Argentina recupera ferrovia até o Brasil em meio à crise entre Milei e Lula

Obras na Linha Urquiza podem permitir a retomada dos trens de carga pela fronteira de Uruguaiana, interrompidos desde 2017, mas recuperação também dependerá de investimentos no lado brasileiro

Trem da Linha Urquiza
Trem da Linha Urquiza (Reprodução)

Argentina e Brasil atravessam um dos períodos mais conturbados de sua relação diplomática recente, mas uma ferrovia construída há mais de oito décadas para integrar os dois países começa a ser recuperada. O governo argentino está investindo na Linha Urquiza, incluindo o trecho que chega à ponte internacional entre Paso de los Libres e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

A iniciativa ocorre em um cenário político pouco favorável à cooperação bilateral. O presidente argentino Javier Milei, de ultradireita, e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, mantêm uma relação marcada por ataques e divergências ideológicas desde a eleição do argentino, em 2023.

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A tensão atingiu um novo patamar em agosto de 2026. Depois de novos ataques de Milei a Lula durante uma visita ao Brasil, o governo brasileiro reduziu sua representação diplomática em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios. O chanceler Mauro Vieira afirmou posteriormente que a normalização das relações dependeria do fim das agressões por parte do presidente argentino. O governo de Milei decidiu não responder com medida semelhante.

Apesar do conflito político, a interdependência econômica entre os dois países permanece. E a recuperação da ferrovia que chega à fronteira mostra como algumas iniciativas de integração conseguem avançar mesmo em um ambiente diplomático adverso.

Assinatura para obras de recuperação da Linha Urquiza (FOCEM)

US$ 44 milhões para recuperar a Linha Urquiza

O projeto argentino prevê intervenções em 210 quilômetros da Linha Urquiza, ferrovia de bitola padrão de 1.435 mm que atravessa as províncias de Entre Ríos, Corrientes e Misiones.

O Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) financiará US$ 29,8 milhões, aos quais se soma uma contrapartida argentina de aproximadamente US$ 14,6 milhões.

Em janeiro de 2026, o FOCEM concluiu o primeiro desembolso, de US$ 4,45 milhões. O programa inclui recuperação de vias e renovação de duas pontes.

Uma das intervenções está diretamente relacionada ao Brasil. Documentos técnicos do projeto preveem obras entre a estação de Paso de los Libres e o eixo da Ponte Internacional Agustín P. Justo–Getúlio Vargas.

São aproximadamente quatro quilômetros de ferrovia nos quais estão previstos substituição de dormentes e trilhos, novas fixações, intervenções em passagens em nível e recuperação de obras de arte. A infraestrutura deverá manter capacidade de 20 toneladas por eixo.

Em agosto de 2025, ao anunciar outra licitação relacionada à Linha Urquiza, o próprio governo argentino declarou que o programa financiado pelo FOCEM buscava “reativar o cruzamento para o Brasil”.

Ligação inaugurada há mais de 80 anos

A tentativa de recuperar a conexão resgata uma infraestrutura que antecede em décadas a criação do próprio Mercosul.

As redes ferroviárias dos dois países chegaram às margens do Rio Uruguai utilizando bitolas diferentes. A Linha Urquiza argentina utiliza 1.435 mm, enquanto a rede ferroviária que alcança Uruguaiana pelo lado brasileiro é de bitola métrica, com 1.000 mm.

A solução encontrada na construção da Ponte Internacional Agustín P. Justo–Getúlio Vargas permitiu que as duas bitolas chegassem aos complexos ferroviários da fronteira. A passagem ferroviária foi habilitada em 1945, e a ponte foi oficialmente inaugurada em 1947.

Não significava, portanto, que um mesmo trem pudesse simplesmente partir da Argentina e continuar viagem pelo Brasil. A diferença de bitolas exigia operações de transferência de cargas entre vagões dos dois sistemas.

Instalações em Uruguaiana e Paso de los Libres permitiam esse transbordo, inclusive de granéis e contêineres. A conexão também chegou a ser utilizada por passageiros. Documentos históricos registram viagens entre Porto Alegre e Buenos Aires utilizando os dois sistemas ferroviários.

