Sem citar nomes, a coluna Painel, da Folha de São Paulo, levantou uma questão importante sobre a concessão das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, da CPTM, cujo edital deverá ser publicado pelo governo em agosto. A gestão Doria aposta nesse futuro parceiro privado para ampliar a frota de trens disponíveis e por isso incluiu entre os requerimentos ao concessionário a aquisição de 30 composições novas para serem usadas nos dois ramais.

Com isso, boa parte dos trens hoje usada nas linhas 8 e 9 será repassada para outros ramais, como as linhas 10-Turquesa, 11-Coral e 12-Safira, nesse caso os 36 trens da Série 8000, além de parte dos 7000 hoje utilizados. O problema, no entanto, é que a CPTM estipulou um prazo de apenas 15 meses para esses novos trens comecem a ser usados pela concessionária, sendo 12 deles para fabricação e entrega e três meses para a liberação operacional.

Parece uma missão praticamente impossível de ser cumprida pelo parceiro privado afinal  trens não são vendidos na “prateleira”: precisam atender a requisitos específicos de cada operador, por mais que boa da estrutura e sistemas seja padronizada. Além disso, vivemos um período em que a indústria como um todo está abalada pela pandemia do coronavírus e não seria surpresa se parte dos fornecedores tivesse problemas para entregar componentes, por exemplo.

Como o governo estima que o contrato será assinado no início de 2021, o primeiro trem deveria chegar em meados do ano seguinte e entrar em serviço no segundo semestre. Isso pode deixar o futuro operador das linhas com menos opções de fornecedores já que optar por um fabricante novo é praticamente proibitivo por conta de todo o processo necessário para produzir uma composição inédita. A Série 2500, por exemplo, que foi a última encomenda da CPTM e comprada da chinesa CRRC-Sifang com apoio técnico da brasileira Temoinsa, acabou sendo entregue em setembro do ano passado para ser usada na Linha 13-Jade, mas a estreia só ocorreu em janeiro deste ano, quase sete meses após ser concluída na China.

Ou seja, o caminho natural para a concessionária seria negociar com os atuais fornecedores da CPTM como a espanhola CAF, a sul-coreana Rotem e a francesa Alstom. As três possuem instalações no Brasil e forneceram as séries 8500, 9500 e 9000 recentemente. Como esses trens praticamente seguem os requisitos do edital não haveria grande dificuldade em produzi-los novamente e colocá-los em operação.

Série 8500, fabricada pela CAF: 15 trens emprestados para a concessão (GESP)

Segundo um executivo do setor ouvido pelo site, usualmente o tempo de entrega de um novo trem leva de 16 a 18 meses a partir da assinatura do contrato. Mas ele lembra que isso é um prazo para operadoras públicos, já para uma empresa privada “o prazo de 12 meses pode até ser curto, mas é exequível. Esse projeto da concessão das Linhas 8 e 9 exige sim um ritmo mais acelerado, pois o sistema necessita de mais trens e a licitação dos 34 trens (da CPTM) foi paralisada por falta de recursos. Na verdade, se você tiver um projeto já em operação (como as séries 8500 ou 9500) o prazo pode até ser menor pois o que demora é a concepção do projeto, aprovação, testes de validação, treinamento, etc. Se for um trem igual aos que estão em serviço será preciso fazer apenas os testes de rotina e não os testes ‘tipo’. Com pouco treinamento pode-se colocar o trem em operação, bastando para isso apenas planejar bem e ser eficiente“.

Rodízio de trens

Com a concessão, o governo quer resolver dois problemas ao mesmo tempo. Além de requalificar as linhas 8 e 9, o objetivo é conseguir ampliar a frota de trens da CPTM, hoje mais moderna, mas que carece de composições. A ideia original, de adquirir 34 novos trens, acabou sendo suspensa diante da perspectiva de contar com mais trens que hoje estão sobretudo na Linha 8, as 36 unidades da Série 8000, além de 25 Série 7000 que voltarão mais para a frente.

A Rotem entregou 30 trens para a CPTM nos últimos anos (GESP)

No entanto, para chegar ao modelo final, será preciso realizar um longo e complexo rodízio de trens. Segundo a minuta do edital de concessão, a futura empresa terá de entregar os 36 trens da Série 8000 logo que assumir, mas receberá em troca todos os 40 Série 7000 que hoje estão espalhados por várias linhas, incluindo duas composições avariadas e que deverão ser recuperadas por ela. Além deles, outros 15 trens da Série 8500, que estão em serviço na Linha 11-Coral, serão emprestados para o concessionário até o mês seguinte à entrada em serviço da primeira composição nova. Veja abaixo o cronograma de trocas.

O plano do governo é que após 30 meses de concessão (da data de assinatura do contrato), a concessionária esteja operando seus 30 trens novos e outros 15 Série 7500. Entre o 16º mês e o 30º mês de concessão, todos os 15 Série 8500 e 25 Série 7000 com menos quilometragem deverão ter retornado para a CPTM. É esse um dos grandes desafios para os participantes da licitação. Se der certo, será ótimo para o passageiro, que contará com mais trens e menores intervalos nas linhas a partir de 2022.

Em até dois anos e meio de concessão, todos os trens emprestados da CPTM deverão ter sido devolvidos (Reprodução)