Trem Intercidades para Campinas pode estrear a partir de 2027

Em exposição aos vereadores da região metropolitana de Campinas, governo do estado detalhou projeto, que também inclui o Trem Intermetropolitano e melhorias na Linha 7-Rubi
O serviço intermetropolitano entre F. Morato e Campinas terá intervalo de 20 minutos (Jean Carlos/SP Sobre Trilhos)

O Trem Intercidades é de longe o mais ambicioso e complexo projeto proposto pela pasta dos Transportes Metropolitanos. A ideia de criar uma ligação ferroviária, ou melhor, de recriar tal trajeto permeia a mente dos administradores há mais de três décadas. Mesmo diante de uma grave crise que impacta a capacidade de investimentos, existe um ar de otimismo que poderá fazer com que este sonho saia do mundo abstrato das ideias e ganhe forma. Em uma exposição realizada para os vereadores na região de Campinas, o GESP mostrou mais detalhes sobre a ligação São Paulo-Campinas e os duros desafios que precisarão ser vencidos para colocar nos trilhos o que poderá ser o trem mais moderno e eficiente do Brasil.

Desafios

O grande desafio para a implantação de uma nova modalidade de serviço ferroviário regional que seja competitiva com o atual serviço de ônibus rodoviário é a compatibilização da operação do trem de cargas com a operação com passageiros de alto desempenho. Não que o trem metropolitano não merecesse tamanha importância, até porque tem potencial de transportar muito mais passageiros que o TIC, mas o governo esforça-se para criar um serviço que seja realmente atrativo para as pessoas.

Para isso existe o trabalho conjunto com a MRS Logística que tem em mente, dentro da renovação de sua concessão, a segregação quase que completa da operação dos trens de carga que hoje precisam utilizar a malha de trens metropolitanos da CPTM. Essas intervenções ocorrem em faixas horárias de menor movimento, o que limita tanto a operação da MRS como a operação da própria CPTM. Apenas um trecho de 8km entre Barra Funda e Brás precisará ser compartilhado.

O GESP pretende encaminhar os dois projetos para apreciação do governo federal, uma vez que parte da chamada faixa de domínio (território de exclusividade da ferrovia) pertence em parte ao governo federal. No trecho entre Barra Funda e Jundiaí parte do trecho é de responsabilidade da MRS Logística, enquanto no trecho entre Jundiaí e Campinas o trecho já pertence à Rumo Logística.

Pode existir um questionamento frequente sobre a questão patrimonial: a malha ferroviária no estado de São Paulo não pertence ao GESP uma vez que a estatal paulista, a Fepasa, operou a malha ferroviária até o final dos anos 90? A resposta está justamente no processo de extinção da empresa, que em parte continuou com o estado de São Paulo dando origem à CPTM, e outra parte foi repassada para o governo federal que chegou a operá-la como RFFSA Malha Paulista por quase um ano. Após isso ela foi repassada para a iniciativa privada em decorrência do plano de desestatização da rede.

Principais pontos

O projeto do TIC agora é denominado pelo governo como Eixo Norte, o que faz bastante sentido tendo em vista que os projetos atuais visam criar uma rede nas quatro direções da RMSP, sendo Campinas (Norte), Santos (Sul), São José dos Campos (Leste) e Sorocaba (Oeste). Apesar de inicialmente o Eixo Norte ter como destino a Região Metropolitana de Campinas existe pretensão para que o trem, dado o sucesso da implantação da primeira etapa, possa ir além, atingindo o município de Americana.

A implantação do projeto se dará juntamente com a requalificação da Linha 7-Rubi que liga a região central de São Paulo até Francisco Morato e Jundiaí. Vale lembrar que, apesar da frota de trens renovada, o trecho é um dos mais precários da CPTM com estações que carecem de acessibilidade, estrutura de energia e sinalização que são bastante antigas, além de partes da via que precisam de cuidados. Tais melhorias são imprescindíveis para que o tempo de viagem possa ser melhorado.

Detalhamento dos serviços

Para melhor entender o que a PPP se propõe a executar, é necessário entender as melhorias no serviço existente, bem como os serviços que serão implantados e suas características principais. A concessão da Linha 7-Rubi terá três serviços distintos, sendo eles:

  • Serviço Parador – Linha 7-Rubi
  • Serviço Parador – TIM
  • Serviço Expresso – TIC Eixo Norte

A Linha 7-Rubi passará por grandes transformações para que a sua qualidade seja aprimorada de forma que os passageiros possam contar com um transporte confiável e rápido. As reformas previstas no trecho poderão fazer com que o intervalo possa diminuir para até 3 minutos no horário de pico aumentando consideravelmente a oferta de lugares. A velocidade média dos trens deverá ser de 40 km/h e o tempo de viagem entre Barra Funda e Francisco Morato será de aproximadamente 50 minutos.

