A conclusão de uma das maiores obras de metrô já tocadas em São Paulo está marcada para ocorrer nesta segunda-feira, 8 de abril. O governo do estado anunciou a abertura oficial da estação Campo Belo, da Linha 5-Lilás, às 11h, a liberando em operação reduzida a partir do meio-dia. Ela é a 11ª estação do plano de expansão anunciado na década passada e que começou a sair do papel em 2009 com a construção da estação Adolfo Pinheiro.

Ainda sem a ligação com a problemática Linha 17-Ouro de monotrilho, cuja previsão hoje é que seja aberta em 2022, Campo Belo servirá a uma região que hoje está relativamente distante da rede metroferroviária. Embora outras duas estações da Linha 5 fiquem nas proximidades e a Linha 9 da CPTM esteja a alguns quilômetros do bairro, fato é que a nova parada facilitará muito a vida de quem depende de transporte público e utiliza os corredores das avenidas Santo Amaro e Vereador José Diniz.

O fim da obra, no entanto, serve como reflexão para a lentidão absurda desse tipo de projeto. Embora seja até comum imprevistos e atrasos por conta da complexidade de implantar uma linha de trem subterrânea é nítido que com um pouco mais de planejamento – sem falar em transparência para evitar desvios e preços artificiais – além de uma dose bem menor de burocracia teria sido possível entregar as 11 estações muito antes disso.

É normal que uma obra desse tamanho tenha problemas

A frase acima é do ex-governador e atual senador José Serra (PSDB) e foi proferida em agosto de 2009. Ele tentava minimizar o fato de a previsão de entrega das primeiras estações da Linha 5 ter sido adiada de 2010 para 2011. É isso mesmo que você leu: Serra vendia na época a ideia de que a obra, que nem havia começado, pudesse começar a ser inaugurada já no ano seguinte e que a conclusão ocorreria em 2011, mas que com o atraso iria para 2012. Isso em 2009, quando o então governador já mirava concorrer à presidência da República no ano seguinte.

Vejam trecho do comunicado de imprensa do governo do estado em 17 de agosto de 2009, quando Serra deu o pontapé inicial para a obra:

“A inauguração da estação Adolfo Pinheiro está prevista para o primeiro semestre de 2011. Hoje, já está em operação um trecho da Linha 5, que começa no Largo 13 e vai até o Capão Redondo. Quando completa, em 2012, a linha irá até a estação Chácara Klabin e transportará mais de 640 mil pessoas por dia. A média atual de usuários é de 125 mil diariamente”.

Ou seja, foram quase 10 anos entre o início dos trabalhos e a entrega da última estação prevista, bem mais que os três anos anunciados. Obviamente, o prazo do ex-governador era uma piada de mau gosto, mas a imprensa na época (e ainda hoje) não questionou o absurdo.

O ex-governador Serra dá o pontapé inicial para a expansão da Linha 5-Lilás em 2009: de três anos previstos, obra levou uma década

De lá para cá, a sucessão de problemas foi extensa, veja:

  • atraso nas desapropriações;
  • suspeita de conluio entre as empreiteiras, mais tarde reconhecido por parte delas;
  • suspensão dos trabalhos por conta dessa suspeita;
  • trabalhos arqueológicos;
  • necessidade de refazer adutoras e tubulações de gás, não devidamente documentadas no projeto;
  • licenciamento ambiental;
  • esgotamento de aditivos, obrigando novas licitações;
  • velocidade mais lenta do que a prometida na escavação dos tatuzões;
  • atraso na entrega do sistema de sinalização CBTC;
  • operação Lava Jato.

Isso para citar os fatos mais notórios. O mais incrível é que a expansão da Linha 5 correu muito melhor do que outras obras do gênero em São Paulo, como foi o caso da Linha 4 (acidente em estação, consórcios que abandonaram obras), da Linha 15 (desvio de córrego e novamente consórcios sem condições de tocar a obra, entre outros) ou a “clássica” Linha 17, monotrilho da Copa de 2014 que deve ficar pronto apenas uma década depois de ter sido iniciado.

Nesta segunda-feira, não se sabe se vale comemorar a inauguração ou lamentar tamanho descaso com o dinheiro público.