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Trilhos de São Paulo versus Londres: números gerais

Série de artigos compara o sistema de transporte sobre trilhos mais antigo do mundo com a rede paulista. Nesse primeiro texto conheça os números principais
Trens do Underground londrino e do Metrô de São Paulo: diferenças e semelhanças (Matt Buck e Ricardo Meier)

Muito se fala sobre as deficiências do Metrô e da CPTM e como outras cidades do mundo têm sistemas exemplares quando não somos confrontados com comparações sem bases reais perante capitais federais como Santiago do Chile e a Cidade do México. Mas afinal que tipo de rede sobre trilhos São Paulo tem?

Uma boa forma de entender onde nos localizamos é compará-la ao famoso “Tube”, o metrô de Londres, primeiro da história e que hoje é um sistema muito complexo e variado. O site teve contato com ele por várias semanas e a partir deste artigo compara os trilhos das duas cidades sob vários aspectos. A ideia é esclarecer e desmistificar muitas afirmações errôneas sobre o transporte ferroviário na Grande São Paulo. Nesse primeiro texto vamos comparar os números principais de ambos. Confira:

Extensão

Eis aí uma referência que é facilmente confundida num olhar superficial. Se nos atermos apenas ao que geralmente chamamos de “metrô” o resultado é completamente distorcido. A razão é que as linhas das duas cidades prestam serviços diferentes e tem uma estrutura adaptada às suas necessidades. Querem um exemplo? O “Underground“, nome oficial do metrô londrino, possui longos trechos na superfície e com linhas longas com mais de 50 km de extensão além de demanda relativamente pendular. Ou seja, muito parecido com a nossa CPTM, mas para efeito de contagem essas linhas de trem metropolitano acabam contando nos 402 km do metrô da capital do Reino Unido.

Os londrinos também tem dois outros sistemas que são contados separadamente mas que tem papel importante no transporte sobre trilhos. São o Overground, um conjunto de linhas de superfície e elevadas, e também o DLR, um metrô leve também elevado, e que complementam a rede. Com elas somadas, o sistema de Londres possui cerca de 607 km de extensão – não entraram na conta a Elizabeth Line, que está em construção no trecho subterrâneo mas que funciona em vias na superfície.

Já São Paulo hoje contaria com 96 km de metrô, incluindo a Linha 15 de monotrilho. Mas, assim como em Londres, possui uma rede de trens metropolitanos extensa de 273 km e que em parte dela opera com características de um metrô como a Linha 9-Esmeralda. Tudo somado, são 369 km de trilhos, ou seja, pouco mais de 60% do tamanho do sistema de Londres.

Linhas

O Underground reúne dez linhas algumas delas que compartilham vias. As linhas Metropolitan, Circle e Hammersmith & City, por exemplo, dividem as plataformas por várias estações. Além disso, algumas linhas também operam com vários serviços em algumas pontas. Com isso, os passageiros das regiões centrais podem utilizar qualquer trem, porém, quem segue para lugares mais periféricos precisam aguardar o serviço específico. É algo semelhante ao que ocorre com o Overground, cujas nove linhas não têm cores distintas assim como o DLR – que tem sete linhas. Muitas vezes, aliás, chegar a algumas estações do Overground pode ser difícil por conta da falta de conexões mais próximas. No total, Londres possui 26 linhas oficialmente.

O Overground é um conjunto de linhas que se assemelha à nossa CPTM (Phil Richards)

A rede metroferroviária paulista por sua vez é hoje dividida em seis linhas de metrô cuja operação é feita por três empresas, além de outras sete linhas nas mãos da CPTM. Com exceção dos serviços Connect e Airport Express, o sistema não compartilha serviços diferentes em suas vias. No máximo, há loops internos na CPTM e extensões operacionais como no trecho entre Francisco Morato e Jundiaí. Enquanto a Linha 17 não é concluída, São Paulo tem hoje a metade das linhas de Londres: 13 no total.

Estações

Ao contrário de São Paulo, Londres possui uma infraestrutura muito maior no metrô. Suas dez linhas têm 270 estações, entre pequenas paradas a gigantescas estruturas. O Overground acrescenta outras 112 estações enquanto o DLR possui 45 paradas. No total são 427 estações.

Como dito, em São Paulo, a CPTM exibe números bem maiores que os do metrô, mesmo com o crescimento desse último. Mas em relação às estações, os dados agora são mais próximos. Enquanto a CPTM tem 94 paradas o Metrô (somando linhas 4 e 5) chegou a 84 paradas com a inauguração da estação Campo Belo. No total, portanto, são 178 estações ou 42% em relação à Londres.

Estação do Metrô de Londres (Ewan Munro)

Passageiros transportados

Como se viu até aqui, o sistema paulista equivale a aproximadamente metade do seu equivalente londrino. Mas é no número de passageiros que eles se aproximam. Embora os dados não sejam exatamente semelhantes, é possível dizer que São Paulo transporta tantas pessoas quanto Londres se não levar mais.

Segundo a CPTM, passaram pelas sete linhas nada menos que 863 milhões de pessoas em 2018 enquanto o Metrô (novamente somando os dados dos operadores privados) transportou 1,09 bilhão de passageiros. Como boa parte desses usuários passou pelos dois sistemas não seria justo somá-los, o que daria 1,9 bilhão de pessoas.

Enquanto isso, a TFL (Transport For London) diz ter transportado 1,3 bilhão no Underground, 311 mil no Overground e DLR. Da mesma forma, somados eles teriam feito quase 1,7 bilhão de viagens entre 2017 e 2018 – os dados são compilados em períodos diferentes do Brasil.

