O que é a Área 6 e por que ela voltou a complicar as obras da estação 14 Bis

Trecho de cerca de 320 m² revelou possível área sagrada de um terreiro e exige escavação arqueológica antes do avanço da Linha 6-Laranja

Achados arqueológicos da área 6
Achados arqueológicos da área 6 (IPHAN)

A paralisação das obras da estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja, voltou a ganhar repercussão nos últimos dias por causa dos achados arqueológicos no canteiro. O problema, revelado em primeira mão pelo MetrôCPTM, está concentrado principalmente em uma pequena parcela denominada Área 6, onde as escavações revelaram estruturas e objetos que podem ter pertencido a uma área sagrada de um antigo terreiro de Candomblé.

Mas o que é exatamente a Área 6 e por que os trabalhos nessa parte da futura estação exigem tantos cuidados?

O relatório prévio elaborado em julho pela A Lasca Arqueologia, responsável pelo acompanhamento arqueológico da obra, permite reconstruir em detalhes o que aconteceu desde que as escavações chegaram a esse ponto do canteiro.

Área 6 tem cerca de 320 m²

O nome pode sugerir uma divisão prevista no projeto da estação, mas não é esse o caso. Área 6 é a denominação adotada pelos arqueólogos para uma faixa de 29 metros por 11 metros, cerca de 320 m², que a equipe de engenharia chamava originalmente de Setor 1.

A mudança de nome serviu para dar continuidade à sequência das áreas anteriormente investigadas no sítio arqueológico Saracura/Vai-Vai: Áreas 1, 2A, 2B, 3, 4 e 5.

A localização é fundamental para entender o problema. A Área 6 está imediatamente ao lado da Área 4, onde pesquisas anteriores já haviam identificado estruturas arqueológicas associadas à ocupação histórica da região.

Quando os trabalhos começaram ali, em 6 de junho, não se tratava inicialmente de uma nova escavação arqueológica integral. As obras podiam prosseguir sob monitoramento, com arqueólogos acompanhando a movimentação do solo e verificando eventuais vestígios.

Na parte inferior, a Área 6 (IPHAN)

O procedimento havia sido aprovado pelo Iphan e permitia que estruturas encontradas fossem expostas, registradas e, depois dos procedimentos arqueológicos necessários, removidas para que a construção da estação continuasse.

Havia, porém, uma condição importante: caso surgissem achados inéditos, os trabalhos naquele ponto deveriam ser interrompidos e o Iphan comunicado. Foi justamente o que ocorreu.

Paredes começaram a surgir sob o canteiro

Nos primeiros níveis apareceram estruturas relativamente recentes, incluindo pilares de concreto. Conforme o terreno foi rebaixado, porém, surgiram alicerces feitos com tijolos maciços.

A escavação mecanizada passou então a ser interrompida nos pontos onde essas estruturas apareciam. Os arqueólogos faziam a exposição manual, limpeza, registro e coleta dos objetos encontrados antes da continuidade dos trabalhos.

Gradualmente surgiu uma configuração mais complexa. Foram identificados quatro conjuntos de alicerces, pisos cimentados, restos de um banheiro, galerias de água e esgoto, pisos de tacos de madeira e vestígios de diferentes cômodos.

Achados arqueológicos da área 6 (IPHAN)

Mais importante: a disposição dessas estruturas indicava que elas continuavam para dentro da Área 6 a partir da vizinha Área 4.

O que inicialmente era apenas monitoramento da obra começava, portanto, a revelar outra parte de uma construção histórica já identificada pelos arqueólogos.

Possível área religiosa muda a investigação

A situação ganhou outra dimensão quando começaram a aparecer elementos que poderiam estar relacionados a práticas religiosas de matriz afro-brasileira.

Em um cômodo associado a um dos alicerces foi encontrada uma cavidade construída no piso e parcialmente selada. Com profundidade máxima de 2,27 metros, ela continha uma concentração de fragmentos de vidro e louças. Os arqueólogos levantaram a hipótese de que objetos tivessem sido intencionalmente depositados naquele ponto. 

