A proposta de substituir o monotrilho da Linha 18-Bronze por um BRT, corredor de ônibus segregado, soa como piada, mas é levada a sério por muita gente cujos interesses não são muito claros ou focados no usuário, para dizer o mínimo. Apesar disso, a hipótese está sendo estudada pelo governo do estado que a apresentou nos últimos dias a investidores, segundo informações obtidas pelo site Diário do Transporte, que teve acesso ao documento.

O mais espantoso de tudo é constatar o quão absurda é a ideia ao saber a estimativa de capacidade de transporte de um BRT que percorresse um trajeto semelhante ao do monotrilho. O corredor poderia transportar apenas 115 mil passageiros por dia, um terço da capacidade do sistema sob trilhos (342 mil passageiros/dia). Ou seja, seriam necessários algo como três corredores sobrepostos ou paralelos para equiparar sua capacidade nominal.

Obviamente, o BRT seria muito mais barato (R$ 1,38 bilhão contra R$ 5,3 bilhões), mas qual o intuito de se viabilizar um modal que não tem condições de dar conta da demanda? Seria como substituir um Boeing 787 (jato de grande capacidade e alcance intercontinental) por um turbo-hélice para voos regionais, para fazer uma analogia com outro meio de transporte. O pequeno avião chegaria ao destino, mas demorando mais, fazendo várias escalas e voando numa altitude mais desconfortável – e sem levar tantos passageiros, é claro.

Há quem ache que um corredor de ônibus faz o mesmo que um monotrilho, algo como oferecer uma aeronave turbo-hélice em vez de um jato intercontinental. Ambos voam, mas você iria para os EUA ou Europa no avião da esquerda?

O que parece ser ignorado por técnicos, críticos e políticos é o fato de que não estamos falando apenas da escolha de um ou outro modal e sim de uma “experiência”. Em outras palavras, os passageiros preferem o Metrô e mesmo a CPTM porque a experiência é muito superior aos ônibus mesmo os que circulam em BRTs – basta lembrar que a única linha realmente segregada do gênero, o Expresso Tiradentes, atrai poucos passageiros pela sua capacidade. Ou seja, não se trata apenas de construir vias completamente separadas do trânsito ou de oferecer mais paradas pelo caminho. A questão central envolve a rede como um todo, a regularidade do serviço e o tempo de viagem.

São fatores como esses que tornam a demanda nos trens muito alta a despeito de termos apenas 370 km de trilhos. Utilizar trens é mais seguro, pontual, confortável e até porque não dizer, mais civilizado comparado aos ônibus. Não é só: trens poluem menos pelo número de passageiros que transportam e talvez o aspecto definitivo a seu favor, o fato de valorizar o entorno, ao contrário de corredores de ônibus.

Sem justificativa

Espera-se que a apresentação comparando os dois modais sirva apenas para mostrar que não há alternativa para a Linha 18 que não seja os trilhos. O ramal, é verdade, talvez nem seja a solução prioritária para o ABC Paulista mas é melhor do que qualquer outro projeto. Se houvesse recursos e visão certamente a segunda fase da Linha 20-Rosa, um metrô subterrâneo de grande capacidade, traria um ganho de mobilidade infinitamente maior ao levar os habitantes da região para a Zona Sul de São Paulo, dividindo a demanda com a Linha 10-Turquesa, responsável pelo fluxo sentido centro da capital. Mas se até mesmo a modernização do ramal da CPTM anda a passos de tartaruga que dirá licitar uma obra tão grande.

A opção pelo corredor do ônibus só existe por falta de visão de longo prazo, afinal muitos políticos preferem entregar uma obra ruim a começar algo adequado que ficará para outro governante. Ou por lobbys mais interessados em vender seus produtos do que pensar na mobilidade da região. O BRT é claro uma solução interessante, mas para locais de demanda menor e que disponham de vias largas capazes de acomodar as pistas, paradas e locais de ultrapassagem. Algo como vimos na avenida das Américas, no Rio de Janeiro, e não no meio da já saturada malha viária de São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul.

Colocar a culpa nas desapropriações, sempre elas, é encontrar um pretexto sem justificativa para não levar adiante o monotrilho. Se o preço do metro quadrado no ABC é tão alto assim como o Metrô conseguiu desapropriar terrenos em Moema ou em Pinheiros? Se não há dinheiro então será menos ruim esperar um momento adequado do que realizar o projeto errado.

BRT Transcarioca: em vias largas e com a demanda menor, corredor de ônibus pode funcionar, mas não como substituto do trem (Mariana Gil/WRI Brasil)

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