Impasse em obra no Complexo Rapadura só será resolvido com bom senso do Metrô e moradores

Derrubada de árvores na Praça Mauro Broco precisa ser evitada, mas transferir local do canteiro vai atrasar e encarecer expansão da Linha 2-Verde
O terreno onde ficará o Complexo Rapadura em 2004 e neste ano: maior parte da vegetação é recente (Google Earth)

Há quase quatro meses, o Metrô vive um impasse com moradores do Jardim Têxtil, na Zona Leste de São Paulo, por conta da supressão de centenas de árvores da Praça Mauro Broco. No local será construído o Complexo Rapadura, uma instalação subterrânea de estacionamento de trens e que também servirá para receber o “tatuzão” que escavará cerca de 8 km de túneis da Linha 2-Verde entre a Vila Prudente e a Penha.

O protesto dos moradores fez a companhia suspender parte dos cortes após cercar o terreno, mas uma solução parece distante no momento. De um lado a comunidade afirmar que o local possui mata nativa e espécies raras e conta com o apoio do Ministério Público, que questiona o laudo da Cetesb, que autorizou a derrubada. Do outro, o Metrô alega que possui justamente a autorização do órgão ambiental e que haverá compensação para o corte, mas em outro município.

No entanto, está cada vez mais óbvio que a solução envolve o bom senso de ambos os lados. Embora cada um apresente suas razões, fato é que algumas propostas soam irreais. Os moradores, por exemplo, argumentam que o canteiro poderia ser movido para o imenso terreno de uma tecelagem a 200 metros da praça, mas mudar um projeto dessa complexidade é algo demorado e caro. A área em questão fica numa elevação 40 metros superior à praça, o que exigiria uma escavação muito profunda para chegar à cota onde os túneis da Linha 2 precisarão ser abertos. Não é por acaso que o Metrô escolheu a área do córrego Rapadura, no fundo de um vale no bairro.

Uma mudança desse tamanho impactaria em prazos e custos, atrasando ainda mais a entrega da obra, que tem o potencial de reduzir emissões de poluentes na Zona Leste ao retirar das ruas milhares de veículos.

Outro ponto que deve ser esclarecido é que o terreno escolhido pelo Metrô só chegou ao volume de vegetação atual nos últimos anos. Imagens de satélite mostram que em 2004 existiam apenas algumas dezenas de árvores no local, incluindo também uma faixa de terreno às margens do córrego e que não será afetada pela obra. Tecnicamente, essa nova vegetação não tem o mesmo valor de terrenos onde existem resquícios da Mata Atlântica, e por isso é passível de ser suprimida. Argumenta-se inclusive que as chamadas “árvores exóticas” nem sempre são desejadas justamente por não serem originárias da região.

As obras no Parque das Bicicletas em Moema tiveram baixo impacto da superfície (Google Earth)

O Metrô, inclusive, passou por uma polêmica semelhante (mas não tão grande) quando retirou uma “falsa seringueira” do canteiro central da avenida Santo Amaro, durante as obras da Linha 5-Lilás. A derrubada, por mais tocante que seja, envolvia suprimir uma espécie que havia sido plantada posteriormente à ocupação humana no bairro.

Mais de 10 mil metros de terreno aberto

Esses fatos, no entanto, não eximem o Metrô de oferecer uma proposta mais sensata ao moradores. Embora a vegetação seja recente, trata-se de uma rara área verde numa região de urbanização excessiva e realizar a obra sem que seja preciso dizimar a praça não parece assim uma missão tão impossível.

O site ignora detalhes da implantação e qual a real necessidade de ocupar o trecho onde estão as árvores, mas a companhia do governo já possui ao menos 10 mil m² de terreno limpo graças aos dois campos de futebol existentes ao lado da praça. É praticamente a mesma área usada pelo Metrô para a construção de outra instalação subterrânea, que fica abaixo do Parque das Bicicletas, na Zona Sul de São Paulo.

Imagens de satélite revelam que a derrubada de vegetação nesse parque foi mínima e o espaço necessário para as instalações do canteiro e a abertura dos poços não correspondeu à metade do terreno isolado. No fim, o parque foi devolvido praticamente inteiro, restando apenas algumas edificações de ventilação no local.

O poço Bandeirantes, de onde partiu o megatatuzão e onde chegaram as duas tuneladoras menores
O poço Bandeirantes, que recebeu três tatuzões da Linha 5: Metrô já implantou estruturas complexas em espaços menores que o terreno da Zona Leste (CMSP)

Já outro canteiro, às margens da avenida dos Bandeirantes, utilizou apenas 5.500 m² para ser usado como ponto de partida de uma tuneladora semelhante à da Linha 2 e também retirada de outros dois “tatuzões” menores, que partiram do VSE Conde de Itu, num terreno ainda menor, com menos de 30 metros de comprimento. Ou seja, não parece ser inviável que o consórcio responsável pela obra possa criar esse acesso nos 10 mil m² disponíveis sem que para isso seja preciso avançar sobre as árvores.

