Oito anos após serem iniciadas, as obras da Linha 17-Ouro do Metrô cada vez mais se tornam candidata a ser o pior exemplo de gestão de um projeto metroviário em São Paulo. E a ironia dessa situação inusitada está no fato de que um dos trechos mais atrasados no início é hoje talvez o mais adiantado deles, a estação Morumbi, que fará a ligação do ramal de monotrilho com a Linha 9-Esmeralda da CPTM.

A cargo da Camargo Correa, a obra avança sem grandes dificuldades e já atingia 82,8% de execução em abril, segundo a página da empresa na internet. O prazo de conclusão dos serviços está marcado para o dia 1º de julho, mas pode ser adiado já que ainda é visível que a estação possui mais trabalho pela frente. Neste fim de semana, o Metrô interdida a Marginal Pinheiros enquanto a CPTM interromperá a operação entre Santo Amaro e Berrini no domingo, 24, a fim de que sejam realizadas intervenções na ligação entre as duas estações.

Mesmo que demore mais alguns meses, a estação Morumbi será concluída bem antes do que o restante da obra, que vive de impasses e problemas pouco tempo depois ter sido iniciada, como o site tem mostrado há anos. O imbróglio mais recente envolve a fabricação dos trens de monotrilho, que deverão ser fornecidos pela empresa chinesa BYD SkyRail. Apesar disso, um dos consórcios derrotados na licitação, o Signalling, tenta barrar o contrato na Justiça pela segunda vez e pode, mesmo que não venha a reverter o processo, atrasar ainda mais a inauguração da linha.

Por falar em impasse, outra licitação, a de obras civis complementares, vencida pela Constran, está há mais de dois meses agurdando a análise de um recurso em segunda instância da Coesa Engenharia, que está em mãos dos desembargador José Orestes de Souza Nery desde o dia 16 de março.

A empresa, assim como o Signalling, não obteve sucesso em seu recurso em primeira instância, mas a Justiça brasileira prevê diversas manobras para travar contratos públicos e com isso chega-se a uma situação ruim para todos: o consórcio derrotado não vira o jogo, o que ganha  não leva, o governo não tira o projeto do papel e a população paga nas duas pontas, ao não ter a linha de metrô pronta e por ver seus impostos sendo consumidos à toa.

O resultado disso tudo é que está se tornando bastante improvável que a primeira fase da Linha 17-Ouro seja concluída até 2022, ou seja uma década depois de os primeiros trabalhos terem sido lançados. O mais absurdo é pensar que argumento do governo do estado é que o monotrilho seria uma obra barata e rápida além de bem mais inclusiva, ao atender bairros carentes como Paraisópolis, Vila Babilônia ou Cidade Leonor, mas essas regiões não serão atendidas tão cedo já que as fases seguintes estão suspensas indefinidamente.

Ou seja, a chamativa estação Morumbi da Linha Ouro será apenas um “enfeite” na paisagem na Marginal Pinheiros por pelo menos dois anos, caso não surjam novas surpresas indesejáveis nessa que é de longe a maior vergonha sobre trilhos da história.

Estação Morumbi da Linha 17-Ouro (CMSP)

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