Serviço da Linha 7-Rubi (STM)

O serviço TIM, de caráter metropolitano, atenderá o Aglomerado de Jundiaí e a Região Metropolitana de Campinas. As estações que fazem parte do trecho da Linha 7-Rubi serão desagregadas do serviço atual para uma melhor estratégia operacional. Estão previstas 9 estações ao todo: Francisco Morato, Botujuru, Campo Limpo Paulista, Várzea Paulista, Jundiaí, Louveira, Vinhedo, Valinhos e Campinas.

Os trens do TIM deverão ter o mesmo padrão daqueles existentes na CPTM, atualmente com capacidade para transportar até 2000 passageiros por composição. A velocidade média dos trens, até mesmo pelo menor número de paradas e maior distância percorrida, será maior atingindo 56 km/h. O tempo de viagem será de 1 hora e 8 minutos.

Serviço Intermetropolitano (STM)

O TIC por sua vez terá uma eficiência maior, podendo ser considerado no futuro próximo o serviço ferroviário de passageiros de maior qualidade no Brasil. O governo promete que uma viagem no trem intercidades entre Barra Funda e Campinas, realizando uma parada na estação de Jundiaí, terá a duração de 1h05min a uma velocidade média de 100 km/h. Os trens deverão comportar até 500 passageiros por composição.

Trem Intercidades (STM)

Sobre o custo dos novos serviços é importante ressaltar pontos essenciais. O TIM terá uma tarifa social, ou seja, será cobrado o mesmo valor que é praticado hoje na CPTM, R$ 4,40. No serviço expresso do TIC a operadora do serviço poderá flexibilizar a tarifa de forma que não ultrapasse o teto imposto pelo governo no contrato de concessão.

Ainda não há certeza de qual o valor limite da passagem, mas o governo utilizará o artifício para dar chances para que a concessionária possa realizar a oferta de lugares a preços promocionais em horários de menor movimento, uma forma de oferecer o TIC e de tornar o serviço atrativo e competitivo com a opção rodoviária existente.

Outro ponto importante é a demanda e o intervalo que será praticado nos horários de pico. O serviço da Linha 7-Rubi deverá ser dinamizado para atingir o intervalo de até 3 minutos, uma meta em todas as linhas da CPTM. O TIM deverá ter um intervalo de até 20 minutos no pico, o que representa as duas faces de uma moeda: de um lado há a oferta de trens em periodicidade razoavelmente boa para uma região que atualmente não é servida por serviços ferroviários como é a RMC, de outro lado existe a região entre Francisco Morato e Jundiaí que terá o intervalo dos trens aumentado de forma considerável.

Até certo ponto isso poderia simbolizar o retorno da “extensão operacional” da Linha 7. O TIC por sua vez será mais dinâmico com até 4 partidas por hora, de forma que o passageiro tenha total flexibilidade para embarcar no trem de forma rápida e eficaz.

A demanda para os serviços giram em 450 mil passageiros/dia para a Linha 7-Rubi após as mudanças, 100 mil passageiros/dia no serviço do Trem Intermetropolitano entre Morato e Campinas, e pelo menos 50 mil passageiros/dia no TIC São Paulo-Campinas. No total a concessão dos serviços envolverá o transporte de pelo menos 600 mil passageiros diariamente com as demandas consolidadas;

Implantação de vias dedicadas para carga e passageiros (STM)

Necessidades atuais

Durante as explanações por parte do governo, algumas informações importantes foram reveladas. O projeto do Trem Intercidades é considerado demasiadamente complexo e necessita de diversas intervenções. Uma das mais drásticas poderá ser a do alargamento da faixa de domínio para que seja feita a inserção de pelo menos mais duas vias entre Barra Funda e Jundiaí, uma dedicada ao serviço de carga e outra a serviço expresso. Investimentos em viadutos, pontes e desapropriações são necessários para dar espaço aos novos trens.

No trecho entre Jundiaí e Campinas será necessário a reconstrução e a correção da geometria de via para que os trens possam circular em maior velocidade dentro dos parâmetros de segurança. Novos muros deverão ser erguidos e a criação de passarelas deverá suprir a necessidade de cruzamentos entre as duas áreas da ferrovia. Quanto menor as intervenções na via melhor poderá ser o desempenho operacional dos serviços prestados.