Vale ainda lembrar que a instalação de alojamentos e escritórios é algo bastante maleável, bastando construir estruturas com mais andares ou, na hipótese mais radical, alugar residências no entorno, como é prática da companhia há décadas.

O que causa estranheza é que o Metrô não se pronuncia a respeito de soluções alternativas para evitar o desmate da área. É preciso transparência para que a sociedade compreenda a real situação desse problema e caminhos para resolvê-la o quanto antes, sob pena de ver a expansão da Linha 2 atrasar mais ainda. Se os dois lados insistirem no embate e não cederem um pouco (e assim compreenderem certas margens de negociação) o prejuízo será de todos.

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  1. Fora que se o Metrô realmente tem necessidade de remover árvores (nativas ou não) ele deveria ter um plano de plantar outras no mesmo local após a obre e reconstruir o entorno, como fizeram com o Parque das Bicicletas. E, porque não, arborizar o local com árvores nativas e fazer campos de futebol melhores, como forma de compensar o transtorno causado a população do local?

  2. Ótima matéria de cunho analítico e com argumentos bem fundamentado. Em uma visão mais radical, eu diria que todos querem uma vida melhor em todos sentidos, mas há muitos que acham que existe melhoria de vida sem que sua própria vida não tenha também que ceder alguma coisa para que tal melhoria seja abrangente e capaz de atingir o maior número de pessoas.

  3. Na boa? Acho mais fácil replantarem as árvores em outro lugar. Os moradores não querem que o metrô transfira a obra pra outro lugar? Por que não transferir as árvores pra esse outro lugar? Os moradores “se esquecem” que metrô tira carros das ruas, esses sim os verdadeiros poluidores da cidade.

  4. Esse artigo é excelente!

    Alguns moradores estão sendo irredutíveis e defendendo até arvores exóticas que foram plantadas recentemente.

    O metrô, por outro lado, não apresenta nenhuma alternativa, quer fazer compensação ambiental no Arujá e não apresenta alguma planta de como a pracinha será devolvida a população.

    1. Bom senso é um melhor uso do dinheiro público e respeito por espaços importantes de preservação ambiental. De acordo com o MP há indicios de graves irregularidades: laudos inveridicos, ocupação ilegal de área publica , omissão premeditada de informações sobre o Parque Linear como a existência de árvores ameaçadas de extinção. Essas informações são corroboradas pela liminar concedida pelo TCM-SP suspendendo a permissão de uso dessa área. A solução do impasse é a mudança desse canteiro de obras para a área ociosa de mais de 400mil metros da fábrica desativada e que fica a 200m do parque linear. Por fim lembro que a prefeitura é proprietária de área dentro desse terreno e que pode ser cedida ao metrô. Soluções há, mas talvez a pressão da especulação imobiliaria seja mais forte do que o bom senso.

    2. O metro não nos da nenhuma alternativa para quem usufrui desta área de lazer.que temos ali os dois campos de futebol a qual.frecuentamos a mais de 35 anos.o que será dos moradores que frequenta ali.pelo que ouvimos ali o metro disse .que daria um campo só de futebol daqui 5 anos como fica nossa lazer.nos finais de semana
      Saomuitos moradores que usam está área
      O metro tem uma solução para nos

  5. Curioso é que se o MTST tivesse ocupado e desmatado essa área pra fazer favela, não teriam moradores, ministério público, absolutamente ninguém reclamando de nada. Agora quando é uma obra de interesse público, que inclusive vai de encontro à necessidade ambiental, que é de tirar carros das ruas, todo mundo que posar de ecoxiita. O Brasil é definitivamente o país da hipocrisia.

  6. Curioso mesmo é voçe morador da região passar pela a praça sua vida interira, e a única lembrança é de usuários de drogas e confusões em dias de jogos. O Campo do Rádio não é e nunca foi uma “praça” como apontam hoje.

  7. Interessante, eu sou a favor do meio ambiente, mas o que parece o local é meio de lazer de marmanjos que jogam futebol no fim de semana e pelo visto é este o motivo de toda a revolta e não as árvores que lá estão, no mais é dever do metrô compensar ambientalmente qualquer retirada de árvores , encoberta e estreitamentos de rios e lagos e etc.

      1. Eu não acho que seja pecado as pessoas terem lazer, mas acho complicado parar uma obra de metrô por causa de uma pelada de fim-de-semana de meia dúzia de marmanjos. Mas eu entendo o lado dos moradores, o metrô deveria compensar já com um plano de criar um outro parque em algum local próximo.

  8. Ótima matéria Ricardo
    Vejo que tanto um lado como outro tem que chegar e conversar sim ,pois isso que o metrô nós traz todos temos que ver que quanto mais mobilidade tivemos menos carros ficaria na rua e por outro lado metrô poderia fazer uma praça com mais iluminação com árvore nativas várias quadras no lugar aí sim teria onde os filhos desses moradores iria ter um lugar pra brincar melhor não está praça de hj cheio de pessoas usando drogas e um campo todo largado ….

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