Opinião: sem conexão adequada, abertura da Linha 6-Laranja foi ato precipitado do governo

Trecho de seis estações não possui condições mínimas de atrair demanda relevante mesmo em período de testes

Trem da Linha 6 em operação assistida
Trem da Linha 6 em operação assistida (Ricardo Meier)

O governador Tarcísio de Freitas pode espernear afirmando que é criticado até quando antecipa entrega de obra, mas após conhecer a operação assistida das seis estações da Linha 6-Laranja, a minha impressão é que foi um ato prematuro e desnecessário.

O aspecto geral do serviço provisório é de um projeto que teve sua conclusão interrompida para servir de aceno eleitoral para o candidato à reeleição. Estações inacabadas, trens que circulam em modo manual e baixa velocidade, portas de plataforma inoperantes, tudo leva a crer que a Linha 6 abriu antes da hora.

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O argumento de que oferecer um serviço de transporte de qualidade como é o metrô é válido em qualquer circunstância não se justifica sobretudo pelo calcanhar de aquiles do trecho aberto: falta de uma conexão adequada com o restante da malha sobre trilhos.

É um cenário oposto ao da Linha 17-Ouro, que foi aberta praticamente pronta, apenas faltando ganhar quilometragem em sistemas e que já conta com uma interligação bem pensada nas estações Campo Belo e Morumbi.

Trens da Alstom são espaçosos (Ricardo Meier)

No caso da Linha 6, nem isso está em execução no momento. O único ponto de contato com outros trilhos é a estação Água Branca, mas para isso o passageiro deve sair do novo ramal e caminhar até a entrada da Linha 7-Rubi. O trajeto inverso exige até mesmo atravessar os trilhos da passagem em nível existente no local. E para piorar, o usuário encontra um trem lotado para chegar à Barra Funda.

A situação preocupa porque a gestão estadual parece bater cabeça numa solução. A ideal é a nova “gare” a ser construída pela concessionária TIC Trens mas que esbarrou em burocracia e ainda não começou a sair do papel.

Mezanino da estação Água Branca (Ricardo Meier)

Já a solução provisória não está clara. Fala-se em uma estrutura ligando os acessos das duas estações e de trens da Linha 11-Coral indo de Barra Funda a Água Branca para buscar os usuários. Isso só em 2027, vale lembrar.

Trens espaçosos

Meu contato breve com a Linha 6 começou justamente em Água Branca e fui (por cerca de 15 minutos) a única “alma viva” dentro do local, sem contar funcionários.

Ao vivo, o vão pareceu muito grande (Ricardo Meier)

Aguardei o primeiro dos dois trens surgir para embarcar aleatoriamente, mas a espera foi longa. Permaneci por uma eternidade no estranho mezanino da estação, que está em desnível do trecho central, exigindo a instalação de alguns degraus.

Não havia escada rolante funcionando ali, apenas nos vários lances do poço de acesso. Apesar de toda propaganda sobre ser a estação mais profunda do sistema, minha sensação foi de que ela parece similar à Pinheiros ou Santa Cruz – pura impressão, sem qualquer preocupação em checar números, adianto.

Janelas amplas (Ricardo Meier)

Confesso que tinha uma expectativa ruim dos trens da Alstom após andar na Série 8900, que me espantou pelo estado um tanto desgastado em tão pouco tempo. Mas as unidades da Linha 6 me agradaram. A configuração com portas abrindo para fora da caixa e as enormes janelas, além dos bancos laterais, proporcionam uma sensação bastante ampla no interior.

A parte frontal, onde há o enorme parábrisa e o painel de comando, estava isolada e não foi possível me aproximar, mas certamente será um ponto de atração, como na Linha 4.

Escadas rolantes desativadas (Ricardo Meier)

Embora a abertura das portas seja prática, o ruído emitido é alto. Também me chamou a atenção um vão muito grande entre o trem e a plataforma.

Em tempos de telas de LED espalhadas por todos os lugares, causou estranheza a Alstom não tê-las usado no mapa de estações ou mesmo instalando um pequeno painel de informações. Pode ser um pedido da própria Linha Uni e algo que no futuro será possível corrigir.

A despeito da aparência simples no exterior, as estações possuem acabamento de boa qualidade no interior, mas isso em meio a muitas áreas inacabadas. Será preciso ver tudo pronto para emitir uma opinião definitiva.

Placas para impedir passageiros entre as portas (Ricardo Meier)

Por alguns instantes, enquanto o trem se deslocava em baixa velocidade, imaginei como esses carros estarão cheio daqui há algum tempo, quando a Linha 6, de fato, for “inaugurada”.

Serão mais de 600 mil pessoas diariamente deixando ônibus e carros para trás para ganhar tempo precioso. E menos poluentes emitidos, além de uma transformação no entorno das estações, com verticalização e abertura de mais negócios.

A transformação proporcionada pelo transporte metroferroviário não tem nada igual no planeta. Só precisa ser acompanhada de políticas habitacionais apropriadas para não expulsar pessoas de baixa renda.

Por enquanto, contudo, isso ainda é sonho já que na prática a Linha 6-Laranja ainda é uma espécie de rascunho.