Após anos de esperança em que vários projetos metroferroviários foram implantados no Brasil, a despeito de outros tantos que ficaram pelo caminho, a nova safra de governadores anda flertando com o retrocesso. Sob o pretexto de falta de recursos, linhas de metrô estão sendo esquecidas em favor de soluções paliativas e de curto prazo. O caso mais emblemático ocorreu no ABC Paulista que, após cinco anos de espera, viu o sonho da Linha 18-Bronze desaparecer após decisão do governador João Doria (PSDB) de trocá-lo por um corredor de ônibus.

Nesta semana mais uma má notícia, desta vez para a população do Rio de Janeiro. O governador Wilson Witzel (PSC) anunciou que vai aterrar a estação Gávea da Linha 4 do Metrô. Parcialmente escavada, a parada foi deixada de lado pelo governo anterior que priorizou a conclusão do trecho que vai da Barra da Tijuca até a ligação com a Linha 1 e que deveria atender ào público dos Jogos Olímpicos.

A intenção era retomar os trabalhos após isso, mas sem dinheiro e com as empresas construtoras envolvidas na operação Lava Jato (assim como o ex-governador Sérgio Cabral), a obra parou e em um ponto delicado. Os dois poços escavados não chegaram a ter suas paredes reforçadas e estão escorados por hastes metálicas. Para evitar um possível desabamento, foi decidido enchê-los com água, mas a solução é provisória.

Sem perspectivas de obter cerca de R$ 1 bilhão para concluir o trecho abandonado, Witzel achou por bem aterrar a estação inacabada, “enterrando” por tabela o sonho de milhares de cidadãos que esperavam pela ligação férrea.

A atitude, no entanto, chama a atenção pelo fato de as obras da Linha 4 terem consumido mais de R$ 10 bilhões e serem alvo de uma ação do Ministério Público, que acusa o consórcio e o governo de inflarem os custos para desviarem dinheiro. Os procuradores, inclusive, teriam condicionado as empresas Odebrecht, Queiroz Galvão e Carioca Engenharia a concluírem a obra como parte do acordo de leniência que está sendo negociado. O que seria uma compensação pequena, mas justa para esse escândalo.

Mas, como tem sido praxe em muitos políticos, a adoção do trem como principal transporte urbano (como ocorre nas maiores cidades do mundo) foi considerada por Witzel como supérflua: “O Estado do Rio tem outras prioridades para uma montanha de dinheiro desse tamanho”, afirmou o governador. Como se a expansão da Linha 4 fosse como um palácio de governo. Triste.

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