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“Tatuzões” em compasso de espera no Brasil

Nada menos que sete tuneladoras estão hoje paradas no país por conta de atrasos e indefinições sobre as obras de metrô de São Paulo, Rio e Fortaleza
O shield usado no Metrô do Rio: solução precisa surgir para que ele não seja sepultado sob o Leblon (Divulgação)

Foi em uma segunda-feira de junho de 2016, portanto, há pouco mais de três anos, que a última tuneladora ativa no Brasil completou seu giro de escavação derradeiro. Era a conclusão dos túneis da Linha 5-Lilás, obra de pouco mais de 10 km que ligou o ramal a outras duas linhas de metrô em São Paulo. Desde então, não se escavou um singelo metro de túnel com esses imensos e complexos equipamentos, também apelidados de “tatuzões”.

Mas não foi por falta deles em território nacional. Existem hoje nada menos que sete “shields” no Brasil esperando por decisões políticas que permitam que seus trabalhos sejam iniciados – ou reiniciados, no caso do “tatuzão” do Metrô do Rio de Janeiro.

Utilizar esse tipo de método de escavação requer imenso planejamento para que sua grande vantagem apareça, a velocidade. Ao contrário de escavações mais simples, em que é preciso avançar devagar enquanto paredes são reforçadas para evitar que cedam, o tatuzão utiliza uma técnica imbatível ao escavar em um ritmo veloz, de ao menos 10 metros por dia, e ao mesmo tempo instalar anéis de concreto que praticamente deixam o túnel pronto.

Mas para que isso seja possível é preciso preparar o caminho, com poços intermediários e mapeamento do trajeto para evitar erros como rompimento de tubulações ou mesmo o risco de atingir fundações de edifícios. Além disso, os anéis de concreto são pré-fabricados e têm de ser estocados com certa antecedência para estarem disponíveis à medida que a tuneladora avança.

Megatatuzão da Linha 5: depois de mais mil dias escavações chegam ao fim
A escavação final do tatuzão da Linha 5-Lilás: três anos sem tuneladoras ativas no Brasil

Dinheiro parado

Três dos sete tatuzões brasileiros estão sem previsão de serem utilizados. Dois fabricados na China foram comprados pelo consórcio Expresso Linha 6 e seriam usados para escavar os 15 km de túneis da Linha 6-Laranja. Mas por falta de recursos, a Move São Paulo, concessionária que venceu a licitação, parou as obras em setembro de 2016, quando se preparava para montá-los no poço Tietê, uma imensa vala ao lado da Marginal Tietê e ponto de partida para os dois shields.

Desde então, eles estão desmontados nesse canteiro protegidos por toldos e aguardando o desfecho do imbróglio entre a Move e o governo do estado, que decretou a caducidade do contrato. Ou seja, há até a remota possibilidade de eles nunca serem usados na linha, dependendo do que for decidido. Mas é mais provável que os equipamentos, feitos sob medida para o ramal, acabem sendo repassados para quem assumir a obra. Quando, ninguém sabe, embora a gestão Doria prometa uma solução para este ano.

Outro tatuzão “repousa” no subsolo é o que foi usado para escavar cerca de 5 km de túneis da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro, obra realizada para os Jogos Olímpicos de 2016. Desde abril daquele ano, o maior shield já utilizado no Brasil está parado sob a Rua Igarapava, no Leblon, à espera de uma decisão sobre a retomada das escavações para viabilizar a estação Gávea, retirada dos planos originais do ramal.

Comprado da alemã Herrenknecht, o tatuzão custou R$ 100 milhões e foi alvo de críticas do Ministério Público recentemente, que considerou que o uso do equipamento foi desnecessário, apenas para encarecer a obra, na qual pairam suspeitas de desvios bilionários. Apesar disso, o tatuzão ainda tem como missão derradeira escavar 1,2 km de túneis para criar a ligação com a futura estação. Por enquanto, governo e concessionária não sabem como tirar a obra do papel. Enquanto isso, o equipamento consome quase R$ 3 milhões para mantê-lo em ordem e evitar que transforme a caverna em que está em uma enorme “sepultura”.

O poço Tietê da Linha 6-Laranja: sem previsão de retomada da obra, dois tatuzões estão desmontados sob os toldos da imagem acima (Divulgação)

Esperança à vista

Curiosamente, os tatuzões mais polêmicos do país estão perto de enfim entrarem em serviço. Comprados pelo ex-governador Cid Gomes, os quatro shields singelos serão usados na construção da Linha Leste do Metrô de Fortaleza. No início da década e antes da crise econômica, o político do PDT decidiu fazer uma manobra arriscada: em vez de deixar para os consórcios adquirirem os equipamentos, Cid optou por fazer o próprio governo comprar as tuneladoras de uma empresa americana.

Mal chegaram ao país, em 2013, os equipamentos acabaram parados em um canteiro de Fortaleza quando o governo federal deixou de repassar recursos e as empreiteiras contratadas desistiram da obra. Parecia que os quatro shields nunca seriam utilizados, porém, o governo do Ceará e a União aos poucos conseguiram viabilizar a retomada das obras em novembro do ano passado.

Desde então dois dos tatuzões foram montados no poço de onde partirão nos próximos meses para escavar dois túneis paralelos e singelos por cerca de 7 km da primeira fase da Linha Leste, a primeira subterrânea construída por shields fora do eixo Rio-São Paulo no país. Outras duas máquinas serão usadas em fases posteriores do projeto, que prevê mais de 12 km de extensão. Nessa primeira etapa serão transportados 150 mil passageiros por dia, segundo a Metrofor, empresa que opera o sistema.

Uma das quatro tuneladoras do Metrô de Fortaleza: perto de começarem a escavar (Metrofor)

Equipamentos fundamentais

Embora sejam caros, os shields são equipamentos fundamentais para que a expansão metroferroviária no Brasil avance. Diante de regiões metropolitanas densas e verticalizadas, eles são a forma mais econômica e rápida de escavar túneis atualmente. Além disso, pouco interferem na superfície, evitando grandes transtornos para a população. À medida que o país saia da longa estagnação econômica por que passa podemos esperar por novos “tatuzões” chegando ao Brasil como os que escavarão os 14 km da Linha 2-Verde no trecho Vila Prudente-Guarulhos, ou os que serão utilizados nas linhas 19 e 20 que a gestão Doria pretende tirar do papel.

Espera-se que outros estados também viabilizem ramais subterrâneos como Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Recife e mesmo Salvador, que hoje conta com uma rede satisfatória, porém, quase toda ela na superfície.

About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

Um comentário

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  • Caro Sr. Ricardo tudo bem? , desejo que sim. Tenho acompanhado a sua odisseia em prol de um transporte de massas que pelo menos seja racional. Eu estive nesse setor no fim do anos setenta e inicio dos oitenta e por seis anos eu fui motorista de fiscalização de obras, de tudo eu vi um pouco e algumas respostas só vieram quase vinte anos depois. E o que aprendi ? foi que obras desse porte dependem fundamente de VONTADE POLITICA E INTERESSES MÚLTIPLOS LIGADOS, sem o que não tem obras. Continue lutando Sr. Ricardo , todos nós estaremos com você. Boa sorte
    Gilberto

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