CPTM desativou 17 trens por conta da pandemia em 2020

Jean Carlos
Dados obtidos com exclusividade pelo site mostram que enquanto o Metrô conseguiu manter uma lotação baixa em seus trens, a CPTM apresentou lotação elevada em 2020, além de retirar de circulação parte da sua frota
Todas as composições da série 3000 estariam fora de operação (Jean Carlos/SP Sobre Trilhos)

A pandemia do Covid-19 tornou caótico o transporte sobre trilhos ao exigir que se fosse mantida sua operação mesmo com restrições sociais e que afastaram também parte dos funcionários. Cenas de trens lotados, sobretudo na CPTM, tornaram-se comuns em programas jornalísticos na TV.

Para tentar esclarecer esse quadro, o site obteve dados com base na Lei de Acesso à Informação sobre a lotação dos trens no Metrô e na CPTM durante o ano de 2020. Com essas informações, atreladas aos nossos artigos sobre o relatório de administração da CPTM e do relatório de administração do Metrô, é possível analisar se as estratégias adotadas foram efetivas na condução da crise.

Lotação no Metrô

No Metrô de São Paulo, os índices de lotação em horário de pico representaram uma queda abrupta no número de passageiros que foram transportados durante o ano de 2020. Os efeitos da pandemia só foram sentidos com clareza a partir do mês de abril onde todas as linhas registraram quedas acentuadas na sua lotação em horário de pico. Vale lembrar que esse índice é medido pela métrica passageiro/m².

Nos primeiros momentos, a lotação foi inferior a 1 passageiro/m², passando a subir conforme as medidas restritivas foram se afrouxando. No relatório integrado de 2020, a Companhia do Metropolitano estipulou limites de lotação que não fossem superiores aos 2 passageiros/m² e acompanhava essa métrica em tempo real de forma que a oferta de trens fosse ajustada com a demanda.

Lotação nos trens do Metrô em passageiro/m² (CMSP)

Lotação na CPTM

Na CPTM, apesar do menor nível de detalhamento, é possível notar que, em geral, a companhia não obteve resultados tão satisfatórios como os do Metrô. A lotação diminuiu, mas não foi o suficiente para se estabelecer o nível de distanciamento social adequado.

O relatório de administração da CPTM carece de informações sobre lotação dos trens durante a pandemia. Nenhuma informação realmente detalhada foi exposta, o que pode revelar certa falta de planejamento ou mesmo de transparência em relação ao estabelecimento de critérios objetivos.

O caráter metropolitano das linhas, sua infraestrutura limitada e inclusive falta de recursos humanos (afastamentos por conta da pandemia) impõem limites para uma operação efetiva e uma estratégia que de fato possa afastar a imagem tenebrosa da “estação das trevas” que estampa as televisões todos os dias.

Lotação nos trens da CPTM em passageiro/m² (CPTM)

Trens imobilizados por causa da pandemia

Segundo as informações também apuradas via LAI, vários trens foram imobilizados, ou seja, deixaram de prestar o serviço de transporte por conta da pandemia. Não há como dizer se esse fato está atrelado à falta de recursos humanos (maquinistas), mas é preciso considerar que a quantidade de trens que foram encostados é significativa.

No total, 17 composições foram imobilizadas temporariamente por conta da Covid-19. Desses trens imobilizados, 14 estão envoltos em mistério. As composições da Série 2000 que atendem a Linha 12-Safira estão estacionados no pátio da Luz e no pátio Belém (entre Tatuapé e Brás). São trens que poderiam estar prestando serviços normalmente, mas foram sacados da operação. A imobilização permanecia até abril de 2021 e não há previsão para retorno.

Outro caso bastante intrigante é o da Série 3000. Segundo os dados fornecidos pela CPTM via LAI, três composições estavam retidas, uma por conta de acidente e duas por conta da pandemia. Entretanto, a informação diverge de informação obtida pelo site.

Segundo essa fonte, as 5 composições da série 3000 se encontrariam imobilizadas há meses sem prestar serviços. O motivo aparentemente é uma possível rescisão do contrato de manutenção e revisão geral assinado pela Alstom. Os dados obtidos via LAI informam que a manutenção de trens é atualmente de responsabilidade da CPTM.

A remoção repentina dos trens alemães pode indicar o motivo da reativação de parte da frota dos trens espanhóis da Série 2100. A maioria das composições dessa série virou sucata, mas seis trens remanescentes entraram como substitutos enquanto não se sabe o destino dos cinco trens da série 3000. A julgar pelo seu estado precário de conservação e manutenção, o seu retorno deverá se dar tardiamente. A baixa patrimonial do material não é algo que pode ser descartado.

Frota de trens da CPTM e as composições fora de serviço (CPTM)

Conclusão

Aplicar normas de distanciamento social em trens é algo muito próximo a “secar gelo”, uma tarefa perto do impraticável. As ações das empresas se resumem a estabelecer critérios e estratégias operacionais de forma que se possa criar o distanciamento adequado. Políticas públicas como o escalonamento nos horários de trabalho defendido pelo Secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, são uma das soluções que minimizan as lotações.

No caso da CPTM a situação é mais complexa. A falta de infraestrutura adequada (sinalização e energia) associadas a redução do quadro de funcionários (cerca de 13% com mais de 59 anos) e a redução da frota de trens em 17 composições faz com que andar nos trens metropolitanos em horário de pico seja um risco inescapável para parcela considerável das pessoas que usam o transporte diariamente.

Espera-se que, com a vacinação dos profissionais de linha de frente, os postos de trabalho possam vir a ser reocupados e os trens imobilizados venham a operar novamente, sobretudo os trens da Série 2000 que não têm motivo aparente para estar parados. Cabe ao cidadão fiscalizar e apontar inconformidades de forma que o serviço de transporte seja oferecido da melhor forma possível.

Nota do editor: o site enviou questionamentos à CPTM e à Secretaria dos Transportes Metropolitanos solicitando esclarecimentos sobre a retirada dos trens e também dos números da companhia em relação ao distanciamento social, mas não havia recebido resposta até a publicação deste artigo.

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  1. Isso é caso de polícia. Mais um absurdo cometido pelos incompetentes e omissos agregados pelo PSDB e por esse péssimo governador que temos.
    Chega a ser algo que beira a insanidade. O governo alega que a população é obrigada a ficar em casa e que os empresários são obrigados a fechar consequentemente perdendo seu sustento, pois isso supostamente evita o contágio. Porém, retira trens de circulação para economizarem, e assim aumentam as aglomerações no transporte público causando mais contágio.
    Não é atoa que grande parte da população detesta esse pseudo-gestor e suas panacéias delirantes…

  2. desativou trens por causa da pandemia? kkk, nao mesmo

    a CPTM imobilizou a frota 1700 q estava operacional e tinha bons indices de operaçao. enconstou os trens 2100 e 3000 como frota reserva. deixa 8 trens da serie 2500 rodando na linha 13 que nao vai ninguem. e daí faz uma concessao onde o principal “investimento” é a compra de 34 trens. ou seja, novos trens é algo que realmente a empresa nao precisa de forma urgente. poderia investir muito menos em revisoes gerais e modernizaçao de alguns itens e manter ativo toda essa frota de trens. mas a gestao que outrora fez o cartel do trensalão, agora prefere agradar outro tipo de cliente …

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