Trem da Frota P: três anos parado no pátio

Trem da Frota P: três anos parado no pátio

Esse blog não tem receio de criticar o Metrô ou o governo do estado quando considera que estão errados, mas espanta ver uma denúncia um tanto curiosa do Ministério Público ter recebido tamanha repercussão na imprensa. Nesta segunda-feira, o promotor Marcelo Milani do Ministério Público de São Paulo entrou com uma denúncia na Justiça em que pede a condenação de vários executivos do governo e do Metrô por supostamente terem adquirido 26 trens com a bitola errada para uso na Linha 5-Lilás, diz reportagem da TV Globo.

Segundo Milani, os trens da Frota P, fabricados pela CAF, têm bitola de 1.372 mm enquanto a linha 5 utiliza trilhos com 1.435 mm de largura (a bitola é a distância transversal entre os dois trilhos. Ou seja, um pouco mais de 6 cm de diferença. Ocorre que não é possível que trens com bitolas diferentes circulem por uma medida única de trilho. Se os trens da frota P são de fato menores que os demais como se encaixariam na medida maior? E como estão rodando em testes por tanto tempo dessa forma? Talvez levitando…

Falta de apuração

Na reportagem do Jornal Hoje, o presidente do Metrô Paulo Menezes Figueiredo desmentiu a afirmação do promotor de que existam duas bitolas na linha e confirmou que os trens percorrerão toda a extensão da linha – segundo Milani, o Metrô iria colocar os trens novos na extensão e os trens antigos na parte inaugurada em 2002, criando assim o inimaginável: que os passageiros teriam de trocar de trem no meio da linha.

É lamentável que veículos de imprensa não apurem esse tipo de informação com ambas as partes. A acusação do promotor é das mais absurdas e não deveria ter sido veiculada até por uma questão de credibilidade.

Os trens da Frota P do Metrô têm sido alvos de várias matérias devido ao fato de estarem parados desde 2013 quando começaram a ser entregues. Milani, aliás, criou outro factóide ao dizer que os sistemas eletrônicos dos trens estariam obsoletos, como se um trem fosse equiparado a um smartphone ou computador. Se assim fosse, trens como os da Frota A ou as Séries 1100 da CPTM teriam virado sucata, afinal “seus sistemas” têm décadas.

As bitolas que o Metrô usa são de 1.600 e 1.435 mm e a bitola inventada pelo promotor, de 1.372: somente levitando eles conseguiriam rodar nesses trilhos, se o promotor estivesse correto

As bitolas que o Metrô usa são de 1.600 e 1.435 mm e a bitola inventada pelo promotor, de 1.372 mm: somente levitando eles conseguiriam rodar nesses trilhos, caso o promotor estivesse correto

O fato de os trens terem chegado a partir de 2013 tem a ver com o cronograma original de expansão, que previa que a linha fosse inaugurada a partir de 2014. Por problemas diversos, hoje a previsão é de 2017 e os primeiros trens operacionais da Frota P devem começar a ser usados em setembro, como revelou o presidente do Metrô. Em outras palavras, não é sensato esperar que a data de entrega da linha esteja claro para então encomendar os trens. Infelizmente, ocorreria uma situação inusitada, em que a linha estaria pronta, mas sem composições para funcionar.

Se o Ministério Público quer efetivamente esclarecer algo de útil deveria questionar o Metrô da razão de a implantação do CBTC, o sistema de controle de trens, ter atrasado tanto. A Linha 5 opera com sete composições da oito disponíveis nos picos e tem um intervalo alto, além de uma ocupação elevada graças ao aumento no número de passageiros após a ligação da Linha 9 da CPTM com a Linha 4-Amarela.

Os novos trens poderiam ter aliviado essa situação há mais tempo, mas por razões ainda não esclarecidas, a mudança para o padrão CBTC, feita pela empresa Bombardier, somente agora está na fase final de testes e com trens de bitola de 1.435 mm.

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