A ferrovia fazia parte de uma rede muito mais extensa. Do lado argentino, a Urquiza atravessava a região da Mesopotâmia, conectando Buenos Aires às províncias de Entre Ríos, Corrientes e Misiones e chegando às fronteiras com Brasil e Paraguai.

Do lado brasileiro, Uruguaiana tornou-se a porta ferroviária para a Argentina. A malha passou posteriormente pela RFFSA, América Latina Logística (ALL) e Rumo.

Ponte Getúlio Vargas–Agustín P. Justo (Câmara Municipal de Uruguaiana)

Trem desapareceu, mas a carga continuou

O transporte ferroviário internacional perdeu importância progressivamente diante do avanço das rodovias. A última travessia de um trem de carga pela ponte entre Paso de los Libres e Uruguaiana ocorreu em maio de 2017.

A interrupção, entretanto, não significou o desaparecimento do corredor comercial.

Uruguaiana permanece como uma das principais portas do comércio terrestre entre Brasil e Argentina. Caminhões cruzam a mesma ponte utilizada anteriormente pelos trens, fazendo da cidade gaúcha um dos principais pontos aduaneiros do país.

A própria Prefeitura de Uruguaiana informou que a ponte internacional registrou recorde comercial em 2025.

Há, portanto, uma situação peculiar: existe fluxo de mercadorias suficiente para transformar a fronteira em um dos principais corredores comerciais entre as duas maiores economias da América do Sul, mas praticamente toda essa movimentação depende atualmente do transporte rodoviário.

Falta recuperar o lado brasileiro

As obras argentinas, entretanto, não significam que os trens voltarão automaticamente a atravessar a fronteira.

O financiamento do FOCEM contempla a infraestrutura em território argentino e chega até o eixo da ponte. Para que a ligação internacional seja efetivamente retomada, também será necessário assegurar condições operacionais na infraestrutura ferroviária brasileira.

Até o momento, não há um programa brasileiro equivalente ao argentino, com investimentos e cronograma definidos especificamente para a retomada dos trens internacionais em Uruguaiana.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) já realizou intervenções recentes na Ponte Internacional Getúlio Vargas–Agustín P. Justo, mas elas estiveram concentradas na infraestrutura da travessia e não representam um programa de recuperação do corredor ferroviário brasileiro até a fronteira.

Essa diferença coloca a Argentina em uma situação curiosa: ao concluir as intervenções previstas, poderá novamente dispor de uma ferrovia operacional chegando à divisa com o Brasil sem necessariamente ter uma conexão internacional pronta para ser utilizada.

Construção da ponte internacional nos anos 1940 (Museu do Estaleiro Martimiano Benites)

Integração econômica apesar da política

A recuperação da Linha Urquiza também chama atenção pelo momento em que ocorre.

Milei adotou uma política externa fortemente alinhada aos Estados Unidos e mantém discurso hostil aos governos latino-americanos de esquerda. Lula, por sua vez, possui posições bastante diferentes sobre integração regional e política externa.

As divergências deixaram de ser apenas ideológicas. Milei voltou a atacar publicamente Lula em agosto, e a representação diplomática brasileira na Argentina foi rebaixada. Desde a posse do argentino, os dois presidentes também não realizaram uma reunião bilateral oficial.

A situação contrasta com a relação econômica construída ao longo das últimas décadas. Brasil e Argentina continuam profundamente conectados por cadeias industriais, comércio de veículos, máquinas, energia, produtos agrícolas e outros bens.

A própria recuperação da Linha Urquiza utiliza um instrumento criado exatamente para aprofundar essa integração. O FOCEM é um fundo do Mercosul e financia projetos destinados a reduzir diferenças estruturais entre seus membros e melhorar a infraestrutura regional.

Assim, enquanto os presidentes dos dois países mantêm uma relação particularmente ruim, recursos de uma instituição criada pela integração regional estão sendo usados para recuperar uma ferrovia destinada a aproximar fisicamente suas economias.

O contraste fica ainda maior em Paso de los Libres. Mais de 80 anos depois da abertura da ligação ferroviária internacional, a Argentina está novamente colocando em condições de operação os trilhos que chegam ao Brasil. Para que os trens voltem efetivamente a cruzar o Rio Uruguai, porém, será necessário que a recuperação da infraestrutura avance também do outro lado da fronteira.