Leilão do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas: sucesso ou motivo de preocupação?

Proposta tímida e apenas um interessado pode revelar sinais de fragilidades estruturais em projetos de trens de média velocidade no Brasil

Leilão do Trem Intercidades foi um sucesso? (Jean Carlos)
Leilão do Trem Intercidades foi um sucesso? (Jean Carlos)

O leilão do Trem Intercidades SP-Campinhas foi um sucesso? Com apenas um participante e uma proposta de desconto simbólica, de apenas 0,01%, o certamete realizado em 29 de fevereiro frustrou a quem esperava por uma disputa por um projeto bilionário e cheio garantias do estado.

Nomes fortes como a CCR e a Acciona, além de potenciais grupos internacionais que foram alvo de visitas de membros do governo e do próprio governador, não apareceram, deixando no ar que o TIC Eixo Norte não é algo tão atrativo quanto possa parecer.

Para tentar entender  que houe e imaginar as perspectivas para outros leilões de trens intercidades, é preciso levantar questionamentos quanto a estratégia do governo do estado em promover a expansão da rede sobre trilhos em âmbito regional.

1 – Complexidade do projeto (infraestrutura)

O projeto do TIC, apesar de ter sido bastante simplificado, não o poupa de necessitar de grandes obras e remodelações na topografia. As condições geográficas da região onde a Linha 7-Rubi se insere são desafiadoras.

A proposta do Trem Intercidades exigirá, conjugado com a segregação de cargas em determinadas regiões, a ampliação do trecho com mais duas ou três vias adicionais. Isso significa que mais espaço deverá ser disponibilizado para a implantação dos novos serviços.

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Essa ampliação poderá ser simplificada em regiões com terrenos favoráveis, mas desafiadora em locais urbanizados ou com presença de condições topográficas adversas como montanhas e vales.

O projeto necessitará de grandes movimentações de terra. Cortes e aterros deverão ampliar o leito das vias. Além disso, viadutos e túneis deverão ser incluídos no projeto.

Com base nisso, o projeto do TIC exigirá uma equipe de engenharia bem preparada e em grande volume para consignar todas as melhorias que possibilitarão a implantação da infraestrutura. O fator “projeto” exige expertise de quem queira levar o TIC adiante.

Trem Intercidades deverá ter alta complexidade de implantação (Jean Carlos)
Trem Intercidades deverá ter alta complexidade de implantação (Jean Carlos)

2 – Projeto de alto risco (financeiro)

O aspecto financeiro é um fator que pesa na implantação do trem de média velocidade. O custo estimado do projeto é de R$ 14,2 bilhões.

Apesar das estimativas, os valores podem variar de diversas formas. As condições econômicas em âmbito nacional e internacional podem fazer os valores variarem com o passar do tempo.

Custos adicionais para a mitigação de impactos ambientais e desapropriações podem ser um risco se não forem bem calculados. Os eventuais danos ao cronograma podem significar perda de receita no longo prazo.

Aliás, a receita é um fator importante. O TIC não é um mero projeto de mobilidade de viés social, é uma proposta de negócio que visa a obtenção de lucro, apesar do fato de o estado bancar resultados negativos. A estratégia da concessionária deverá definir o sucesso ou não do novo serviço.

3 – Fornecedores e contratos

Outro ponto vital para o sucesso do TIC são os fornecedores e os contratos com terceiros. Obviamente, uma concessionária não tem capacidade de implantar todas as disciplinas relacionadas a um trem de média velocidade.

Portanto, em alguns aspectos, existe a dependência dos fornecedores externos. Sistema de energia, sinalização, telecomunicações e civis exigem empresas especializadas.

Neste ponto algumas empresas de determinados setores podem se associar para minimizar custos e garantir receitas. Porém, em algumas situações as empresas podem se apresentar mais conservadoras e proporem orçamentos acima do razoável, encarecendo o projeto.

Não é errado uma empresa visar uma boa margem de lucro, mas em se tratando de um projeto como o TIC, que requer colaboração de todas as partes envolvidas, seria necessário que o bom senso prevalecesse.

Trem regional Coradia (Alstom)

4 – Vantagens para o estado?

Diante destas e de demais complexidades, o resultado final foi apenas uma única proponente que ofereceu o desconto mínimo para o certame. Diante deste cenário devemos questionar: o projeto está equivocado?

A modelagem se baseou em investimentos mistos entre governo e iniciativa privada durante os seis anos de implantação do TIC, e em uma receita de mitigação (contraprestação pecuniária) que teria papel de equilíbrio no longo prazo.

A expectativa era de que a disputa pudesse gerar maiores descontos para o estado de São Paulo nos valores de contraprestação pecuniária. Isso seria possível caso o interessado privado tivesse uma proposta competitiva.

Uma proposta competitiva é a somatória de todos os fatores listados acima: Equipes preparadas para projetos de infraestrutura, boa modelagem econômico-financeira de CAPEX e OPEX, e contratos bem amarrados com fornecedores de qualidade.

A falta de competição, marcada pela retirada do Grupo CCR na disputa, abriu margem para que o Grupo Comporte arrematasse o TIC por “WO”, obtendo assim uma margem de lucro maior.

Tarcísio de Freitas e José Efraim, coordenador chefe do consorcio C2 Mobilidade (Jean Carlos)
Tarcísio de Freitas e José Efraim, coordenador chefe do consorcio C2 Mobilidade (Jean Carlos)

5 – Os futuros projetos

Não é bom que projetos da envergadura do Trem Intercidades sejam protagonizados por poucas empresas e com propostas tímidas. Se a ideia é chamar a iniciativa privada para o palco o que se espera é a mitigação do custo global dos empreendimentos através de maior aporte das empresas interessadas.

Seria lógico que a competência e articulação empresarial fosse o fator diferencial na disputa. No final o estado vai, em termos globais (30 anos), bancar 100% do projeto e o excedente será repassado para o novo operador.

Isso não significa que o Grupo Comporte e a CRRC não irão investir nada. O consórcio C2 Mobilidade deverá aportar cerca de R$ 5 bilhões na construção. Mas este valor será recuperado ao longo dos 30 anos, como é natural.

O governo precisará de maior articulação junto às operadoras nacionais, fabricantes de trens, sistemas e empresas de engenharia para obter propostas mais vantajosas.

Contratos deverão ser aprimorados para tornar não só o serviço mais atraente, mas para permitir menor participação do estado e maior prevalência do privado em termos de investimentos.

Extensão da rede de trens intercidades (Jean Carlos)
Extensão da rede de trens intercidades (Jean Carlos)

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Conclusão

Temos outros três projetos de TIC pela frente: Sorocaba, São José dos Campos e Santos. Não se pode correr o risco de repetir o equívoco do TIC Campinas. Este ponto deve ser posto em discussão profunda dentro das pastas do governo.

Precisamos redefinir seriamente o conceito da palavra “sucesso”. Não é porque um projeto importantíssimo para São Paulo deu seu primeiro passo que devemos apenas comemorar. Pelo contrário, é preciso estar de olhos atentos para o futuro.

Não colocamos apenas em questão a capacidade das empresas privadas em executar o projeto, mas, quanto o estado é capaz de suportar processos, nitidamente, desvantajosos.

Por fim, falta ainda o ângulo do usuário, afinal o objetivo primordial de todo o processo é oferecer um transporte de qualidade e sustentável à sociedade. Que encurte caminhos, reduza a poluição e custos e proporcione maior qualidade de vida para a população.

Sob essa ótica, o TIC SP-Campinas ainda tem muito a comprovar.