A poeira e a terra revirada eram um cenário comum na época, mas foi numa noite do final de setembro de 2013 que o primeiro vagão do monotrilho da Linha 15-Prata foi entregue. O pátio Oratório mal tinha sido coberto e parecia até temerário deixar um trem em meio às obras, mas 11 meses após aquele dia o primeiro ramal de grande capacidade do gênero no Brasil foi inaugurado. Duas estações foram concluídas nesse meio tempo assim como sistemas, vigas-trilho, além é claro do mínimo do pátio para que a linha entrasse em funcionamento restrito.

Trazendo esse cenário para os dias de hoje esse exemplo, podemos vislumbrar que a Linha 17-Ouro estaria próxima de um estágio semelhante em 2019 caso o consórcio responsável por fabricar os trens, o Monotrilho Integração, não houvesse fingido trabalhar durante anos. Imagens e vídeo das obras produzidos pelo Metrô em abril mostram que o pátio Água Espraiada já possui um dos prédios principais recebendo boa parte da cobertura metálica assim como outras construções seguem tomando forma.

É uma ironia pelo fato de que o pátio foi por muito tempo o gargalo do projeto. Não por acaso, o primeiro consórcio a tocar sua obra foi, vejam só, formado pela Andrade Gutierrez e CR Almeida, construtoras que passaram mais tempo com os canteiros parados que trabalhando desde 2012. Nas mãos da TIISA, o pátio avançou nesse meio tempo e hoje  estaria a poucos meses de poder receber um trem nos mesmos moldes da Linha 15.

O primeiro vagão do monotrilho da Linha 15 no pátio Oratório em setembro de 2013 (Sergio Mazzi)

Mas isso é impossível a médio prazo porque não só as duas construtoras citadas acima não entregaram as vigas-trilho do pátio como outro membro da “sociedade”, a Scomi Rail, também fingiu que estava fabricando os trens do monotrilho. A empresa da Malásia, aliás, acaba de ter sua interdição judicial decretada em seu país, o que significa algo parecido com a concordata no Brasil. O mais absurdo disso é ler a declaração da empresa-mãe Scomi, que atua em outras áreas e que continua funcionando normalmente por lá. Ela alegou que a Scomi Rail “não terá nenhum impacto em seus resultados”. Ou seja, o negócio de produzir monotrilhos era tão insignificante que nem podia ser levado a sério.

Porém, durante seis anos os malaios fizeram crer que algo estava ocorrendo. Em primeiro lugar, sua sócia brasileira, a MPE, divulgou que as primeiras caixas dos vagões estavam sendo construídos no Rio de Janeiro. Mais tarde, a fabricante malaia anunciou com pompa uma fábrica no interior de São Paulo que seria responsável não só pelos monotrilhos das linhas 17, 18 e também de um fracassado monotrilho de Manaus como ponta de lança para exportação para outro países. Na prática, a Scomi só tinha mesmo dois clientes, o governo de Kualu-Lumpur, capital da Malásia, e Mumbai, onde seus monotrilhos circularam por pouco tempo.

Nova licitação no segundo semestre

Graças aos meandros jurídicos do Brasil onde pouca gente paga pelos seus erros se tem dinheiro, a situação da Linha 17 é patética. Após anos de disputas na Justiça, o Metrô rescindiu o contrato com o consórcio Monotrilho Integração e promete uma nova licitação para o segundo semestre. A nova empresa que vencer o certame terá de completar o lançamento de vigas, instalar sistemas e, finalmente, fabricar os monotrilhos. Espera-se que desta vez seja para valer. Até lá, tanto o pátio quanto as estações (elas também andando a passo de tartaruga por razões óbvias) deverão estar prontos há bastante tempo.

O trem “fake” da Linha 17-Ouro: visual do Metrô de São Paulo, mas sem nenhum equipamento de acordo (Scomi)