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Empresa obscura seria favorita a levar a Linha 6-Laranja do metrô, diz jornal

De origem americana, KT2 teria acordo com sócios da Move São Paulo para assumir concessão, mas construção continuaria nas mãos de Odebrecht, Queiroz Galvão e UTC
Linha 6-Laranja de metrô: grupos interessados em assumir lugar da Move São Paulo causam desconfiança (Reprodução)

Ao afirmar que o imbróglio da Linha 6-Laranja de metrô teria uma solução em breve, o governador João Doria revelou que três grupos estariam na disputa pelo controle da Move São Paulo, uma Sociedade de Propósito Específico criada para construir e operar o ramal. Um deles ficou conhecido no início de agosto quando uma comitiva do estado viajou até a China, a CRCC, gigante da área ferroviária que indicou sua subsidiária CR20 como candidata a tomar o lugar da Move São Paulo.

Nesta quarta-feira, outros dois candidatos foram revelados pelo jornal Valor Econômico, a espanhola Acciona, e um obscuro grupo empresarial de origem americana, o KT2. Sobre a primeira, trata-se de uma das empresas que estavam envolvidas na construção do Rodoanel Norte e que tiveram o contrato rescindido por suspeitas de irregularidades. A Acciona também é uma vencedoras dos lotes da expansão da Linha 2-Verde até Guarulhos, obra que estava suspensa até o começo deste ano quando o governo decidiu retomá-la.

Segundo o Valor, no entanto, é a KT2 a favorita a assumir a PPP (Parceria Público-Privada) da Linha 6. A empresa teria assinado um acordo vinculante com a Move São Paulo em que se comprometeria a ter um parceiro nacional para operar o ramal de metrô. E manteria o consórcio Expresso Linha 6 como responsável pelas obras, considerada a parte nobre da concessão. Como se sabe, o tal consórcio construtor é formado pelas mesmas construtoras sócias da Move São Paulo, a Odebrecht, Queiróz Galvão e UTC. A única “diferença” está na inclusão da Constran, empresa que pertenceu justamente à UTC.

Paraíso fiscal

Chamam a atenção algumas peculiaridades da KT2, fundada em 2011, e que tem como principal ativo hoje a concessão da Rodovia do Aço, entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A estrada era operada justamente pela Acciona, que desistiu do negócio até que a KT2 assumiu a operação em novembro do ano passado, não sem chamar a atenção da mídia por ser desconhecida até então.

Ainda de acordo com a reportagem do Valor, entre seus executivos estão pessoas sem experiência no setor de infraestrutura com exceção de um dos diretores executivos que trabalhou anteriormente em uma empresa vinculada à Odebrecht.

Sócios da KT2 são empresas localizadas em Delaware, estado americano conhecido por ser um paraíso fiscal (Tim Kiser via Wikimedia Commons)

É na origem legal da KT2, no entanto, que repousam várias dúvidas em relação a ela. A empresa tem como sócias o Group K2 Holding LLC, com 99,9% da sociedade, e o Group 2GK LLC, com apenas 0,01%. Ambas são sediadas no estado de Delaware, um dos menores dos EUA, mas que é conhecido por ser um “paraíso fiscal” dentro do país.

O estado consegue a proeza de ter mais empresas legalmente incorporadas em seu território do que habitantes. Estão lá em teoria grupos como Apple, Google, American Airlines, Coca-Cola, KFC, Verizon, McDonald’s e Disney e a atração do estado está ligada ao fato de que a carga tributária é mais baixa além de outras facilidades para abrir uma empresa. Mas Delaware também atrai justamente quem busca sigilo em suas operações por meio das chamadas Limited Liability Companies (LLC), que protegem a identidades de seus integrantes.

Segundo o Instituto dos Profissionais de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (ILPD), “são por estes motivos que Delaware se mostra uma verdadeira oportunidade para que os criminosos lavem dinheiro de forma segura, fácil e barata. Na prática as sociedades abertas em Delaware existem somente no papel e servem apenas para esconder a identidade daqueles que se beneficiam da corporação, permitindo facilmente a lavagem de dinheiro ilícito“.

Trecho da Rodovia do Aço: concessão assumida pela KT2 das mãos da Acciona

Transparência

Nos três anos em que está parado, o projeto da Linha 6-Laranja demonstrou o quão refém a sociedade é em relação a setores como os de infraestrutura, cujas grandes empresas foram condenadas por práticas de corrupção, conluio e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Uma obra da importância desse ramal, que um dia irá beneficiar mais de 600 mil pessoas todos os dias, não poderia estar nas mãos de empresas que descumprem cláusulas contratuais e ainda assim permanecem praticamente intocáveis.

Espera-se que o desfecho desse imbróglio não acabe sendo outra decepção para a população. Mais do que nunca, é preciso transparência nos processos geridos pelo governo estadual, algo que tanto ele diz prestigiar.

About the author

Ricardo Meier

É um entusiasta do assunto mobilidade e sobretudo do impacto positivo que o transporte sobre trilhos pode promover nas grandes cidades brasileiras. Também escreve nos sites Airway (aviação) e AUTOO (automóveis).

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