaram a medir efeito do metrô
Publicado no Journal of Environmental Management, o estudo “Evaluation of the air quality benefits of the subway system in São Paulo, Brazil” analisou paralisações dos metroviários ocorridas em 2003 e 2006.
Os pesquisadores compararam a concentração de poluentes durante as greves com períodos de operação normal e com dias de condições meteorológicas semelhantes. A interrupção do metrô levou mais veículos às ruas, aumentou os congestionamentos e produziu uma deterioração mensurável da qualidade do ar.
Em uma das comparações, a concentração de material particulado PM10 aumentou 75%. O estudo também encontrou associação entre a piora da poluição e mortalidade por doenças cardiorrespiratórias entre idosos.
Estação Tucuruvi durante greve (Jean Carlos)
A pesquisa procurou ainda atribuir valor econômico às consequências da interrupção do sistema. A conclusão dos autores foi que os elevados custos de implantação e operação do metrô precisam ser confrontados não apenas com sua capacidade de transportar passageiros, mas também com os benefícios ambientais, sociais e de saúde pública.
Na divulgação do trabalho, Saldiva resumiu o raciocínio: “Investimentos em transporte resultam em menos gastos no setor de saúde”.
A mesma discussão reapareceu na palestra desta semana. Para o médico, congestionamentos, poluição e acidentes de trânsito geram doenças, traumas e necessidade de reabilitação que acabam absorvendo recursos do sistema público de saúde.
“Os governantes precisam entender o que a loucura dos congestionamentos e o volume de acidentes nas grandes metrópoles expõe as pessoas a doenças respiratórias e a traumas e reabilitações de alto custo, consumindo recursos públicos vultuosos. Estamos enxugando gelo”, afirmou.
Mobilidade também é saúde
Saldiva vem defendendo há anos que decisões de mobilidade considerem esses custos indiretos. Em entrevista publicada em 2012, o pesquisador criticou o fato de saúde raramente participar das decisões sobre transporte, combustíveis e desenvolvimento urbano.
O raciocínio vai além das emissões dos automóveis. Em entrevista à Pesquisa Fapesp em 2016, Saldiva relacionou o uso do transporte coletivo também à atividade física. Segundo ele, passageiros de ônibus, trens e metrô acabam caminhando nos deslocamentos até estações e pontos, enquanto a dependência do automóvel favorece a inatividade.
Mais recentemente, o pesquisador voltou a defender sistemas de transporte coletivo de massa e de baixa emissão como parte da solução para reduzir a exposição da população à poluição atmosférica.
A discussão também relativiza a ideia de que a eletrificação dos automóveis resolverá sozinha o impacto ambiental e sanitário da mobilidade. Em maio deste ano, durante outro evento em São Paulo, Saldiva criticou essa abordagem e defendeu novamente a prioridade ao transporte coletivo.
Passageiros da Linha 6-Laranja acessam a estação Santa Marina (Willian Moreira)
Trilhos além da tarifa
O argumento apresentado na Semana de Tecnologia Metroferroviária toca em uma dificuldade recorrente na avaliação econômica de novas linhas. Projetos de metrô exigem investimentos bilionários e dificilmente têm seus custos de implantação recuperados apenas com a tarifa paga pelos passageiros.
Parte dos benefícios produzidos por uma linha, entretanto, ocorre fora do próprio sistema: redução de viagens por automóvel, menor congestionamento, diminuição de emissões locais e gases de efeito estufa, redução de acidentes e maior acesso da população a empregos e serviços.
O estudo do qual Saldiva participou há 14 anos procurou quantificar justamente uma dessas externalidades usando São Paulo como caso real: quando o metrô deixou de transportar passageiros, a piora da circulação rodoviária teve reflexos mensuráveis na qualidade do ar.
A proposta de envolver empresas farmacêuticas não passou, por enquanto, de uma provocação feita durante um congresso. O princípio defendido por Saldiva, entretanto, é mais amplo: uma linha de metrô não deveria ser avaliada apenas pelo que custa para ser construída e operada, mas também pelos custos que pode evitar em outras áreas da cidade.
