Metrô e trem avançam sobre ônibus na mobilidade da Grande São Paulo

Linha 5-Lilás

“Se você construir ele virá”, diz uma voz na mente de Ray Kinsella, personagem do ator Kevin Costner no filme “Campos dos Sonhos” e que fantasia sobre um time de beisebol vindo do além para jogar no campo construído em meio a um milharal. Emprestando a famosa frase do cinema de 30 anos atrás, pode-se afirmar que sim, basta construir linhas de metrô e trem para que os passageiros venham.

É o que revelou a pesquisa Origem Destino 2017, promovida pelo Metrô de São Paulo a cada 10 anos e que traça um retrato da mobilidade na Grande São Paulo desde 1967, ano da sua primeira edição. Realizada por uma equipe de entrevistadores que sai a campo visitando residências, colhendo dados em rodovias e aeroportos, ela é uma ferramenta fundamental para traçar os projetos de mobilidade não só do próprio metrô, mas de todos os modais possíveis.

Como se sabe, trata-se de um tema dinâmico. Pessoas necessariamente não permanecem fazendo a mesma coisa por muito tempo. Ao contrário, se adaptam às novas situações e com isso seu modo de deslocamento. E aí é que está a beleza de tudo, ver como o impacto de projetos bem planejados pode refletir positivamente no cotidiano da sociedade.

Foi isso que a pesquisa mais recente revelou. Após vários anos de expansão metroferroviária, o transporte sobre trilhos avançou significativamente, passando a fazer parte do dia a dia de mais pessoas. No período abordado pelo levantamento, o Metrô cresceu de 61,4 km para 89,8 km e a CPTM, de 251,1 km para 267,5 km. Como um todo, a rede cresceu 45 km em sua extensão, além de ter recebido trens mais modernos, velozes e confortáveis. No mesmo período, foram acrescentadas ou recuperadas 27 estações.

Metrô e trens agora respondem por 16,4% das viagens. Participação dos ônibus caiu

Veja que esses dados não chegaram a incluir o avanço obtido entre 2018 e 2019, que fez a Linha 5-Lilás chegar à Chácara Klabin, a Linha 4 ganhar mais estações assim como a Linha 15, e a CPTM inaugurar sua primeira linha nova, a 13-Jade.

Mesmo assim, as viagens diárias por metrô e trem cresceram significativamente. Foram de pouco mais de 3 milhões em 2007 para 4,645 milhões em 2017, uma alta de 53% e que agora representam 16,4% das viagens motorizadas contra 12% há 12 anos.

Nesse mesmo período, as viagens de ônibus, principal meio de transporte coletivo na Grande São Paulo, caíram de 9 milhões para 8,3 milhões, ou quase 8%. Ainda assim representam quase um terço dos deslocamentos motorizados, um sinal de quanto a rede sobre trilhos ainda pode crescer e enfim se tornar o principal meio de transporte em São Paulo.

Todas as demais regiões da Grande São Paulo ampliaram viagens, com exceção do ABC Paulista

Antes disso, no entanto, será preciso superar os automóveis. Em que pese a expansão das linhas, o surgimento dos aplicativos de transporte individual e a crise econômica, as viagens com carros cresceram de 10,4 milhões para 11,3 milhões em 2017, um acréscimo de quase um milhão de deslocamentos. Com isso, os automóveis permanecem como principal meio de transporte motorizado na macrometrópole com 40% das viagens, mas com um pequena queda em relação a 2007 de apenas 1%.

ABC Paulista carente de transporte público

Vale observar que a pesquisa OD do Metrô apontou que o transporte coletivo na capital paulista supera o individual. “Ressalta-se que o peso do município de São Paulo foi determinante na manutenção do predomínio do modo coletivo sobre o individual na região metropolitana”, ou seja sem os dados de São Paulo o automóvel prevalece em outras regiões, um indício claro da ausência de transporte coletivo de qualidade.

Sem transporte público de qualidade, ABC é região onde mais se utiliza o transporte individual na Grande São Paulo

Ironicamente, salta aos olhos os péssimos índices de mobilidade do ABC Paulista, reunidos na chamda sub-região Sudeste na pesquisa do Metrô. Os munícipios da região apresentam a maior participação dos automóveis nos deslocamentos diários, dado que cresceu de 53,3% para 55,6% em 2017. Para efeito de comparação, na capital, melhor servida de trilhos, os carros representam 42% das viagens motorizadas.

Apesar de não contar com linha metroviária, o ABC ampliou o uso do modal nesses anos, assim como o do trem, representado pela Linha 10-Turquesa. A razão foi a melhor conexão trazida pela inauguração da estação Tamanduateí da Linha 2-Verde, que facilitou o acesso da região ao restante da rede.

Ao mesmo tempo, as viagens por ônibus e automóveis caíram no período. É um claro indicador de que o ônibus (com uso em queda) mesmo com o corredor ABD não tem sido suficiente para promover mais deslocamentos no município, ao contrário de Santo André ou mesmo São Caetano, que são atendidas por trilhos e apresentam uma média bem mais elevada de viagens por habitante.

Para azar dos são-bernardenses, o governo João Doria decidiu cancelar a Linha 18-Bronze nesta semana utilizando entre seus argumentos o fato de que a demanda de transporte na região caiu por conta de vários fatores incluindo o uso de aplicativos, uma falácia já que a participação desse tipo de transporte subiu de 0,05% para 0,09% em 2017. Ou seja, praticamente nada.

O cenário real revelado pela pesquisa Origem Destino é a de que o ABC Paulista possui hoje a pior mobilidade da Grande São Paulo. Ela foi a única região a ver as viagens em qualquer modo caírem em relação a 2007. Invertendo a frase do filme de 1989, “se você não construir, eles (os passageiros) não virão”. Se depender da atual gestão, a região está condenada à continuar a ser uma ilha na mobilidade.

Atualizado em 06 de julho de 2019 para correção de dado errado.

Corredor ABD: uso de ônibus caiu no ABC Paulista entre 2007 e 2017 (Igormartinez99/Wikimedia)
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(Jhlimones/Wikimedia)

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