As estações desativadas ao longo do trecho poderão passar por restauro e inclusive serem reativadas para a operação de passageiros, como é o caso da estação de Campinas. O local já foi uma das principais estações da antiga Cia. Paulista de Estradas de Ferro, considerada uma das ferrovias mais exemplares que já operaram no Brasil. A tradição oral sustenta que os passageiros ajustavam os relógios com as partidas dos trens. A recuperação do patrimônio poderá trazer de volta parte dessa história de volta bem como tornar a estação um ponto de encontro e de cultura.

Previsão de restauro da estação Campinas (STM)

As obras

As obras do TIC serão contratadas pela iniciativa privada. O projeto é complexo e necessitará de vultuosos investimentos que serão compartilhados entre o governo do estado e a futura concessionária. Uma questão imprescindível que foi questionada pelo vereador Paulo Gaspar de Campinas foi sobre a matriz energética que será utilizada nos novos trens.

O secretário Executivo dos Transportes Metropolitanos, Paulo Galli, esclareceu a dúvida do mandatário respondendo que os trens que serão adquiridos pela concessionária deverão ser sustentáveis podendo utilizar o biodiesel ou até mesmo matriz elétrica. Segundo os estudos da pasta existe uma vantagem em CAPEX (investimentos) e OPEX (operação) ao se optar pela eletrificação. Vale lembrar que o trecho entre São Paulo e Jundiaí possui rede elétrica sendo necessário apenas a expansão até Campinas.

O presidente da Comissão de Assuntos da RMC, vereador Luiz Henrique Cirilo, questionou o governo sobre o prazo para as obras. O secretário Galli esclareceu que, assim que o contrato de concessão for assinado, a concessionária poderá realizar a implantação do TIC dentro de um prazo de 4 anos. Cabe lembrar que o prazo é uma estimativa que está sujeita a todas as adversidades de uma obra de grande porte. O plano de investimento prevê que dentro dos 7 primeiros anos de concessão todos os investimentos já deverão ter sido realizados por parte do parceiro privado.

Outra questão importante foi a da “queda” no desempenho do projeto. O TIC originalmente previa que a maior parte da malha seria em via dupla e totalmente segregada do trecho de cargas. A velocidade dos trens poderia chegar a até 200 km/h. Segundo as explanações do Secretário Executivo o projeto teve que ser readequado dentro das limitações financeiras e do cenário atual que estamos enfrentando. O projeto buscou compatibilizar o menor investimento dentro da maior eficiência possível. Originalmente o custo do projeto do TIC era orçado em US$ 5 bilhões, o que seria equivalente a R$ 25,5 bilhões. O custo previsto atualmente é menos da metade daquele planejado em gestões passadas.

Prazos

A apresentação também deixou mais claro quais serão os prazos para as próximas etapas do processo de concessão da Linha 7 e o TIC. O governo do estado trabalha com um uma meta limite e com um “esforço”, o que mostra que há uma dedicação especial para que os prazos possam ser cumpridos antes do estabelecido.

Em resposta aos legisladores, o secretário executivo dos Transportes Metropolitanos, Paulo Galli, fez uma projeção de quando o serviço poderá ser iniciado. Segundo ele, é possível que isso ocorra quatro anos após o início da implantação, estimada para ocorrer a partir de 2023. Ou seja, 2027.

Veja outras datas:

  • Audiências e Consultas Públicas
    Esforço: Julho/2021
    Limite: Dezembro/2021
  • Publicação do Edital
    Esforço: Dezembro/2021
    Limite: Maio/2022
  • Envio de Propostas
    Esforço: Abril/2022
    Limite: Setembro/2022
  • Assinatura do contrato
    Esforço: Junho/22
    Limite: Novembro/22
  • Obras e Investimentos
    Início: 2023
  • Operação do TIC
    Prazo: pelo menos 4 anos (2027)
  • Término dos Investimentos
    Prazo: 7 anos (2030)
Prazos do projeto (STM)

Conclusão

O projeto do TIC é amplo e, apesar do artigo grande, isso é apenas a ponta do iceberg. Se tudo correr dentro dos planos do governo no segundo semestre, a consulta pública deverá ser feita e todos os cidadãos poderão ter a oportunidade de verificar o projeto e opinar sobre as partes mais importantes do mesmo.

