Opinião: faz sentido extinguir uma empresa que é premiada por sua qualidade?
Enquanto recebe prêmio como melhor operadora de sistema metropolitano, CPTM está prestes a ter suas linhas repassadas à iniciativa privada
Em 27 de abril, ocorreu a cerimônia de entrega do “Prêmio Revista Ferroviária 2023” que sagrou a CPTM como vencedora na categoria “Melhor Operadora de Sistema Metropolitano”.
A atual gestão, no entanto, com vistas a trazer maior eficiência à operação e gestão, tem como intuito realizar a concessão de todas as linhas da CPTM. A pergunta que se faz é: diante deste recente reconhecimento dado à CPTM, seria esta uma opção sensata?
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Melhorias ao longo dos anos
Quando a CPTM assumiu as linhas ferroviárias da CBTU, e posteriormente Fepasa, ela as encontrou uma situação muito mais calamitosa do que aquelas vistas, por exemplo, nas Linhas 8 e 9.
Depois de 30 anos, saindo do “lixo ao luxo”, é necessário se fazer reflexões. O que fez de fato a estatal ganhar tal reconhecimento? Seria o impacto isolado de uma gestão “disruptiva” ou um trabalho de décadas que floresceu nos dias de hoje?

As antigas gestões da CPTM tiveram ao longo dos anos o desafio de não só operar uma malha degradada pelo descaso do governo federal, mas de promover sua revitalização. Acima disso, promover que o trem era um transporte seguro e eficiente, dado o descrédito que o modo tinha devido sua infâmia até os anos 90.
Foram realizadas compras massivas de novos trens. A renovação de material rodante representou uma mudança completa em como o passageiro via a ferrovia. Foi a transformação do trem de subúrbio em, praticamente, um metro de superfície.
As melhorias em estações também foram importantes. A reconstrução de paradas inadequadas faz parte do processo de contínua modernização do sistema. Em tempos de “vacas magras”, a estatal optou por uma espécie de retrofit.
Algumas mais bem trabalhadas, como é o caso das estações Jardim Belval e Jardim Silveira, outras mais humildes como Capuava, Utinga e Prefeito Saladino. Mas, em todas elas os critérios de conforto e acessibilidade foram atendidos.

Percebe-se que cada gestão deixou uma pequena marca, algo que é levado adiante. Alguns projetos são como sementes que através da força política podem de fato germinar, gerando bons frutos. Estes frutos se refletem em um serviço com maior conforto, atendendo maiores demandas com intervalos entre trens cada vez menores.
Mesmo diante disso, surge a intenção de realizar a concessão destas linhas. A atual gestão da estatal tem feito o esperado: trazer a empresa aos poucos para o presente com ações modernas. O ESG, uma espécie de estado da arte da administração de empresas, está aos poucos sendo implantado na estatal.

Faz sentido conceder uma empresa reconhecidamente boa?
Questiona-se com honestidade: qual o intuito de tantos esforços se, no final das contas, tudo será meramente repassado para uma nova operadora? Reconhece-se as necessidades de melhorarias no dia a dia, mas será que existe um plano de longo prazo para os trens metropolitanos?
Esse plano de longo prazo é, para o governo Tarcísio, a indução de grandes investimentos através do motor privado. As empresas podem, e devem, realizar contribuições para a expansão da rede sobre trilhos. Mas será que existe preparo por parte da tal iniciativa quando se fala em operação de trechos existentes?
Quando Tarcisio de Freitas se depara com a missão de conceder a “melhor operadora de trens urbanos do Brasil” para justamente melhorar o seu desempenho, ele entra em contradição: há alguém melhor para operar o que hoje existe?

O que impede a CPTM de, por exemplo, atingir o nível de eficiência da iniciativa privada? A resposta é simples: nada impede uma empresa estatal de atingir a excelência, a prova está resoluta na premiação e reconhecimento da empresa.
Porém, temos que lembrar que a CPTM não deveria ter objetivos empresariais. O seu objetivo não se resume a ter superávit financeiro. É preciso deixar claro: a função do transporte de massa é servir a sociedade garantindo qualidade no transporte e modicidade tarifária.
Neste sentido, ao se priorizar o repasse da gestão, operação e , até certo ponto, a garantir a eficiência financeira das futuras concessionárias, se tem um foco mais na gestão empresarial do que no passageiro.
Como a iniciativa privada pode, de fato, contribuir?
Isso não significa que a iniciativa privada não deva participar de investimentos importantes. A construção de novos trechos e serviços pode sim ser alvo de exploração privada. Com recursos do tesouro do estado limitados, o investimento privado é bem-vindo em novos empreendimentos. A Linha 6-Laranja é um bom exemplo disso.

A premiação da Revista Ferroviária à CPTM mostra que, a CPTM, alvo da extinção, já é a solução sólida para os trens na região metropolitana de São Paulo. Um plano de investimentos constantes e perenes é o que de fato garantiu as melhorias, até algumas décadas atrás, inimagináveis.
Quando se pensa no transporte público como serviço, onde os passageiros são clientes e a eficiência é sinônimo de lucro, você perde completamente a essência que norteia este transporte: propiciar mobilidade justa e acessivel no território urbano.
Nota do editor: os artigos classificados como “opinião” não refletem necessariamente o pensamento deste site.
