ViaMobilidade assume linhas 8 e 9 da CPTM nesta quinta-feira com imenso desafio pela frente
Parte do grupo CCR, concessionária terá sob sua responsabilidade uma malha sobre trilhos muito maior e complexa do que as linhas 4-Amarela e 5-Lilás, hoje operadas pelas suas ‘irmãs’
A partir da madrugada desta quinta-feira, 27, a CPTM deixará de ser responsável por operar as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, após quase 26 anos. Assume seu lugar a ViaMobilidade Linhas 8 e 9, concessionária controlada pelo grupo CCR e que venceu o leilão realizado pelo governo do estado no ano passado.
Como se sabe, a CCR e suas sócias também são proprietárias da ViaQuatro e da ViaMobilidade, operadoras das linhas 4-Amarela e 5-Lilás, do Metrô – a segunda também ficará encarregada de fazer funcionar a Linha 17-Ouro de monotrilho, quando ela for entregue.
A despeito da experiência do grupo, que também inclui o sistema de metrô de Salvador, o desafio imposto pelos dois ramais de trens metropolitanos é imenso. E isso pode ser sentido durante a fase de transição que se encerra nesta quarta-feira.
Problemas graves como avanço de velocidade, aberturas de portas do lado oposto da plataforma e riscos de desacarrilamentos teriam ocorrido, segundo relatos e mesmo imagens que circulam nas redes sociais. O site tentou ouvir a ViaMobilidade e a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, mas apenas esta se manifestou sem citar e explicar os incidentes.
Fato é que as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda apresentam diferenças importantes na operação e manutenção, comparadas às linhas 4 e 5. São aspectos que serão colocados à prova a partir de amanhã. Veja alguns deles:

Extensão das vias
Certamente, o ponto mais crítico da nova concessão já que os dois ramais operados até aqui pela CPTM são muito extensos e que estão prestes a ganhar mais alguns metros. Com a entrega da estação Varginha, esperada para o final deste ano, a ViaMobilidade terá nada menos que 78,6 km de trilhos operacionais para gerenciar.
Isso é mais do que o dobro da soma das linhas 4 e 5 (138%) e com um agravante: enquanto as vias dos ramais de metrô são em sua maioria subterrâneas e com alguns trechos em elevado, as linhas 8 e 9 estão inseridas no tecido urbano majoritariamente.
Essa característica dificulta algumas ações como furtos de cabos e equipamentos, entrada de pessoas estranhas nas vias ou mesmo as cada vez mais raras passagens em nível, que atrapalham o carrossel de trens, nesse caso na Linha 8.

Estações
Enquanto as linhas Lilás e Amarela possuem 28 paradas, administradas por duas empresas, a ViaMobilidade Linhas 8 e 9 terá 40 estações sob sua gestão, considerando Osasco e Presidente Altino unificadas. Além disso, o estado de conservação e o porte variam drasticamente, dificultando a manutenção dessas áreas.
Trens
Com uma operação com características pendulares e composições com oito vagões, a frota da nova concessão será de 61 trens, ou menos unidades que a soma das linhas 4 e 5. No entanto, há uma variedade de modelos maior que nas outras duas (apenas três tipos de trens), outro fator que torna a manutenção mais complexa.
Movimento de passageiros
Em números de 2019, o último antes do impacto da pandemia, a soma de usuários das linhas 8 e 9 é inferior a das linhas 4 e 5, que têm uma capacidade maior por conta dos intervalos entre trens menores e a própria dinâmica de um ramal de metrô.
Apesar disso, trata-se de um ambiente de controle mais difícil, o que estimula o comércio ambulante ou mesmo evasões de passageiros, por exemplo. São aspectos que exigirão uma atuação diferente da concessionária.

Infraestrutura
Talvez o tema mais delicado diga respeito à infraestrutura herdada da CPTM. Ao contrário das linhas 4 e 5, que são novas e utilizam tecnologia de ponta, os dois ramais metropolitanos ainda padecem de equipamentos e sistemas muito antigos, em que pese vários projetos de modernização.
O sistema de sinalização, por exemplo, é o ATC/ATP, em que os operadores ainda têm autonomia para acelerar e frear os trens, além de operarem as portas. É um abismo se comparado ao sistema CBTC da ViaQuatro e ViaMobilidade, que ainda contarão com portas de plataforma em todas as estações a partir deste ano.
O cenário nas estações das linhas 8 e 9 engloba plataformas sem PSDs, desníveis, vãos e trens que operam em intervalos nem sempre regulares. Comodidades como tempo de espera pelo próximo trem ou lotação dos vagões são miragens por enquanto, graças à ausência de tecnologia mais moderna.
Apesar disso, é bastante crível que a CCR conseguirá resolver essas deficiências a médio prazo e, enfim, entregar um serviço melhor aos passageiros, seja com a adoção de uma frota de trens, já encomendada junto à Alstom, seja ao modernizar as estações e sistemas, sem falar na oferta de comércio e serviços em suas instalações. Mas o caminho não será fácil.
