Uma antiga e imensa distorção no transporte público na Grande São Paulo deu mais sinais de estar sendo corrigida nos últimos anos, a utilização do ônibus como modal principal e estruturante. Graças à modesta rede de metrô, os corredores de ônibus acabaram assumindo a função de ser o principal eixo de transporte coletivo para muitas regiões da capital e de alguns munícipios. Poluente, lenta e pouco eficiente, essa malha sobre pneus, sobretudo em São Paulo, continua a dar sinais de obsolescência, com menos usuários a cada ano.

Mas o quadro está mudando após a expansão da redes sobre trilhos desde 2017 quando foram acrescidos cerca de 30 km ao Metrô e CPTM. O reflexo disso já pode ser mensurado por meio de dados divulgados pelo Metrô de São Paulo em seu relatório anual de 2019. A participação do transporte sobre trilhos subiu de 33% em 2017 para 37% no ano passado. Apenas o Metrô (somadas as linhas operadas pela iniciativa privada), ampliou seu número de viagens em 15% no intervalo de dois anos, indo de 1,3 bilhão de embarques para quase 1,5 bilhão.

Mais saturada por conta de persistentes limitações de intervalos altos e lentidão em alguns trechos de suas vias, a CPTM cresceu menos, mas ainda assim foram quase 5% nesse mesmo período. Em contrapartida, o sistema de ônibus operado pela SPTrans, da capital paulista, teve uma queda em número de viagens de 8%, embora ainda represente 42% do transporte coletivo da região metropolitana.

Ou seja, é um “monstro” da ineficiência já que engole subsídios bilionários todos os anos e que seriam suficientes para acrescentar entre três a quatro quilômetros de linhas de metrô pesado em São Paulo anualmente. A tendência é que os ônibus da capital percam ainda mais usuários à medida que as linhas de metrô e trens metropolitanos cresçam e ganhem mais capacidade. E a razão é simples: o serviço sobre trilhos é muito mais eficiente, limpo, seguro e de qualidade superior.

Prova disso pode ser notada no crescimento do movimento nas linhas 4-Amarela e 5-Lilás, que ganharam várias estações recentemente. Ambas passam por regiões dotadas de corredores de ônibus, que perderam inúmeros passageiros, embora ainda circulem com muitos veículos. Até mesmo a Linha 15-Prata, que passa longe de oferecer boas condições de transporte, provocou o esvaziamento de linhas de ônibus na região onde circula antes que fosse paralisado por problemas na sua construção.

O maior crescimento no número de passageiros ocorreu nas linhas de metrô, que foram expandidas nos últimos dois anos

Quantificar o ganho com o transporte sobre trilhos

É cedo, no entanto, para vislumbrar um cenário equilibrado, onde as linhas sobre trilhos respondam pela absoluta maioria das viagens de longa distância e nos eixos principais de deslocamento, cabendo aos ônibus o papel que fazem bem, de serem alimentadores do sistema metroferroviário e realizar viagens locais. Por suas características, a região metropolitana de São Paulo incentiva que muitos passageiros façam trajetos muito longos em busca de emprego e serviços e a expansão do Metrô e CPTM deve voltar a sofrer com um período de baixo crescimento.

Mesmo com essas obras entregues, há várias regiões que ainda permanecerão distantes de estações, incluindo bairros que são pólos geradores de empregos. Por conta de seu alto custo de implantação e complexidade de construção, as linhas de metrô e trens metropolitanos demoram para ficarem prontas quando não sofrem com problemas burocráticos e jurídicos. Mas é inegável que, apesar de todas essas dificuldades, o resultado é sempre excepcional.

Tanto assim que o Metrô de São Paulo está contratando uma consultoria para formatar um estudo que mostrará os ganhos trazidos pela implantação do transporte ferroviário para uma região. A ideia é quantificar esses reflexos em dois cenários, um em que se imagina como seriam determinados bairros sem que a linha de metrô tivesse sido implantada e outro futuro, onde se calculam as melhorias proporcionadas pelo projeto.

O objetivo é bastante claro: dar subsídios aos gestores públicos para defender o investimento no transporte sobre trilhos, hoje geralmente confrontados com soluções provisórias como os “BRT”, corredores de ônibus com perfumarias para parecerem eficientes e até ecológicos, e que são alvo de lobbies organizados por defensores da prevalência do transporte rodoviário no país. Só falta mesmo combinar com a população que, como se vê pelos números, tem uma preferência clara.