Chinesa CRRC vira queridinha das linhas de trem no Brasil e desbanca até a Hyundai Rotem
Maior fabricante ferroviário do mundo terá unidades em pelo menos seis linhas em São Paulo, além de Belo Horizonte e Rio
Quase um tabu há algumas décadas, operar trens fabricados na China virou praticamente uma obrigação no Brasil em 2025. É o que se deduz do recente anúncio da ViaQuatro (Motiva), que irá receber seis composições da empresa CRRC para a expansão da Linha 4-Amarela.
A revelação surpreendeu em vários sentidos, primeiro porque o projeto de duas estações até Taboão da Serra está apenas começando – as obras devem ter início em 2026 e a entrega deve ocorrer entre 2029 e 2031.
Mas foi por ter deixado de lado a Hyundai Rotem que a notícia espantou. A concessionária opera hoje 29 composições fabricadas na Coreia do Sul e que estão entre as mais modernas do país.
Motiva encomendou e receber 36 trens novos da Alstom (Jean Carlos)
Ou seja, a lógica seria apenas enviar um novo pedido para os sul-coreanos e replicar a receita do bolo, mas os executivos da Motiva acharam melhor apostar em um projeto completamente novo. E coloque novo nisso.
O motivo é a CRRC ainda não tem um modelo com as características do ramal, com bitola internacional, alimentação por catenária, padrão UTO (automatização máxima) e sistema CBTC. Por enquanto, as unidades que ela exportou para cá são trens mais simples e maiores que rodam na Linha 13-Jade e no Rio de Janeiro (Supervia e Metrô).
Logo teremos composições que estão sendo montadas na China para o Metrô de Belo Horizonte mas, de novo, modelos sem o perfil da Linha 4.
Sem contar a Hyundai, restaria como favorita a Alstom e por dois simples motivos. O primeiro é que empresa francesa está em meio à fabricação de 22 trens Metropolis para a Linha 6-Laranja e que seguem quase os mesmos requerimentos da Linha 4.
Salão de passageiros do trem da Linha 6-Laranja: especificação similar à da Linha 4 (GESP)
De quebra, a fabricante monta seus trens em Taubaté e acaba de concluir a entrega de 36 unidades da Série 8900 para a ViaMobilidade, da mesma Motiva.
Isso faz crer que a proposta dos chineses foi muito, muito vantajosa a ponto de convencer a nova cliente e arriscar implantar um novo trem.
Instalações no Brasil e encomenda polpuda para o Metrô
A presença da CRRC no país deve se multiplicar nos próximos anos, afinal a empresa é sócia do Grupo Comporte na TIC Trens, concessionária que irá operar a Linha 7-Rubi, o Trem Intermetropolitano e o Trem Intercidades Eixo Norte (Campinas e Jundiaí). Aqui uma nova safra de trens metropolitanos e regionais será feita por ela e deve chegar no final da década.
Talvez antes disso, 44 trens de seis carros e bitola de 1,6 metro começarão a ser entregues ao Metrô de São Paulo. A chamada Frota R será usada na expansão da Linha 2-Verde e para reforçar as linhas 1-Azul e 3-Vermelha. Ela introduzirá os trens de metrô pesado sem cabine na companhia e outras novidades tecnológicas.
O primeiro trem do Metrô de Belo Horizonte fabricado pela CRRC (Metrô BH)
E vale lembrar que os 19 trens de monotrilho da Frota S que a Alstom está entregando para a Linha 15-Prata são feitos por quem? Claro, pela CRRC na China, numa joint venture com os franceses.
O apetite do grupo não deve acabar tão cedo. A empresa já confirmou que está montando uma instalação de apoio em Araraquara (SP) que deve finalizar parte das encomendas fechadas. E temos pela frente mais trens necessários para o TIC Eixo Oeste, Linha 19-Celeste, Linha 16-Violeta…
A questão é saber se a aparente predominância da estatal chinesa é realmente sadia para a indústria ferroviária. A estratégia de obrigar empresas a montarem seus trens no país não deu muito certo no passado.
Basta ver o que sobrou de iniciativas como a da Bombardier, CAF e a própria Hyundai Rotem, sem falar em empresas nacionais que se aventuraram nessa seara. Desse jeito, será difícil competir com a CRRC, ao menos por enquanto.
Trem do segundo lote da Linha 4 foi produzido pela Hyundai Rotem (MetrôCPTM)