Outros achados vieram posteriormente. Em julho, foram encontrados dois depósitos contendo aproximadamente 1 kg de uma substância azul identificada preliminarmente como anil, chamado de waji em práticas do Candomblé.

No mesmo contexto apareceram ossos bovinos e suínos, fragmentos de ovo de galinha e outros objetos.

Também foram localizadas hastes de madeira dispostas verticalmente, uma conta de vidro verde, pregos fixados no chão e um martelo preso ao piso cimentado.

Estação 14 Bis-Saracura em agosto de 2026 (Willian Moreira)

Não é apenas o objeto que importa

Esse é um dos pontos que ajudam a explicar por que a arqueologia passou a interferir novamente no ritmo da construção.

Um martelo, alguns pregos, ossos ou uma quantidade de anil considerados isoladamente dizem relativamente pouco sobre a antiga ocupação do terreno. O significado arqueológico está na combinação desses elementos, na profundidade em que foram encontrados e, sobretudo, na posição deles em relação às paredes e pisos.

A A Lasca recorreu à pesquisadora Syntia Pereira Alves, doutora em Ciências Sociais e especialista em religiões de matriz afro-brasileira, para avaliar o contexto.

Segundo a interpretação apresentada no relatório, a associação entre anil, restos de animais, ovo, hastes de madeira e objetos metálicos fixados ao piso constitui um forte indício de uso religioso permanente daquele espaço.

Novos vestígios arqueológicos encontrados (Willian Moreira)

As hastes podem corresponder a atori, utilizadas em rituais de Candomblé. Já o martelo e os pregos presos ao piso são associados pela pesquisadora principalmente a Ogum e Exu.

A interpretação preliminar vai além. O cômodo poderia ter sido um chamado “quarto de Ogum” ou “quarto de Exu”, espaço reservado dentro de um terreiro para assentamentos e práticas relacionadas a esses orixás.

O relatório ressalta, no entanto, o caráter preliminar da interpretação dos vestígios encontrados.

Área 6 seria continuação da Área 4

A disposição das paredes também ajudou os pesquisadores a compreender o que estavam encontrando.

Segundo a A Lasca, as estruturas da Área 6 são uma continuação física daquelas anteriormente identificadas na Área 4. A hipótese atual é que parte desse conjunto tenha integrado um terreiro e que os ambientes encontrados mais recentemente correspondam justamente a espaços de caráter sacralizado.

O relatório considera ainda a possibilidade de modificações posteriores na construção. Pequenos alicerces acrescentados em outra época podem indicar que o imóvel tenha sido posteriormente subdividido em vários cômodos e utilizado como cortiço.

Essa sucessão de ocupações ajuda a explicar por que estruturas e objetos de períodos e funções diferentes aparecem sobrepostos no mesmo local.

Área que estava sendo escavada até o mês passado (Willian Moreira)

Por que a escavação ficou muito mais lenta

A consequência prática dos novos achados é que essa parte do canteiro não pode mais ser tratada como uma escavação convencional acompanhada por arqueólogos. As parcelas que ainda contêm estruturas foram isoladas e a A Lasca recomendou uma investigação específica.

O solo deve ser retirado manualmente em camadas de apenas 10 centímetros até a exposição dos pisos. As estruturas precisam ser fotografadas e submetidas a levantamento fotogramétrico para produção de modelos tridimensionais.

Alguns objetos sequer podem ser simplesmente retirados do chão. No caso dos elementos fixados ao piso, a recomendação é cortar controladamente um bloco do próprio piso cimentado e removê-lo juntamente com as peças.

A razão é preservar exatamente a relação espacial que permitiu aos pesquisadores interpretar o possível uso religioso do ambiente.

Depois da documentação, as próprias estruturas poderão ser desmontadas manualmente, com coleta de amostras dos pisos e tijolos. Só então a construção poderá avançar nessa parcela, novamente sob monitoramento arqueológico.

É essa diferença entre encontrar objetos e encontrar um contexto arqueológico preservado que ajuda a explicar por que uma área de apenas cerca de 320 m² se tornou um dos pontos mais delicados da construção da estação 14 Bis-Saracura.