Os esforços do GESP passada a concessão bem sucedida das Linhas 8 e 9 é o foco total no Trem Intercidades que representa o primeiro esforço significativo para o retorno dos trens de passageiros no Brasil. Apesar de atualmente existirem apenas duas rotas em funcionamento, será a primeira vez em muitos anos que o estado reúne esforços e a parceria com a iniciativa privada para tirar do papel um novo conceito em transporte sobre trilhos, o inter-regional. Quem sabe esse seja o pontapé inicial de uma grande malha de transporte estadual ferroviário.

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  1. Como eu queria acreditar nisso!
    Seria muito bom ter essa trem entre Morato e Campinas, já imaginando no futuro termos também São Paulo -> Santos ou São Vicente.
    Como vivemos no país das promessas políticas sem compromisso não consigo imaginar que isso vá sair do papel antes de 2100.

  2. Só uma dúvida:
    Como o trem regional vai operar á uma velocidade média de 100 KM/h sem paradas no trecho Barra Funda – Francisco Morato com os trens metropolitanos parando nas estações á frente?
    Pelo que eu sei a linha segregada a ser construída entre Jundiaí – Barra Funda será para cargas da MRS.

  3. A questão que deixa uma incógnita diz respeito ao atual serviço 710, pois ao que tudo vem indicando, ele tende a não continuar. Tomara que eu esteja enganado mas muito provavelmente parte desses estudos deveriam ser refeitos para analisar a viabilidade e manutenção.

  4. Artigo excelente! O prazo é longo, porém realista, os custos são enormes e a complexidade é grande, e nota-se que há interesse em que ele saia do papel. Que esse projeto se torne um modelo para todo o Brasil.

  5. para sair esse TIC, do jeito que foi mostrado, será necessário muito investimento.

    considerando a demanda de 50 mil usuários por dia, e o preço da passagem igual ao do ônibus 36 reais, teríamos um faturamento bruto de 648 milhões por ano. considerando 30 anos de concessão, seriam 19,44 bilhões de reais. faturamento bruto, sem considerar os gastos.

    a iniciativa privada visa lucro. a linha 7 é deficitária. a demanda de usuários estimada seria pouco maior que a existente no período pre-pandemia.

    portanto, a pergunta que fica é: quanto o governo do estado de SP, vai desembolsar em valores totais nesta PPP?

    até agora não vimos ninguem do governo falar a estimativa de quanto o estado vai desembolsar nessa historia toda.

  6. E o blá blá de sempre. O Dória desde o começo anda brincando de trenzintos no Palácio de governo. São esboços de projeto que são pagos por nós. Aí logo depois das eleições, o PSDB ganha de novo com ajuda da imprensa paulista, suspende tudo e as licitações vão sendo derrubadas na justiça para deleite dos escritórios de advocacia.É a mesma história do trem bala que o governo federal sempre ameaçou fazer e não vai sair do papel.

  7. Trem que está morto desde o papel, é incrível a incompetência deste projeto. Trens da Cia Paulista percorriam o trecho a 150km/h. Trens da Fepasa (no auge) 120km/h. O prejeto da CPTM diz a 100km/h, tragam os antigos ferroviarios de volta!!!
    Trem que nasce sem incentivo, quem vai deixar de usar o carro ou o ônibus para gastar 2hs para chegar em SP?? Todo o sistema teria que ser integrado, inclusive com estacionamento nas estações. Em Campinas o trem teria que chegar ate o aeroporto, podendo ser feito através de extensão utilizando na estação de Campinas o antigo gavetão da Mogiana,
    em Jundiaí a reconstrução das estações para atender a região do terminal Vl Hortolândia, Jundiaí Paulista e Jundiaí SJ.
    Não depender das subestações retificadoras da linha 7 e sim reativar a subestação de Louveira. Adequar o entorno ferroviário, hoje as via permanente e acessada por qualquer pessoa.
    No projeto até Americana, reativar o ramal de Piracicaba seria ótimo para desafogar o trecho da rodovia Luiz de Queiroz. Em Perus, se reativar o trecho da EFPP dá para atender a região de Cajamar/Jordanesia e extremo sul de Jundiaí

  8. Não inauguraram nem a estação vila Sônia ainda é estão falando de campinas.
    Típico de políticos brasileiros, pura mentira para enganar a população e manter o PSDB mais alguns anos no poder do estado de São Paulo.

  9. A mesma historia de sempre ,no site do joao Doria iria sair do papel assim que ele entrou no governo ,passou 3 anos e nada
    O mesmo bla bla bla de sempre ,coloca um trem normal até Jundiaí já resolve ,nunca vai sair do papel so acredito vendo

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