Ferroanel ressurge fora de hora e causa preocupação sobre Trem Intercidades para Campinas
Discussão sobre corredor ferroviário de cargas ocorre quando obras do TIC Eixo Norte já começaram e acordos com concessionárias estavam definidos
A retomada das discussões sobre o Ferroanel Norte voltou a gerar preocupação entre especialistas do setor ferroviário por ocorrer justamente quando o Trem Intercidades (TIC) Eixo Norte já entrou em fase de implantação. O receio é que a defesa de uma solução de longo prazo para o transporte de cargas acabe atrasando um projeto regional de passageiros que já possui contratos assinados, licença ambiental emitida e obras em andamento.
O tema ganhou força após o ministro dos Transportes, George Santoro, mencionar recentemente que, em vez de priorizar a segregação de vias ferroviárias para o TIC entre São Paulo e Campinas, talvez fosse mais adequado investir diretamente na construção do Ferroanel.
O Ferroanel é um projeto antigo que prevê um anel ferroviário para desviar trens cargueiros da Região Metropolitana de São Paulo. A proposta é considerada estratégica porque reduziria a circulação de composições de carga em áreas urbanas densas e liberaria capacidade nas linhas atuais.
Na prática, porém, o projeto ainda está longe de sair do papel. Embora exista licença prévia ambiental, o Ferroanel segue sem definição clara de custos, cronograma ou modelo de implantação. Estimativas citadas no setor apontam investimentos em torno de R$ 6 bilhões, mas ainda cercados de incertezas técnicas e financeiras.
Projeto do Ferroanel foi proposto anos atrás (Governo federal)
A preocupação no setor ocorre porque o TIC Eixo Norte já havia sido estruturado justamente considerando a segregação parcial das vias existentes, solução negociada durante as renovações antecipadas das concessões ferroviárias conduzidas pelo governo federal e pela ANTT.
No caso da MRS, uma das concessionárias envolvidas, o acordo de renovação incluiu obrigações ligadas ao apoio operacional ao Trem Intercidades. O projeto paulista foi estruturado em parceria entre governo estadual, União e concessionárias ferroviárias, com divisão de responsabilidades e cronograma definido.
Enquanto o Ferroanel ainda depende de modelagem mais ampla, o TIC já teve sua implantação iniciada. As obras começaram em março entre Jundiaí e Campinas após emissão da licença ambiental pela Cetesb. O projeto prevê serviços regionais e metropolitanos compartilhando parte da infraestrutura ferroviária existente.
Layout conceitual do futuro trem empregado no TIC Campinas (Divulgação)
Especialistas apontam que a própria segregação prevista para o TIC já ajudaria a reorganizar o transporte de cargas sem necessidade imediata de um novo corredor ferroviário completo fora da mancha urbana.
Por isso, o debate atual é visto com cautela. A avaliação é que o Ferroanel possa ser importante no longo prazo, mas que uma eventual mudança de prioridade neste momento criaria insegurança sobre um projeto considerado um dos principais investimentos ferroviários de passageiros do país.
O TIC Eixo Norte prevê ligar São Paulo a Campinas em pouco mais de uma hora, utilizando trens com velocidade máxima de até 140 km/h. O serviço será operado pela concessionária TIC Trens, formada pelo Grupo Comporte e pela chinesa CRRC.
