R$ 68 bilhões em metrô, trens, VLT e BRT no Rio? Entenda o “número mágico” do BNDES
Valor reúne projetos em estágios muito diferentes e não representa um pacote de investimentos aprovado para a Região Metropolitana
Um número de impacto começou a circular nos últimos dias associado à expansão do transporte público no Rio de Janeiro: R$ 68 bilhões para novos projetos de metrô, trens, VLT e BRT. A cifra existe, mas precisa ser lida com bastante atenção antes de ser interpretada como um plano de obras prestes a sair do papel.
O valor é resultado do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), trabalho desenvolvido pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades entre 2024 e 2026. O levantamento analisou as 21 maiores regiões metropolitanas brasileiras e projetou as necessidades de transporte público de média e alta capacidade para um horizonte de 30 anos.
Em todo o país, o trabalho chegou a uma carteira de 187 projetos e estimou em cerca de R$ 434 bilhões os investimentos necessários. No caso da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a soma das intervenções selecionadas chega aos cerca de R$ 68 bilhões que agora chamam atenção.
Isso não significa que o BNDES tenha destinado esse dinheiro ao Rio, que os governos estadual e municipais tenham aprovado um programa dessa dimensão ou mesmo que todos os projetos identificados sejam implantados.
O próprio banco faz ressalvas importantes em seus documentos. Na fase de levantamento, o ENMU reuniu planos, estudos, projetos e expectativas de investimentos existentes, independentemente de seu grau de maturidade. O BNDES chega a destacar que esse material não constituía, naquele momento, propostas do próprio estudo.
Depois, essas ideias foram submetidas a projeções de demanda e análises para formar uma rede considerada necessária no horizonte de longo prazo. Mesmo os projetos que chegaram ao banco final do ENMU continuam sendo propostas de planejamento, e não obras contratadas.
Entrada da estação Macaranã do Metrô Rio (Reprodução Google Maps)
Do estudo à manchete
A divulgação do ENMU acabou criando um farto material para a produção de manchetes otimistas sobre novas linhas de metrô, trens e VLT em várias cidades brasileiras.
O problema surge quando a estimativa financeira produzida para uma rede futura é apresentada sem explicar a distância entre identificar uma necessidade de transporte e efetivamente construir uma ferrovia ou corredor.
No Rio, essa simplificação é particularmente problemática porque coloca sob um mesmo número projetos com graus de desenvolvimento muito diferentes.
Entre as propostas metroviárias aparecem expansões discutidas há muitos anos, como a Linha 3 entre Rio, Niterói e São Gonçalo e o prolongamento da Linha 2 entre Estácio e a região central. Há ainda ligações como Uruguai-Del Castilho e novas expansões em direção à Barra da Tijuca e Recreio.
O fato de uma ligação constar do ENMU significa que ela foi considerada dentro da construção de uma rede de transporte capaz de atender à demanda futura. Não significa que exista orçamento reservado, licitação preparada ou uma data para o início das obras.
Traçado preliminar com 50 km de extensão (COPPE)
Projetos concretos também entram na conta
Isso não torna os R$ 68 bilhões fictícios. Parte da carteira inclui intervenções que possuem estudos mais avançados ou iniciativas concretas dos governos.
Um exemplo importante está nos corredores Transcarioca e Transoeste. Nesse caso, a Prefeitura do Rio contratou formalmente o BNDES para estruturar um projeto de concessão destinado à implantação de transporte sobre trilhos nos atuais corredores de BRT.
É uma situação bastante diferente da simples presença de uma proposta no ENMU. Existe uma contratação para estruturar o empreendimento, incluindo estudos técnicos e a preparação do modelo de concessão. Ainda assim, nem mesmo esse projeto significa que as obras estejam contratadas: a implantação é imaginada de forma faseada e depende da conclusão da estruturação e das etapas posteriores.
Outras propostas estão muito mais distantes desse ponto. Algumas precisam avançar em estudos de demanda, engenharia, impacto ambiental e modelagem financeira antes que um governo possa sequer decidir se vale a pena transformá-las em projetos efetivos.
Depois disso ainda vêm decisões sobre quem pagará a conta, obtenção de recursos, licenciamento, desapropriações, projetos de engenharia, licitações e contratos.
VLT Carioca (Alstom)
Mapa do que seria necessário
A maneira mais adequada de interpretar o ENMU é, portanto, como uma visão de longo prazo do que as grandes regiões metropolitanas brasileiras precisariam acrescentar às suas redes de transporte.
O próprio BNDES explica que o estudo considera projeções para três décadas e pretende fornecer insumos para políticas públicas, modelos de financiamento e articulação entre União, estados e municípios.
Há inclusive uma diferença fundamental entre essa atividade e outra função desempenhada pelo banco. O BNDES pode ser contratado para estruturar uma concessão ou PPP específica, como ocorreu com os corredores Transcarioca e Transoeste. Nesse caso há um empreendimento determinado sendo preparado para eventualmente chegar ao mercado.
Os R$ 68 bilhões atribuídos ao Rio são outra coisa: uma estimativa de investimento para um conjunto de intervenções consideradas na construção de uma rede futura.
O estudo ajuda a apontar onde estão as necessidades, quais corredores podem justificar sistemas de maior capacidade e quanto aproximadamente custaria enfrentar o déficit acumulado de infraestrutura. Transformar esse mapa em dezenas de quilômetros de metrô, trens, VLT e outros sistemas dependerá de decisões políticas, estudos, financiamento e muitos anos de desenvolvimento.
