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Após Lava-Jato, Camargo Corrêa revela transparência impensável tempos atrás

Tocadas pela construtora, obras da estação Morumbi, da Linha 17-Ouro, possuem página dedicada no site da empresa que conta até com transmissão dos trabalhos ao vivo
Estação Morumbi da Linha 17 em obras: transparência incomum de sua construtora (CMSP)

Vivemos uma época triste na corporação corporativa. Pressionadas pela opinião pública, sobretudo após o surgimento das redes sociais, empresas têm sofrido para lidar com críticas ou questionamentos a respeito de seu trabalho e imagem. A saída em geral tem sido fingir comprometimento com os clientes, com o meio-ambiente e com práticas politicamente corretas como evidenciar uma preocupação com minorias em geral.

Já quando o assunto em questão é espinhoso, as grandes companhias esquecem da transparência ou mesmo da humildade quando erram (algo que ocorre com qualquer um, mas que é um tabu no meio corporativo). Nessas horas, o silêncio e a negação têm sido as armas principais e um dos setores mais afetados por isso foi justamente o que envolve as obras e projetos públicos.

Até antes da operação Lava-Jato, que expôs o quadro de podridão no relacionamento de governos de qualquer estirpe política com empreiteiras, imperava uma espécie de censura informal. Nem a administração pública muito menos as empresas contratadas comentavam algo que as pudesse colocar em situação delicada.

Este jornalista uma vez interpelou a então presidente de uma importante fornecedora do Metrô durante uma inauguração de estação no ano passado. Durante o evento, ela conversava animadamente com seus executivos em clima de festa mesmo devendo projetos e provocando enormes atrasos em algumas linhas. Ao ser questionada sobre esses atrasos, ela se surpreendeu e pediu para que procurasse a assessoria de imprensa do governo como se não tivesse a obrigação de dar um posicionamento sobre o péssimo trabalho executado pela fabricante que representava.

Não é raro contratos preverem cláusulas de sigilo em várias obras públicas como se tratasse de algo a ser preservado da “concorrência”. Imagens de dentro de canteiros viraram tabu em tempos recentes, vazados por funcionários de empresas terceirizadas, por exemplo.

A péssima imagem das grandes empreiteiras e os imensos prejuízos acumulados após se verem envolvidas em tantos escândalos, no entanto, parecem ter provocado algum tipo de reflexo positivo no setor. O exemplo mais evidente dessa mudança de postura pode ser visto na construtora Camargo Côrrea. Fundada em 1939 por Sebastião Camargo, Sylvio Brand Corrêa e Mauro Marcondes Calasans, a empresa se transformou em uma das maiores e mais tradicionais empreiteiras do país. Prova disso é observar a quantidade de plaquinhas amarelas com seu nome em viadutos, estações de metrô e outros projetos que existem em várias cidades brasileiras.

Estação Brooklin da Linha 5 e a placa amarela da Camargo Côrrea: primeira a fechar acordo de leniência por conta da Lava-Jato

Tragada pela Lava-Jato, a empresa encolheu, mudou de nome, mas foi ágil em ser a primeira a acertar um acordo de leniência com o governo e assim reconhecer seus erros. Aos poucos, o grupo tem tentado sair desse período obscuro, embora vez ou outra voltem a surgir acusações de envolvimento em esquemas, como ocorreu há alguns meses após a delação de Sérgio Correa, ex-diretor do Metrô de São Paulo.

Vídeo ao vivo

A nova fase da Camargo Côrrea inclui o contrato para construção da estação Morumbi, da Linha 17-Ouro, vencido em 2017. Embora tenha atrasado a entrega da obra, que estava prevista para o mês passado e agora foi alterado para outubro de 2020, a construtora, agora chamada de Camargo Côrrea Infra, tem avançado em um ritmo satisfatório diante da complexidade de construir uma estação elevada entre o Rio Pinheiros e a Linha 9-Esmeralda.

A empresa também tem lidado com a delicada tarefa de montar um mezanino metálico de ligação com a estação da CPTM, além de mudar a plataforma desta sem que o ramal de trens metropolitanos tenha sofrido interrupções graves.

Câmera de vídeo transmite andamento da obra ao vivo

Chama a atenção, no entanto, uma página dedicada ao projeto criada pela empresa em seu site. Nele há dados detalhados sobre a obra que incluem até mesmo uma cópia digitalizada do contrato com o Metrô. Entre as informações compartilhadas pela Camargo Côrrea estão desde o volume de resíduos reciclados, quantidade de profissionais trabalhando e admitidos recentemente até informações sobre acidentes de trabalho – neste momento, sem nenhuma ocorrência.

Além de exibir o percentual de avanço do projeto (57,4% em novembro), a construtora instalou duas câmeras que transmitem imagens da estação ao vivo e que podem ser acessadas por qualquer internauta. É algo que mesmo o Metrô, responsável pela obra, não possui em qualquer de seus canteiros atuais.

Pode ser melhor

É claro que esse nível de transparência não deveria ser uma exceção e sim a situação normal em qualquer obra pública. É dever de qualquer gestão explicar o que está fazendo e de maneira voluntária, assim como as empresas contratadas por ele. Somente por esse caminho, e que inclui a cobrança por parte da sociedade e da imprensa, é que esses projetos poderão ser executados de forma mais eficaz e o risco de corrupção ser minimizado.

Fato é que não devemos nos sentir satisfeitos. É possível ser ainda mais transparente, trazer mais detalhes do andamento das obras, contratos, fornecedores desde que isso não interfira na segurança do trabalho. Ver essa mudança de postura, no entanto, já é uma grande vitória.

Página do site da Camargo Côrrea traz detalhes até então impensáveis como íntegra do contrato e valor atualizado do projeto

About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

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