CRRC vai mesmo produzir 44 trens do Metrô de SP no Brasil?
Fabricante chinesa instalou unidade em Araraquara para atender contrato de R$ 3,1 bilhões, mas ainda não está claro quais etapas da produção serão realizadas no país
A CRRC prepara para os próximos meses o início das atividades industriais em Araraquara, no interior de São Paulo, onde a fabricante chinesa deverá trabalhar na produção dos 44 novos trens adquiridos pelo Metrô de São Paulo por R$ 3,1 bilhões.
A afirmação de que as composições serão produzidas no Brasil tem sido repetida inclusive por fontes oficiais. Em março, o governo de São Paulo informou que os projetos estavam sendo elaborados na China e que, após essa etapa, teria início a produção em Araraquara. Dias depois, o BNDES também afirmou que os 44 trens seriam produzidos pela CRRC Sifang na cidade paulista.
O que ainda não está claro, no entanto, é o que exatamente será produzido no Brasil. Um trem é resultado de uma cadeia industrial complexa que envolve desde a fabricação da estrutura dos carros e dos truques até sistemas de tração, freios, portas, equipamentos eletrônicos, interiores e, finalmente, a integração e os testes da composição.
A CRRC não revelou até agora como esse processo será dividido entre suas instalações na China e a unidade brasileira.
Interior dos novos trens da Frota R do Metrô de São Paulo (GESP)
Parte da antiga fábrica da Hyundai Rotem
A operação brasileira da CRRC começou a ser implantada em 2025 em parte das instalações utilizadas pela Hyundai Rotem em Araraquara. A fabricante chinesa alugou espaço no complexo que havia sido instalado pela empresa sul-coreana para atender, entre outros contratos, o fornecimento dos 30 trens da Série 9500 para a CPTM.
O investimento inicial anunciado pela CRRC em Araraquara é de cerca de R$ 50 milhões, com previsão de aproximadamente 100 empregos. Informações publicadas pelo setor ferroviário apontam que parte da produção dos novos trens será realizada no local para atender às exigências de nacionalização do contrato.
Fábrica da Rotem em Araraquara
Isso não significa necessariamente que os 264 carros que formarão as 44 composições serão integralmente fabricados em Araraquara.
A própria experiência da Hyundai Rotem ajuda a mostrar a diferença. Embora os trens da Série 9500 tenham sido associados à fábrica brasileira, parte do processo industrial ocorreu na Coreia do Sul, com carros enviados ao Brasil para etapas posteriores de montagem e finalização.
No caso da CRRC, ainda não há informação pública suficiente para saber se as estruturas dos carros, por exemplo, serão fabricadas em Araraquara ou chegarão prontas ou parcialmente montadas da China. O mesmo vale para componentes importantes como truques, equipamentos de tração e outros sistemas.
Nacionalização exigida pelo BNDES
Há, entretanto, uma razão concreta para que parte do processo ocorra no Brasil. O financiamento concedido pelo BNDES está ligado às regras de credenciamento Finame para produtos metroferroviários, que estabelecem requisitos de conteúdo produtivo nacional.
Assinatura do financiamento em Araraquara (BNDEs)
Esses critérios não exigem que todos os componentes de um trem sejam fabricados no país. O sistema considera índices relacionados ao processo produtivo realizado no Brasil e permite a utilização de componentes importados, desde que sejam atendidas as condições estabelecidas para o credenciamento.
O contrato firmado com a CRRC também prevê o cumprimento dessas exigências ao longo do fornecimento. É justamente esse mecanismo que torna necessária uma participação da indústria brasileira na encomenda, sem significar que toda a fabricação dos trens tenha de ocorrer no país.
A diferença é importante. Uma composição pode ter sua estrutura e diversos sistemas produzidos no exterior e passar no Brasil por montagem, instalação de componentes nacionais, acabamento, integração e testes. Dependendo da participação local no processo, o veículo pode atender às regras de nacionalização mesmo tendo parcela significativa de sua fabricação realizada fora do país.
Montagem pode ser principal atividade no Brasil
Esse cenário é compatível com algumas das informações divulgadas até agora sobre Araraquara. Em março, uma reportagem sobre a implantação da unidade afirmou que as composições destinadas ao Metrô seriam montadas no local, enquanto publicações do setor ferroviário têm utilizado expressões como “parte da produção” para descrever o trabalho previsto no Brasil.
Já o governo paulista adota uma definição mais abrangente. Em comunicado de março, afirmou que os projetos dos novos trens estavam sendo elaborados na China antes do “início da produção”, que ocorreria em Araraquara.
Frota 4 será composta 44 trens (GESP)
O BNDES foi igualmente direto ao informar que os 44 trens “serão produzidos pela CRRC-Sifang, em Araraquara”. O banco financia R$ 3,6 bilhões destinados à aquisição das composições, cujas primeiras entregas estão previstas a partir de maio de 2027.
Apesar dessas afirmações, não foram divulgados detalhes técnicos que permitam saber quais componentes efetivamente serão fabricados no Brasil e quais virão das unidades da CRRC no exterior.
Produção começa na China
Uma parte do trabalho já ocorre fora do Brasil. O próprio governo de São Paulo informou que a fase de projeto dos novos trens está sendo realizada na China. A CRRC Qingdao Sifang, integrante do grupo responsável pelo contrato, possui uma extensa estrutura industrial naquele país.
O desenvolvimento no exterior, por si só, não é incomum em contratos ferroviários internacionais. A questão que permanece aberta é em que momento o processo físico de fabricação passará da China para o Brasil.
CRRC também montou os trens da Linha 15-Prata na China (CRRC)
Entre as informações ainda desconhecidas estão a origem das caixas dos carros e dos truques e o estágio em que os veículos chegarão a Araraquara. Esses dados permitiriam distinguir uma fábrica responsável por etapas estruturais da produção de uma unidade dedicada principalmente à montagem final, integração e testes.
O MetrôCPTM procurou a CRRC para obter detalhes sobre o processo industrial dos 44 trens e questionou quais etapas serão realizadas no Brasil e na China, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
A produção industrial em Araraquara está prevista para começar no segundo semestre de 2026. As primeiras composições da nova Frota R deverão ser entregues em 2027 e serão destinadas principalmente à Linha 2-Verde, que está sendo ampliada em direção à Penha e posteriormente a Guarulhos. Parte dos 44 trens também será utilizada para reforçar as frotas das linhas 1-Azul e 3-Vermelha.
