Tarcísio volta a ameaçar contrato do BRT-ABC a poucas semanas do prazo de entrega

Governador diz que concessão pode caminhar para caducidade se corredor não for concluído; imagens recentes mostram obras atrasadas no trecho próximo à estação Tamanduateí

Viaduto na entrada de São Caetano
Viaduto na entrada de São Caetano (iTechdrones)

O governador Tarcísio de Freitas voltou a ameaçar a Next Mobilidade com a caducidade do contrato de concessão do Corredor ABD caso o BRT-ABC não seja entregue. A declaração foi feita neste sábado (19), durante uma agenda em Ribeirão Pires, a poucas semanas do prazo oficial para conclusão do corredor.

“Se não for entregue, caminharemos para a caducidade”, afirmou Tarcísio. Segundo o governador, o prazo para conclusão já foi prorrogado e as obras passaram a avançar mais recentemente. O cronograma vigente prevê a entrega em outubro de 2026.

A declaração ocorre em um momento decisivo para o projeto. A Next Mobilidade acelerou os trabalhos nos últimos meses e afirma ter concluído uma primeira fase de aproximadamente 9 km, entre o centro de São Bernardo do Campo e a região de Rudge Ramos, próxima à divisa com São Caetano do Sul. Nove paradas desse trecho foram consideradas concluídas pela empresa.

O cenário é bastante diferente no restante do trajeto em direção a São Paulo. Imagens aéreas feitas em 16 de setembro pelo canal iTechdrones, parceiro do MetrôCPTM, mostram várias frentes de trabalho entre a região do Instituto Mauá e a Estação Tamanduateí, mas também deixam evidente a quantidade de intervenções que ainda precisam ser executadas.

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Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (MetrôCPTM)

Obras avançam lentamente rumo a Tamanduateí

Na região do Ribeirão dos Meninos há trabalhos de preparação do terreno e estruturas de contenção, além de obras relacionadas aos futuros viadutos do BRT. Em um dos pontos registrados pelo drone, a estrutura que permitirá ao corredor vencer esse trecho ainda não chegou à etapa de implantação dos pilares e do tabuleiro.

Mais adiante, entre São Caetano do Sul e a região de Heliópolis, há segmentos com pavimento de concreto já executado e estruturas especiais em diferentes estágios. O levantamento aéreo também mostra trabalhos seguindo em direção a Tamanduateí, inclusive nas proximidades da Linha 10-Turquesa, mas com viadutos e outros trechos ainda por implantar.

A situação contrasta com a primeira parte do corredor, onde a Next já realizou inclusive simulações com ônibus e passageiros. Em junho, a concessionária anunciou como concluídas as paradas Metrópole, Aldino Pinotti, Senador Vergueiro, Winston Churchill, Fundação do ABC, Afonsina, Rudge Ramos, Instituto Mauá e Vila Império.

Estação Tamanduateí ao fundo (seta) e o rastro de terra onde será o corredor de ônibus (iTechdrones)

Tamanduateí tinha apenas 7,4% em abril

Dados da Artesp obtidos pelo MetrôCPTM em abril já revelavam a grande diferença de avanço entre os diversos componentes do BRT-ABC. Na ocasião, o empreendimento apresentava 58% de execução global, segundo a Next, mas o Terminal Tamanduateí tinha somente 7,4% das obras concluídas. O Terminal Sacomã estava ainda mais atrasado, com 5%.

As duas estruturas são fundamentais para a ligação do corredor com o sistema metroferroviário. Tamanduateí permitirá integração com a Linha 2-Verde do Metrô e a Linha 10-Turquesa, enquanto Sacomã é atendida pela Linha 2-Verde.

Mapa do BRT ABC (Flavio Moura/Reprodução – imagem melhorada em IA para eliminar desfoque)

A possibilidade de caducidade não foi levantada agora pela primeira vez. Em março, Tarcísio afirmou que o governo deveria caminhar para a extinção da concessão porque, segundo ele, o acordo firmado com a Next não estava sendo cumprido. A concessionária respondeu na ocasião que havia ampliado as frentes de trabalho e apontou atrasos na obtenção de licenças e interferências de empresas de serviços públicos.

Em maio, o governador voltou ao assunto e disse que ainda tinha dúvidas sobre a capacidade da concessionária de entregar todo o empreendimento. Na ocasião, Tarcísio também afirmou que não pretendia considerar uma entrega parcial do BRT como solução para o atraso.

Contrato incorporou BRT em substituição à Linha 18-Bronze

O BRT-ABC foi incluído como obrigação contratual da concessionária que opera o Corredor ABD após o então governo João Doria cancelar, em 2019, a implantação da Linha 18-Bronze de metrô, que utilizaria monotrilhos para ligar São Paulo ao ABC.

Projeção mostra a Linha 18-Bronze (VEM ABC)

O pretexto à época foi que o corredor de ônibus seria tão capaz quanto a Linha 18, mais barato e ter um prazo de entrega mais rápido, de apenas 18 meses. No entanto, em julho o anúncio de Doria completou sete anos sem nenhum passageiro tenha sido transportado.

O empreendimento passou por sucessivas revisões de cronograma. Em janeiro deste ano, a Artesp já apontava atrasos significativos nos investimentos e informava a existência de procedimentos administrativos relacionados ao descumprimento de obrigações contratuais.

A má notícia para os futuros usuários não se resume aos atrasos. Eles levarão pelo menos 50% mais tempo para ir do centro de São Bernardo até o Metrô e arcarão com duas tarifas diferentes para seguir viagem – o monotrilho da Linha 18, ao contrário, teria integração gratuita por fazer parte da malha sobre trilhos.

 

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