Conclusão

Naturalmente, pelo tamanho da sua área urbana e população, São Paulo deveria ter mais linhas do que Londres. Mas ver que sua infraestrutura sobre trilhos é bastante significativa faz cair por terra afirmações de que a capital paulista não tem um sistema respeitável e vital. Por ter surgido numa época em que as intervenções urbanas eram menos complexas do que hoje, Londres pode implantar várias linhas, muitas delas em canaletas e em superfície sem que isso tenha causado a deterioração do entorno.

O DLR, espécie de metrô leve de Londres (Roel Hemkes)

A vantagem de ter um metrô mais antigo é que a capital britânica possui hoje uma malha de trilhos na região central magnífica e que permite que seus passageiros possam chegar a um mesmo destino por diversos caminhos fazendo com que a ocupação dos trens seja mais equilibrada.

São Paulo tem a situação exatamente inversa: começou muito tarde a construir linhas subterrâneas e pouco avançou em trechos centrais. O resultado é que temos poucas conexões e muitas linhas pendulares. Para piorar esse cenário, houve um irresponsável incentivo a que a população mais pobre ocupasse regiões distantes do centro, complicando o funcionamento de ramais como a Linha 3-Vermelha.

Infelizmente, até onde se sabe o governo Doria parece estar priorizando uma expansão de trilhos que não favorece uma melhor distribuição dos passageiros com exceção da Linha 2 até Guarulhos que pode aliviar parcialmente a Linha 3, ou a Linha 6 no seu trecho entre Pompéia e São Joaquim, mas que também vai trazer milhares de pessoas para ramais como a Linha 4 e a Linha 1.

O ideal seria que, ao mesmo tempo em que leva o metrô ou o trem metropolitano para regiões carentes houvesse uma contrapartida nas regiões centrais e que concentram os empregos. Assim em algum momento futuro São Paulo poderia se igualar à Londres e sua densidade de estações centrais.

Ao contrário de Londres, CPTM tem rede maior do que o Metrô (GESP)

About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

4 Comentários

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  • Caro Ricardo
    Muito bom vc ter levantado esta comparação entre os Metros de Londres e Sao Paulo.
    Acho q a quebra de paradigmas na comparacao pejorativa entre o Brasil e os países mais desenvolvidos é sempre benefica para nos. Eu venho tentando fazer isso a anos para fazer as pessoas acreditarem em nosso país. Pois todo mundo crítica dizendo q a maioria do transporte publico de SP é trem qdo esquecem q toda a parte sul do metrô de Londres (Pre-Tamisa) é TREM.
    Coloquei isso até no meu livro e repito sempre em minhas palestras

  • Olá, Ricardo,

    Gostei do post comparando o sistema de transporte de Londres e de São Paulo. O de Londres é muito antigo (mais de 100 anos!) e é natural que apresente número maiores que o de São Paulo. Mas o metrô paulistano se beneficia de novas tecnologias, já que são construções mais recentes. Noto que ambos são pontuais, dentro do possível. Aliás, seria interessante levantar o quando a pontualidade é cumprida pelas linhas de metrô.

    O que vi em Londres e que, em São Paulo deixa a desejar, são as linhas de ônibus. Há o compromisso de cumprir os timetables, inclusive com diferenças para o período noturno, e os double-deckers são uma atração à parte. Sei que não é o tema do seu blog, mas queria chamar a atenção sobre isto.

    Temos o bilhete único e lá é o oystercard, que tem a opção semanal, tanto para ônibus como para trem (inclusive para o subúrbio). Talvez seria uma ideia para trazer aqui para São Paulo, uma maior diversidade de modalidades de bilhetes. Valeria a pena uma avaliação de custos.

  • Ola Ricardo, que bom que finalmente alguém da midia tocou neste assunto com numeros e dados corretos. Tô careca de ouvir jogarem merda na adm de SP, e não falo só da politica, mas das instituições, fazendo comparações distorcidas que agora vc começa a desembaralhar. Sim temos um potente sistema sobre trilhos que corre atrás do tempo perdido, a cidade ecresceu explosivamente, coisa que não aconteceu no mesmo volume em londres.Lógico que ninguém aqui está satisfeito, ainda mais pensando em termos de população e área, na verdade deveriamos ter o dobro, e não metade do sistema de trilhos britânico, por outro lado em termos de densidade estamos mais espalhados, temos um relevo mais complexo, temos outras tantas questões o que dificulta a nossa expansão. Mas daí a dizer que só temos 90 km contra 500 km das grandes cidades do mundo, pera lá né, vamos ser justos, Outro ponto é a questão dos prazos, exceto na china onde o governo manda tudo via decreto, e obedeça-se, em qualquer lugar democrático do mundo há todo um processo, que sim poderia ser melhor, mas não pode ser atropelado e isto demora, que dirá o metro de Roma, cavando linhas na base do pincelzinho para não afetar patrimonio arqueológico.

  • Como sempre, Ricardo, seu trabalho é de um primor que me faz todos os dias visitar a página ao menos 3 vezes em busca de conteúdo novo.

    Meus parabéns não só por este artigo mas por todos os demais. A amplitude que você confere aos temas, fazendo com que eles possam ser tratados numa perspectiva muito maior como aqui podemos ver a questão da comparação dos sistemas, do impacto urbano, da forma da sua instalação realmente fazem com que possamos observar a questão como um todo e não apenas sob o ponto de vista dos trilhos.

    Se me permite, em complemento a este artigo, acho pertinente a leitura deste do pessoal da página “Caos Planejado”, tratando um pouco sobre a questão das privatizações/concessões do transporte sobre trilhos na Inglaterra e no Japão:

    “https://caosplanejado.com/privatizacao-ferroviaria-o-fracasso-do-reino-unido-e-o-sucesso-do-japao/”

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