Aeromovel de Guarulhos chega a 450 mil passageiros no dia do prazo para operação plena

ANAC e TCU fazem inspeção no sistema nesta quarta-feira; três semanas atrás, Agência ainda apontava testes pendentes, falhas e risco na certificação

Trem do Aeromóvel de Guarulhos durante primeiro dia de operação.
Trem do Aeromóvel de Guarulhos durante primeiro dia de atendimento na noite desta quarta (3).

O Aeromovel do Aeroporto de Guarulhos já transportou mais de 450 mil passageiros desde que começou a funcionar com usuários, em dezembro do ano passado. O número foi divulgado pela Aerom justamente nesta quarta-feira (30), data prevista para que o People Mover finalmente alcance sua configuração definitiva de operação.

O marco ocorre enquanto técnicos da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) realizam uma nova inspeção no sistema. Documentos analisados pelo MetrôCPTM mostram que a visita foi programada pela Agência em 22 de setembro para os dias 30 de setembro e 1º de outubro.

No ofício enviado à GRU Airport, a ANAC definiu como atividade desta quarta-feira o “acompanhamento da implantação do APM”. Na quinta-feira, a fiscalização prosseguirá, junto a visitas a outras obras no aeroporto.

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A data coincide com o último cronograma apresentado pela concessionária para concluir a implantação do Aeromovel. O prazo de 30 de setembro também passou a ser acompanhado pelo TCU, que determinou à ANAC a adoção das medidas contratuais cabíveis caso o sistema não alcance as condições previstas.

Passageiros no interior do trem do Aeromóvel.

ANAC apontou operação instável em agosto

A situação encontrada pela Agência poucas semanas antes do prazo mostra que ainda havia uma lista significativa de pendências.

Na Nota Técnica nº 58, de 8 de setembro, a ANAC analisou uma inspeção realizada em 25 de agosto e documentos fornecidos pela própria concessionária. Embora tenha reconhecido avanços, a área técnica ressaltou que as autorizações de segurança já emitidas não significavam que as respectivas etapas de testes estivessem concluídas.

O Aeromovel já operava desde 3 de agosto com os dois veículos em modo automático e cruzamento sem parada no desvio existente no meio do percurso. Mesmo assim, ainda havia testes pendentes inclusive de fases anteriores do comissionamento.

A Agência também encontrou uma diferença relevante entre a avaliação da concessionária e os registros operacionais. Enquanto a GRU Airport sustentava que o serviço apresentava regularidade e confiabilidade, os diários de operação mostravam diversos períodos em que apenas um dos dois veículos disponíveis estava funcionando.

Em 6 e 10 de agosto, por exemplo, um dos veículos permaneceu fora de operação durante toda a janela de funcionamento do sistema. Em outros dias, a indisponibilidade durou várias horas.

Para a área técnica da ANAC, os registros mostravam que o serviço vinha sendo prestado de maneira “inconstante e instável”. A Agência alertou ainda para o risco de passageiros em conexão confiarem no APM e enfrentarem esperas inesperadas. Representantes da concessionária chegaram a relatar questionamentos de passageiros que alegaram ter perdido voos após confiar nos horários informados pelo AeroGRU.

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Terceiro veículo ainda não havia entrado em operação

Uma das principais pendências estava relacionada ao terceiro veículo do Aeromovel. O sistema foi projetado para manter dois carros em circulação, enquanto uma terceira composição permanece disponível como reserva.

Até a inspeção de 25 de agosto, a ANAC ainda não havia acompanhado a operação do veículo azul, destinado justamente a essa função. Sem ele, qualquer necessidade de manutenção em um dos dois carros disponíveis fazia o serviço continuar com apenas um veículo.

GRU Airport e Consórcio AeroGRU disseram à Agência que o problema estaria resolvido até 30 de setembro, quando o terceiro veículo deveria estar plenamente operacional.

Também foram encontrados problemas nos sistemas destinados aos passageiros. Painéis das estações não indicavam o sentido dos veículos nem o tempo de espera, enquanto telas dentro dos carros chegaram a mostrar a próxima estação de forma incorreta.

A ANAC relatou ainda falhas no sistema de sonorização. Em uma das inspeções, um aviso informou a interrupção temporária do APM, mas não houve comunicação posterior de que o serviço havia sido retomado. Quatro minutos depois, um veículo voltou a atender a estação.

O primeiro dos três Aeromovel que não opera ainda (ANAC)

Passageiros ainda eram considerados parte dos testes

Embora centenas de milhares de pessoas já tivessem utilizado o Aeromovel, a avaliação da ANAC em setembro era de que a operação ainda fazia parte do processo de testes e comissionamento.

A área técnica afirmou que nenhum passageiro havia sido transportado, até aquele momento, considerando todas as condições de segurança e conforto estabelecidas no Plano de Exploração Aeroportuária (PEA).

A Agência comparou a situação a um processo de ORAT, etapa utilizada para testar instalações e procedimentos antes da entrada plena em serviço de uma infraestrutura aeroportuária. Na avaliação dos técnicos, os passageiros estavam funcionando, na prática, como testadores do sistema.

Por esse motivo, a ANAC rejeitou a interpretação de que o transporte regular de passageiros pudesse ser considerado uma entrega parcial do APM. Autorizações de segurança permitiram ampliar gradualmente a operação, mas ainda havia calibrações, manutenção e ajustes sendo realizados durante o serviço.

Certificação também preocupava Agência

Outra pendência estava fora da operação visível aos passageiros. A ANAC apontou falta de avanço na acreditação do projeto executivo do Aeromovel.

Em março, a concessionária havia informado que 12 das 19 disciplinas de engenharia estavam acreditadas. Documentos posteriores mudaram a classificação das disciplinas, dificultando uma comparação direta, mas alguns itens permaneceram com as mesmas não conformidades meses depois.

Plataforma da estação Aeroporto-Guarulhos do Aeromóvel.

Entre os exemplos citados pela Agência estavam 41 não conformidades em Arquitetura, 306 em Estruturas de Concreto, 14 em Estruturas Metálicas, seis em Instalações Hidráulicas e nove em Fundações.

Com base nas informações disponíveis em agosto, a área técnica concluiu existir “risco significativo” de a acreditação não ser concluída até 30 de setembro.

No dia seguinte à emissão da Nota Técnica 58, a ANAC encaminhou formalmente suas conclusões à GRU Airport. O Ofício nº 63 ressaltou que testes de etapas anteriores permaneciam pendentes, havia falhas e descontinuidades na operação provisória e continuavam os problemas de informação aos passageiros.

Apesar do quadro encontrado, concessionária e Consórcio AeroGRU mantiveram perante a Agência o compromisso de resolver todas as pendências até 30 de setembro.

A inspeção realizada nesta quarta-feira pela ANAC, com acompanhamento do TCU, deverá mostrar se o sistema chegou ao prazo final nas condições previstas pela concessionária.